Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

E agora no PISA: alunos portugueses melhoram a ciências, leitura e matemática

Alberto Frias

Depois de terem surpreendido nos testes internacionais realizados no 4º ano, os jovens portugueses mostram o quanto melhoraram no maior e mais conhecido dos estudos, o PISA. Na literacia científica e de leitura os jovens de 15 anos conseguiram ultrapassar “significativamente” a média da OCDE

Sofia Miguel Rosa

Sofia Miguel Rosa

Jornalista infográfica

As boas notícias no mundo da Educação continuam. Pela primeira vez em seis edições do PISA – o maior estudo nesta área que testa a literacia junto dos alunos de 72 países e regiões –, os estudantes portugueses de 15 anos conseguiram um desempenho significativamente acima da média da OCDE, tanto a ciências, como a leitura. A matemática mantiveram-se na média. Em todos os casos, a evolução é inegável desde que o país começou a participar neste estudo, em 2000, com Portugal a galgar várias posições na comparação internacional.

Foi um longo caminho para aqui chegar e muitos reivindicarão os méritos do sucesso. Mas o que os resultados do Programme for International Student Assessment (PISA) 2015 mostram sem margem para dúvidas - e na semana passada demonstrou o TIMMS, feito por alunos do 4º ano na área da matemática e ciências - é que o país já não pertence mais à cauda da Europa ou da OCDE.

No caso do PISA, a evolução começou logo no início do século, com saltos mais significativos no período 2000-2003, 2006-2009 e agora entre 2012 e 2015, nota o Instituto de Avaliação Educativa, responsável pela aplicação dos testes em Portugal a uma amostra representativa de mais de sete mil alunos.

O estudo realiza-se de três em três anos e pretende dar o retrato não tanto dos conteúdos aprendidos nas escola, mas daquilo que os miúdos de 15 anos conseguem fazer com eles, designadamente para “resolver situações relacionadas com o dia-a-dia das sociedades contemporâneas”. No caso da literacia científica, o domínio que esteve em destaque no PISA 2015, estão em causa a explicação de fenómenos cientificamente, conceber e utilizar o método científico para resolver um problema e interpretar dados e factos de forma científica.

Em 2000, Portugal ocupava a antepenúltima posição na literacia em ciências e em leitura. A Matemática só tinha quatro países atrás. Agora, e contando apenas com os 35 Estados que integram a OCDE, as posições de Portugal são estas: 17º na literacia científica, 18º em leitura e 22º a matemática. Se se contar com o universo de 72 participantes - dentro e fora da organização -, os lugares passam a 23º, 21º e 29º, respetivamente.

Curiosamente, e ainda que Portugal tenha sido um dos países a apresentar uma “tendência de melhoria significativa” dos resultados nos três domínios analisados, foi a ciências que os alunos mais se destacaram. A progressão entre os testes de 2015 e os de 2006 (quando a literacia científica foi também a principal área em avaliação) foi de 27 pontos, descolando da Grécia (que tinha um resultado semelhante a Portugal em 2006) em mais de 40 pontos, o equivalente – segundo a OCDE – a mais de um ano escolar. E entre 2015 e 2012 a diferença foi de 12, enquanto para leitura e matemática se ficou pelos 10 e 5 pontos, respetivamente.

Fazendo a comparação com o início da história do PISA, a progressão média foi de 2,8 pontos/ano em ciências, 2,6 em matemática e 1,8 em leitura.

Mas há mais: Portugal foi o país que registou uma melhoria mais acentuada na percentagem de alunos com os melhores desempenhos em literacia científica (a OCDE chama-lhes “top performers”, com resultados iguais ou superiores ao nível 5) entre os dois ciclos de avaliação (2006 e 2015) e um dos que mais viu a percentagem de “low achievers” (alunos com piores desempenhos, abaixo do nível 2) diminuir.

A culpa é tua, o mérito é meu

Na semana passada, o TIMMS (Trends in International Matehmatics and Sciences Study, mais centrado nos currículos e menos na aplicação a situações do dia-a-dia) mostrava que os alunos tinham progredido muito a Matemática - ultrapassando os exemplares finlandeses -, mas menos a Ciências, tendo até piorado a este nível nos últimos quatro anos.

Antigos e atuais responsáveis políticos viram aqui um reflexo da política educativa mais ou menos recente. Uns para dizer bem - o reforço das horas à disciplina tinham dado frutos a Matemática -, outros para dizer mal. O TIMMS mostrava o “afunilamento curricular”, que colocou as ciências em desvantagem. O mérito foi do programa de ação da matemática, na versão mais socialista. São as virtudes dos exames, dir-se-á mais à direita.

Curiosamente, o destaque vai agora para a progressão a ciências. A OCDE diz que Portugal, juntamente com a Colômbia, está entre os poucos sistemas educativos com reformas bem sucedidas nas melhorias dos resultados. No entanto, não especifica quais.

Além disso, ao longo das suas mais mil páginas de apresentação de dados, análises e cruzamentos o relatório mostra outras correlações. Os recursos dos departamentos de Ciências nas escolas, o tempo de aprendizagem, as qualificações dos professores, as abordagens dos docentes à disciplina e atividades extracurriculares pesam também nos resultados. E claro, os recursos que os alunos têm em casa. Mas não necessariamente a quantidade de dinheiro público alocado, sublinha-se.

Pesando estes fatores, e criando um índice combinado que inclui os resultados a Ciências, atitudes e percentagens de estudantes que querem trabalhar na área, Portugal está entre os sete sistemas educativos com maior desempenho, a par de Singapura, Austrália, Canadá, Irlanda, Eslovénia e Reino Unido.

Repetentes baixam médias. Só na Bélgica e em Espanha se chumba mais

As amostras usadas no PISA (para ilustrar as competências de mais de meio milhão de estudantes) são sempre representativas das respetivas populações escolares que, no momento dos testes, tinham entre 15 anos e três meses e os 16 anos e dois meses. O que devia significar, no caso português, que a grande maioria se encontrava no 10º ano.

Não é o caso e a percentagem de alunos na amostra portuguesa a frequentar este nível de ensino está pouco acima dos 50%, sublinha o IAVE. A razão é só uma: o elevado número de estudantes que chumbam pelo menos uma vez logo no ensino básico e que aos 15 anos ainda estão nos níveis anteriores.

Embora tenha diminuído de 35% em 2012 para 31,2%, em 2015, a percentagem de retenção até aos 15 anos é o dobro da média dos países da OCDE (12%). Apenas a Bélgica (34%) e a Espanha (31,3%) apresentam uma taxa superior (34%).

“Este fator não deixa de condicionar negativamente os resultados médios nacionais e é o reflexo da persistência de taxas de retenção elevadas no nosso sistema de ensino”, comentam os técnicos do IAVE.

Os resultados desagregados por ano de escolaridade são absolutamente claros. Os desempenhos médios são bons - a tocar os 550 pontos - entre os que já estão no 10º; e bastante fracos entre os que estão no 7º ou 8º e que já chumbaram várias vezes - abaixo dos 400 pontos. Ou seja, se muda a composição da amostra, também é natural que os resultados médios se alterem apenas por essa via e não de qualquer medida de política educativa.

Em 2015, houve mais alunos do 10º a participar, mas também de outros percursos que não o ensino regular e que tendencialmente baixam as médias. A boa notícia é que os resultados médios de todos – os que já chumbaram e os que estão em percursos profissionalizantes – melhoraram nos últimos anos.

Seguindo a tendência internacional, os rapazes continuam a sair-se melhor do que as raparigas a ciências (Portugal apresenta uma das maiores diferenças) e matemática. Na leitura, acontece o inverso.

Por regiões, o destaque vai para os alunos de escolas da região de Alentejo Litoral (os melhores nos três desempenhos), Lezíria do Tejo, Beira Baixa, Leiria e Viseu Dão Lafões. E pela negativa para o Tâmega e Trás-os-Montes.

  • Domínio asiático soma e segue

    Sete países asiáticos estão entre os dez participantes do estudo internacional PISA com melhores resultados na avaliação de literacia científica. Singapura lidera nos três domínios (Ciências, Leitura e Matemática), seguida - no caso das Ciências - pelo Japão