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O eterno lançador de talentos

joão lima

Júlio Isidro será para sempre lembrado como o apresentador que lançou uma geração de músicos e humoristas. Aos 71 anos, com 56 de carreira, conta em livro os bastidores da sua vida e dos seus programas

Tudo começou com um redondo não. Júlio Isidro era um rapaz de 15 anos, já bastante mais alto do que os seus colegas, e fora chamado do Liceu Camões para prestar provas nos estúdios da RTP, na época situados no Lumiar, a 16 de janeiro de 1960. Alguém o indicara por ser comunicativo e ter um jeito particular para a bricolage. Júlio, menino que sonhava com aviões (e sabia construí-los desde os 9 anos), vivia igualmente fascinado com a caixinha mágica que acabara de chegar a Portugal de onde se via o mundo a preto e branco.

Júlio decidiu tentar a sorte. Num dia invernoso, encheu-se de coragem e apanhou o elétrico, que lhe valeram oito tostões com paragem no número 44, da Alameda das Linhas de Torres, em Lisboa. Tremia de nervos e frio. Subiu a rampa dos estúdios e esperou na penumbra junto à placa “Silêncio — Gravação”. Chegado ao estúdio do “Telejornal”, onde se sentavam figuras como Henrique Mendes e Fialho Gouveia, teve de ler um texto que narrava o fascinante Portugal rural, mostrou o que valia o seu inglês e francês, inventou uma reportagem e foi-se embora com a clássica promessa: “Nós depois contactamos.” E, de facto, contactaram. Teria que se submeter a novas provas, porque ficara entre os finalistas. Dessa vez leu a página de um romance, algumas notícias desatualizadas do “Telejornal” e ainda... teve de contar uma anedota. Mas ninguém riu. Porque as câmaras não riem e quem está por detrás delas também não o fez. Semanas depois, o telefone de casa volta a tocar. Foi convocado para saber dos resultados. Quando chegou, ouviu logo o comentário contundente dos responsáveis pela seleção: “Estivemos a analisar as suas provas, você foi o melhor na leitura, no improviso e na anedota, mas não vai entrar porque... é o mais feio!” Assim, sem mais. Júlio despediu-se educadamente e chorou na viagem de elétrico até casa. Aprendeu aí uma dura lição de vida. Nem sempre ganham os melhores. “Senti aí o que vim a sentir várias vezes mais tarde. Que estaria bem para o cargo, mas que, por outras razões, nos últimos anos pelos meus cabelos brancos, não me achariam a pessoa indicada.”

Trofeu. Ao longo dos quatro anos em que apresentou todas as tardes de domingo o “Passeio dos Alegres”, de 1980 a 1984, Júlio Isidro oferecia um troféu aos vencedores dos vários passatempos. Um prémio com a forma do papagaio “Baixinho”, a mascote do programa

Trofeu. Ao longo dos quatro anos em que apresentou todas as tardes de domingo o “Passeio dos Alegres”, de 1980 a 1984, Júlio Isidro oferecia um troféu aos vencedores dos vários passatempos. Um prémio com a forma do papagaio “Baixinho”, a mascote do programa

joão lima

Dessa vez o ‘luto televisivo’ durou apenas uma semana. Voltam a chamá-lo, porque tinham reconsiderado. Precisavam de um rapaz para apresentar uma rubrica de modelismo no ‘Programa Juvenil’ e ele era o único candidato com mãos para a obra. E foi, assim, pelo jeito particular em construir aviões, barcos e carros que Júlio se estreou na televisão. Foi há 56 anos. Apresentou-se com um fato emprestado de um primo que vivia na Figueira da Foz, um blazer azul-escuro com botões dourados, os sapatos maiores do que os seus pés, num certo ar british, que é a sua imagem de marca. Passa a aparecer todos os sábados à hora do almoço em casa dos portugueses a falar para a malta nova como ‘uma espécie de carpinteiro em cena’ com a rubrica ‘mãos à obra’. Ou a divulgar jogos, livros, músicas e desportos. Ao seu lado estavam outros dois jovens, a atriz Lídia Franco e o neurocirurgião João Lobo Antunes, claro está, antes de seguirem as respetivas profissões. Nota curiosa, foi nesse mesmo programa que se estrearam a pianista Maria João Pires e o maestro Victorino de Almeida. Foi também aí que Júlio apresentou uma das primeiras bandas de rock em Portugal, os Megatones. Era a origem seminal do Júlio, lançador de talentos musicais ou, como ele gosta de dizer com muita graça, ‘empurrador’ de novos artistas. Embora nessa altura não tivesse voto na matéria musical apresentada. Lídia Franco, então com 14 anos, bailarina em formação, era a bela do pedaço. Recorda-se de Júlio como “um gentleman”. Tal como era Lobo Antunes, esse bem mais tímido. “Julgo que o Júlio teve um béguin por mim [uma paixoneta], mas nunca deu um qualquer passo que não devesse. E já aí tinha uma noção apurada de como apresentar”, evoca Lídia.

Nessa fase o complexo de ‘patinho feio’ perseguia-o. Ao seu lado, João Lobo Antunes, bonito, de olhos azuis e cabelo louro recebia dezenas de mensagens de meninas com pedidos de correspondência ou fotografias autografadas. “As meninas choviam em cartas para ele.” Para Júlio nem um escrito apaixonado. Apenas cartas de rapazes modelistas a quererem aprender mais sobre aviões e maquinetas. O que o deixava triste e com a autoestima em baixo. Mas mantinha-se o melhor apresentador jovem em antena. “Realmente, um metro e oitenta e três de rapaz, pouco mais de 60 quilos, nariz tipo quebra-gelos do Ártico, orelhas de abano e dentes de ratolas só podiam ser compensados por alguma capacidade de expressão e gracinha como apresentador.” Um dia houve em que chegou a primeira carta de uma admiradora. Depois outra e mais outra. E o rapaz, um pouco tímido até, ganha confiança. Na verdade, era uma ilusão, mas o que seria da vida (e da televisão) sem ela? “Só uns anos mais tarde vim a descobrir que a autoria dessas cartas era das minhas irmãs gémeas, a Dadinha e a Dadão, que forjaram as letras e as assinaturas. Ainda hoje lhes agradeço por resolverem esse meu problema gravíssimo”, ironiza.

Este é um dos episódios contados agora em livro por Júlio Isidro, a sua obra autobiográfica com quase 400 páginas de histórias pessoais e profissionais editado pela Marcador. Em “O Programa Segue Dentro de Momentos” [frase muito usada no passado quando havia um corte na emissão], aquele que é o apresentador mais antigo no ativo, o eterno ‘tio Julião’, por muitos considerado o ‘senhor-televisão’, fala de si, conta de onde veio, como tudo começou, as adversidades, os imprevistos, mas, acima de tudo, recorda os artistas com quem se cruzou e lançou. Dando a conhecer a quem não sabe, ou já se esqueceu, porque é que será para sempre lembrado como o padrinho dos músicos de uma geração, com um jeito muito seu para misturar cultura com puro entretenimento.

Seguir no caminho das suas memórias é viajar no tempo até aos programas que marcaram tantos de nós. E a uma época que não se repete, sem chamadas de valor acrescentado ou formatos estrangeiros a ditarem modas e audiências. Era quando o país parava para ouvir a telefonia ou ligar o televisor.

Júlio surge muito cedo como inventor de programas originais. Quis sonhar novas formas de comunicar e entreter. Depois do debute juvenil na televisão, apresenta durante dois anos o “Fungagá da Bicharada”, nos tempos quentes da revolução, uma autoria sua e de José Barata Feio, onde transforma em canções a vida animal, e marca uma geração de crianças, que o viram também mais tarde em “Clube Amigos Disney”, com certeza uma parte dos leitores deste texto.

Mas é na rádio que Júlio se afirma primeiro como grande comunicador e autor de programas originais. Começa por apresentar noticiários no Rádio Clube Português, fez par com Ana Zanatti no programa “CDC”, Clube das Donas de Casa, e é quando se muda para a Rádio Comercial que começa a dar mais nas vistas, por levar a rádio para a rua com o “Grafonola ideal”, feito de passatempos, entrevistas e reportagens.

Passemos a cassete da sua vida para a frente. É no início dos anos 80 que Júlio inicia uma epidemia febril na rádio com o popular “Febre de Sábado de Manhã”, em que conduziu durante três horas um programa musical em direto: “O filme ‘Febre de Sábado à Noite’ [com John Travolta] estava na berra e propus um programa dedicado à malta da pesada, com gosto por música, pelo rock e não só.” As emissões passam a ser realizadas no Cinema Nimas, em Lisboa, uma sala com 180 lugares que se enchiam à pinha com a tal ‘malta da pesada’ que ia assistir ao vivo, a troco de nada, as novas bandas de garagem que surgiam em força na década em que o pop e o rock português se inventava. E foi assim que no dia 2 de fevereiro de 1980, o jovem Carlos Paião se estreou de bata branca e estetoscópio ao pescoço, já finalista de Medicina. Ou, pouco depois, um tímido e nervoso Rui Veloso, com 23 anos, de viola na mão a cantarolar ‘Chico Fininho’ e a ‘Rapariguinha do Shopping’. Assim como os UHF, a mostrarem de que era feito o seu rock e os seus ‘Cavalos de Corrida’.

Em 1960, poucos dias depois de completar 15 anos, Júlio Isidro coapresenta o “Programa Juvenil”, com Lídia Franco e João Lobo Antunes

Em 1960, poucos dias depois de completar 15 anos, Júlio Isidro coapresenta o “Programa Juvenil”, com Lídia Franco e João Lobo Antunes

António Manuel Ribeiro recorda-se bem desse momento inaugural que lançou a banda. “Aquele era o programa que toda a nossa geração ouvia. Tínhamos acabado de gravar uma maqueta com um single. O Júlio ouviu a gravação, foi assistir a um concerto nosso em Almada e, na semana seguinte, estávamos a atuar no Nimas para aquela assistência toda. A miudagem ia para lá bater palmas, divertir-se a ouvir as bandas, em comunhão. Recordo-me do Júlio sempre simpático, disponível. Ele era uma porta aberta para bandas como a nossa.”

Para a história da rádio ficou o sábado em que Júlio conseguiu encher o Estádio de Alvalade com 40 mil pessoas, e bilhetes a 50 escudos (25 cêntimos de euro), para assistirem à atuação de bandas como os Táxi, e o seu ‘Chiclete’, Adelaide Ferreira e o seu ‘Baby Suicida’ e ainda os ingleses Fischer Z ou Tantra.

Em 1981, o programa de rádio “Febre de Sábado de Manhã” realiza no Estádio de Alvalade um espetáculo de homenagem ao jogador Artur, do Sporting, que contou com 45 mil jovens

Em 1981, o programa de rádio “Febre de Sábado de Manhã” realiza no Estádio de Alvalade um espetáculo de homenagem ao jogador Artur, do Sporting, que contou com 45 mil jovens

O carinho do público pelo ‘tio’ Julião crescia. Ele era o tipo que estava a agarrar uma geração, o que não passou despercebido a Maria Elisa Domingues, na altura diretora de programas de RTP, que o desafia a preencher as tardes de domingo. Carta branca. É quando Júlio abre caminho para o “Passeio dos Alegres”. Um dos mais populares e originais programas dos anos 80. Por contraponto ao passeio domingueiro dos tristes, Júlio revoluciona a forma de fazer e ver televisão.

É quando forma um júri de destravados humoristas com Herman José, Ana Bola, Lídia Franco ou Margarida Carpinteiro que avaliavam cantores novatos com paródia e nonsense à mistura; é quando inventa os mais variados passatempos, como quando conseguiu colocar (ou será esborrachar?) 27 pessoas no interior de um mini. Enquanto apresentador sem rede chega até a interagir com um simpático chimpanzé, o “Choné”, e um inconveniente papagaio, o “Baixinho”, tomado de empréstimo de uma tasca das Amoreiras. “O Baixinho era uma espécie de meu alter ego, dizia aquelas coisas que eu não podia dizer, escritas por mim, mas quem lhe dava a voz era o filho do cantor Max, o José António de Sousa, que partia a loiça toda.”

No programa “Passeio dos Alegres”, Júlio era um apresentador de todo o terreno, que interagia com um macaco, o “Choné”, e com um papagaio, o “Baixinho”

No programa “Passeio dos Alegres”, Júlio era um apresentador de todo o terreno, que interagia com um macaco, o “Choné”, e com um papagaio, o “Baixinho”

É no “Passeio dos Alegres” que Herman estreia o seu Tony Silva, “o creador de toda a música ró”, e o insolente menino Nelito, duas personagens que vieram mais tarde a ganhar um programa próprio no “Tal Canal”. Desses tempos, Herman recorda a vez em que faltou a cena, sem nunca ter revelado a Júlio Isidro a razão. Conta-a agora: “Nos bastidores do ‘Passeio dos Alegres’ adorei ter compartilhado o camarim com os Duran Duran, que vinham lançar o seu single ‘Planet Earth’. Como estava calor, tivemos uma longa conversa em cuecas e ainda cheguei a ensinar meia dúzia de palavrões ao [cantor] Simon Le Bon. Nesse dia, a galhofa foi tanta que falhei a minha entrada de Tony Silva. Acho que nunca cheguei a contar ao Júlio a internacional e muito artística razão do meu atraso.” Herman José considera mesmo que a sua vida e a sua carreira estão indelevelmente ligadas a Júlio Isidro. “Quando, em 1972, gravei um tímido single com duas meninas com músicas de minha autoria em inglês com um grupo chamado Soft, o primeiro e único radialista a dar-me visibilidade foi ele — no saudoso programa de rádio “CDC”, ao lado da Ana Zanatti — por pura curiosidade intelectual. Não conheço ninguém mais permeável à diferença, à modernidade e ao espírito artístico.”

Sobre a invenção de Tony Silva, o humorista considera que acabou por ser o seu ‘euromilhões’ quando o deu a conhecer no “Passeio do Alegres”. “E, modéstia à parte, a minha colaboração reforçou o êxito do seu programa e o seu consequente lugar na História. O Júlio é para muitos — para mim com certeza — um modelo a seguir na arte de bem amadurecer. Fá-lo melhor do que ninguém, por isso faz parte de um pequenino grupo de criadores portugueses, imunes a qualquer tipo de decadência.”

Ana Bola e Maria Vieira foram duas das humoristas dadas a conhecer por Júlio

Ana Bola e Maria Vieira foram duas das humoristas dadas a conhecer por Júlio

Ana Bola, que fora companheira de Júlio, deu-se a conhecer no “Passeio dos Alegres” como Anucha Mil Homens, uma mulher ninfomaníaca e desbocada. “A curiosidade é que não havia telepontos, improvisávamos os nossos discursos enquanto qualificávamos os concorrentes. Recordo-me por exemplo dos irmãos Nuno e Henrique Feist, que surgiram como concorrentes. No fundo, a rubrica era um concurso de talentos musicais, mas com humor. Como hoje existem tantos na televisão. Fomos pioneiros a fazê-lo. Já estava tudo inventado.”

Foi no “Passeio de Júlio” que o país ouviu pela primeira vez o mítico António Variações e a sua música ‘Entre Braga e Nova Iorque’, que parecia vinda de outro planeta. Tudo porque Júlio fora cortar o cabelo semanas antes na Isabel Queiroz do Vale. “Quando me apareceu o António, tive aquela sensação de ‘o que mais me irá acontecer?’” Habituado ao barbeiro clássico, de bata branca e risco ao lado, viu à sua frente um jovem de cabelo pintado de ruivo, calças à Sinbad, o Marinheiro, roxas e uma blusa sem mangas preta. António sugeriu um corte moderno, mas dentro da idade do cliente Júlio. Penteado feito, António segredou-lhe que tinha umas cantigas e que gostava que ele as ouvisse... O resto é história.

No dia 3 de maio de 1981 estreia-se no “Passeio dos Alegres” o cantor António Variações, com os temas ‘Não Me Consumas’ e ‘Toma o Comprimido’

No dia 3 de maio de 1981 estreia-se no “Passeio dos Alegres” o cantor António Variações, com os temas ‘Não Me Consumas’ e ‘Toma o Comprimido’

Com gosto pela originalidade e pela diferença, Júlio levou-o logo ao programa. “Achei que ele tinha uma voz muito exótica. Não se pode dizer que era uma voz extraordinária, mas nenhuma se confundia com a dele. E é importante sermos diferentes. Havia musicalidade nele e achei que os poemas eram absolutamente extraordinários.” António apresentou-se ao país com ‘Não Me Consumas’, num texto de alerta social, e com ‘Toma o Comprimido’. Enquanto cantava, Variações tirava das calças punhados de ‘smarties’ que atirava às câmaras. Eram os comprimidos. “Tenho uma marca profunda do Variações, porque ele fez a sua primeira e derradeira aparição televisiva comigo. Quando apareceu da última vez já estava muito doente. Cancelara na semana anterior a sua presença, mas depois recuperou. Apareceu de pijaminha de flanela com ursinhos, com uma mala de plástico encarnada e uns sapatos igualmente encarnados. Disse-me que tinha vindo diretamente da cama para ali. Cantou o ‘É Pra Amanhã’ e ‘O Corpo É Que Paga’. Para sempre recordo uma imagem extraordinária dele a sair de cena a dizer adeus e uma sombra que se projetou no fundo. Não atuou mais.” Fernando Pereira, Rita Guerra ou Dulce Pontes foram outras descobertas de Júlio. Conheceu Fernando a atuar num bar ‘cheio de tabaco’ chamado Berro onde imitava Liza Minneli e levou-o para o “Passeio dos Alegres”. “Para o programa ‘Regresso ao Passado’ fui buscar a Dulce Pontes ao Casino Estoril, onde estava a tocar piano e a cantar enquanto as pessoas jantavam. Uma pessoa com o talento da Dulce estar a atuar com o barulho dos talheres...”

Foi há dois anos que Júlio decidiu remexer no sótão das suas recordações e trazer para o papel um certo tempo, uma certa forma de comunicar e os bastidores dos programas onde tantos artistas veteranos aprenderam a gatinhar. “Alguns ghost writters contactaram-me. Queria contar a minha história, após uma entrevista de três ou quatro horas. Respondi que não, que a escreveria eu, sem os filtros de alguém. Comecei por escrever umas notas e cheguei às 600 páginas. Claro que depois tive que cortar muito. A enciclopédia luso-brasileira já existe”, ironiza.

Com Ana Zanatti apresentou no início dos anos 70, o “CDC” (Clube das Donas de Casa), no Rádio Clube Português

Com Ana Zanatti apresentou no início dos anos 70, o “CDC” (Clube das Donas de Casa), no Rádio Clube Português

O jornalista Baptista-Bastos, autor do prefácio, chegou a escrever que esta obra é “uma forma de não participar no embuste da omissão”. E é com essa vontade que Júlio continua a fazer televisão, na RTP Memória. Apresenta atualmente o talk show “Inesquecível”, onde a memória é um ponto de partida para o presente e o futuro. E é comentador no programa “Traz Prá Frente”, uma conversa desempoeirada sobre o imaginário da televisão, moderado por Inês Lopes Gonçalves, com Fernando Alvim, Nuno Markl e Álvaro Costa. De todos, Júlio é o único que estava realmente lá, nos acontecimentos evocados.

Sobre a longa temporada na RTP Memória, Júlio brinca dizendo que durante anos se sentiu o ‘Júlio Exílio’, quando a moda era tirar o pó e as referências de antena do canal público. “Mas agora vivo feliz num canal onde coexisto com os mais novos.” Gonçalo Madail, diretor do canal, considera Júlio um ‘senador’ da estação. “Gastamos felizmente muitíssimas horas a debater ideias.”

A diva do fado foi ao “Passeio dos Alegres”, trajada de camponesa, para cantar um tema de Carlos Paião, ‘O Senhor Extra-Terrestre’

A diva do fado foi ao “Passeio dos Alegres”, trajada de camponesa, para cantar um tema de Carlos Paião, ‘O Senhor Extra-Terrestre’

Na memória recente está o dia em que Júlio foi o ‘bombeiro de serviço’ a apagar o fogo de última hora quando faltaram os apresentadores do programa da manhã, da RTP, “Agora Nós”, habitualmente conduzido por Tânia Ribas de Oliveira e José Pedro Vasconcelos. Tânia estava grávida e ficou doente, e José Pedro estava de férias. Uma hora antes Júlio foi contactado pelo diretor de programas para safar a emissão. E fê-lo com a mestria dos grandes. “Ligaram-me às nove da manhã. Estava na cozinha de pijama e roupão a tomar o pequeno-almoço com a minha mulher, quando fui surpreendido com o pedido. Tinha que apresentar naquela manhã um programa que nunca tinha visto. Mas fui. Quando cheguei fiz a abertura, improvisei, colocaram-me um ratinho de orelha e teleponto e queriam ditar-me as perguntas para os entrevistados. Recusei. Bastou dizerem-me o nome e a profissão das pessoas. Estava ali para conversar.” A prova foi superada, durante as três horas de emissão, em direto, sem espinhas. “Ainda hoje espero que alguém adoeça para poder passar pelo Canal 1”. Recado dado.

Sobre esta questão Ana Bola não é branda. “Não vejo razão para um apresentador da categoria do Júlio não estar em antena aberta. É inexplicável. Ele sabe fazer televisão como poucos. Sou apologista das caras novas, mas uma pessoa com a cultura, a experiência e o mundo que ele tem, está muito mais bem preparada para conduzir entrevistas. Não é por acaso que no estrangeiro apostam em pessoas com mais de 60 anos para apresentar a maioria dos talk-shows. Arrisco dizer que o Júlio não teria sido colocado tantas vezes em gavetas, se se tivesse engajado politicamente ou se tivesse adotado a célebre frase da Teresa Guilherme, ‘a ética não dá de comer a ninguém’. Ele nunca seguiu isso. É honesto.” Herman acrescenta que ‘ser jovem’ na televisão portuguesa é sinónimo de low cost. “Espaço para veteranos só mesmo nas novelas e, mesmo assim, só para fazerem papéis de bisavós, já que para avós bastam figurantes quarentões descomplicados e sem exigências, munidos de bengala e cabeleiras grisalhas.”

Foi no “Passeio dos Alegres” que Herman José se tornou mais popular com a personagem Tony Silva, “o creador de toda a musica ró”

Foi no “Passeio dos Alegres” que Herman José se tornou mais popular com a personagem Tony Silva, “o creador de toda a musica ró”

Imaginemos Cristiano Ronaldo daqui a quatro anos. Júlio diz que se considera assim, como um jogador de futebol de 35 anos que sairá definitivamente de campo mal se lesione. “A minha margem de erro é nula. Na televisão, um fulano de 35 anos faz um programa desastroso, mas se tiver capacidade de movimentação, mais o ritmo que faz com que as pessoas não se lembrem do dia de ontem, volta um dia destes a fazer TV e rádio. O senhor Júlio Isidro, septuagenário, com 56 anos de TV, se der uma grande barraca será a última imagem que fica. Os americanos costumam dizer que não há uma segunda oportunidade para uma primeira impressão. E eu acho também que não há uma segunda oportunidade para uma última impressão. Por isso vou para a frente das câmaras cada vez mais bem preparado.” Na sala de sua casa fala com um pé no passado e outro no futuro. Porque ele é homem de sonhos e de projetos. “Ainda dá para ir ao centro do campo dar o pontapé de saída. Já estou com vontade de recordes. O [Fernando] Pessa durou até aos 100 anos. O Manoel de Oliveira até aos 106. Ambos ativos até ao fim. Também gostava de ser assim.”

Não houve confusão de narizes, mas um encontro em Paris com o ator Dustin Hoffman para uma entrevista que valeu uma curiosa foto de perfil

Não houve confusão de narizes, mas um encontro em Paris com o ator Dustin Hoffman para uma entrevista que valeu uma curiosa foto de perfil

fotos ANTIGAS cedidas por júlio Isidro

O que lhe falta fazer em televisão? — quisemos saber. Júlio tem resposta pronta e deixa-nos espreitar para as suas gavetas. “Ainda existe muito para sonhar. Gostava de fazer um programa que se chamasse ‘Vou a Casa’. Uma vez que sou bricoleur, iria a casa das pessoas arranjar-lhes as coisas e ligava esses pequenos arranjos à conversa com a família que lá vive. Também adoraria fazer vozes para filmes de desenhos animados. Como fiz há muito tempo vozes de bicharada. Teria muito gosto em conduzir um talk show que abrisse de novo as portas a quem anda por aí a fazer música. Tenho o formato todo na cabeça. Na BBC, há o Jools Holland, que faz algo do género. E, por fim, desejaria retirar-me na rádio. Também na BBC há um senhor que todos os sábados de manhã traz às pessoas as histórias das músicas, é o sir Brian Matthew, com um estilo exatamente à Júlio Isidro, com 87 anos.”

Júlio gostaria de ser recordado como Baptista-Bastos o definiu no prefácio: Uma presença afetuosa. “O que é diferente de ser só simpático, como alguns no passado me quiseram reduzir.” Quando à noite se deita e quer adormecer, o ‘tio Julião’, de 71 anos, volta a ser o menino Júlio que aos 9 anos transformava molas de roupa em exércitos de soldados e magicava ousadas máquinas voadoras: “Ora bem, que avião é que eu quero construir a seguir?” E adormece em altos voos.