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A Huawei e o bloqueio americano

APROVEITAR A OPORTUNIDADE Este é o Mate 9, o topo de gama que a Huawei vai lançar agora nos EUA aproveitando um período de estagnação na inovação do iPhone e o facto de o topo de gama da Samsung ter sido retirado do mercado

d.r.

Já é o terceiro maior fabricante mundial de smartphones, mas a Huawei continua a não conseguir entrar no mercado norte-americano. Não é uma marca conhecida por aqueles consumidores e o governo americano já suspeitou (suspeita?) das intenções do fabricante chinês

Pode a Huawei ser o maior fabricante mundial de smartphones sem liderar o mercado norte-americano? Sim, pode. A Samsung é número 1 mundial do sector e fica-se pelo segundo lugar nesse mercado – nos Estados Unidos, o iPhone voltou a conquistar o lugar cimeiro, depois do desaire da Samsung com o Note 7 (o telefone que explodia devido a um defeito na bateria).

No entanto, no que à conquista do “país de Trump” diz respeito, a Huawei tem uma grande desvantagem em relação à Samsung: sobre o fabricante chinês pairam suspeitas de pirataria informática e a marca é muito pouco conhecida, e reconhecida, pelos norte-americanos.
Vamos começar por este segundo “pecado”. A Samsung há muito conquistou espaço nos lares americanos. Televisores, frigoríficos, sistemas de ar condicionado, micro-ondas… é vasto o portefólio da maior empresa de eletrónica de consumo do mundo. Além disso, a Samsung tinha, e tem, outra vantagem: é sul-coreana, um regime alinhado com os principais ideais ocidentais e em disputa com a vizinha Coreia do Norte, apoiada pela China.

A Huawei é chinesa, começou mais tarde e muito do lado profissional, com dispositivos e tecnologias para operadores de telecomunicações. É natural que assim seja - afinal, a Huawei é, hoje, o maior fabricante mundial de equipamentos de telecomunicações. A empresa fornece muitos dos dispositivos que estão integrados em redes usadas por algumas das maiores empresas do mundo (operadores de telecomunicações e não só). É assim desde 1987, quando os preços e a qualidade apresentados pela Huawei começaram a ganhar concursos a empresas como a Ericsson, a Alcatel ou a Cisco. Com a viragem do milénio, a Huawei levou a mesma abordagem a um dos mercados que mais crescia no mundo: o dos smartphones. Começou a produzir dispositivos de marca própria (e para terceiros) e a investir no mercado interno (a China), no Médio Oriente e em África. A qualidade não impressionava, mas o preço e a capacidade de produção para responder ao volume exigido por esses grandes mercados foram-lhe granjeando terreno e algum reconhecimento.

Na Europa e nos EUA, a Huawei foi entrando nas empresas e nos consumidores finais com telefones vendidos pelos operadores. E foi assim durante anos, até que as autoridades norte-americanas começaram a banir a Huawei e a ZTE (outro fabricante chinês) de concursos públicos. Em causa estava a alegada introdução de spyware (software espião) nos dispositivos vendidos por esses fabricantes que tinha como objetivo enviar informações aos serviços secretos chineses. Aconteceu assim nos EUA, na Austrália, em França (como pode ver AQUI e no Reino Unido. Os casos levaram a que o CEO da Huawei falasse (ver AQUI) pela primeira vez em 25 anos de empresa, para refutar as acusações.

É importante referir que a Huawei não é uma empresa estatal e que as provas apresentadas pelas autoridades dos países não eram evidentes. Mesmo assim, nessa altura, a investida da empresa chinesa nos EUA ficou estagnada. Aliás, a empresa chegou a afirmar que desistia da América. Era mais uma baixa na ciberguerra que já se disputava, e continua, entre a China e os EUA. E entre a Rússia e os EUA. E entre esses países e o resto do mundo.

Com os Estados Unidos fechados, a Huawei seguiu o seu caminho e, diga-se, trilhando um caminho que a Samsung já tinha feito. Ou seja, deixou de ser “apenas” fabricante para terceiros e apostou fortemente na criação de uma marca própria, com um portefólio variado e onde começaram a surgir os topos de gama.

Depois de provar que sabia produzir em quantidade, a Huawei mostrava que também o sabia fazer com qualidade. Ainda em 2013, a empresa mostrou o maior (em tamanho) smartphone do mundo e, depois, o mais fino. Era o marketing a trabalhar e dava frutos. A empresa começou a ganhar nome na Europa junto dos consumidores. E assim iniciou uma escalada, motorizada pelo lançamento constante de novos terminais onde a qualidade de construção não deixou de ser a imagem de marca. E resultou. A empresa é hoje o terceiro maior fabricante mundial (ver AQUI), atrás da Apple e da Samsung (que se mantém a liderar)… e continua a ser obscura nos EUA. Mesmo assim, quer ser número 2 em apenas dois anos. Para isso, diz, vai destronar a Apple. Em volume não me parece complicado. Em valor, a conversa é outra.

É desta?

Dezembro vai marcar a chegada do Mate 9 aos EUA. O mais recente topo de gama da Huawei chega a “Terras de Trump” depois de ter sido bem recebido na Europa por consumidores e analistas. Este é um telefone que vai marcar a entrada da Huawei no mercado acima dos 500 dólares, terreno dominado, naquele país e no mundo, pela Apple e pela Samsung.

A missão pode ser mais fácil agora, porque a Apple está a passar por uma “crise de inovação” que congelou o iPhone e o parou no tempo; e a Samsung está a lamber as feridas depois do seu principal lançamento para o último quadrimestre do ano ter, literalmente, explodido.

Parecem as condições ideais para a boa qualidade de construção dos topos de gama da Huawei ganharem terreno nos Estados Unidos. É preciso deixar claro que telefones como o P9 e o Mate 9 rivalizam, hoje, com quaisquer dispositivos do mesmo segmento e que podem, caso tenham essa oportunidade, ajudar a empresa a conquistar quota nos EUA.

É preciso, no entanto, não esquecer que a maioria dos consumidores norte-americanos nem deve saber como é que se pronuncia Huawei e que as alegadas espionagens da Huawei e da ZTE não estão esquecidas.

Aliás, com a eleição do mais recente Presidente norte-americano, a entrada de empresas chinesas nos EUA será ainda mais dificultada. E com o histórico - mesmo que não provado -, das acusações sobre spyware, a Huawei terá a vida ainda mais dificultada.

Por isso, reforço o início deste texto. A Huawei pode vir a ser a número 1 mundial nos smartphones, mas dificilmente a presença nos EUA será crítica para esse sucesso. E termino com aquilo que pude testemunhar a 26 de setembro de 2006. Nesse dia, estava em Nova Iorque para o lançamento no N95, o melhor telemóvel que alguma vez tinha saído das fábricas da Nokia. Tal como a Huawei, também a Nokia ambicionava ganhar o mercado norte-americano. Afinal, o fabricante finlandês já dominava o mundo, mas nos Estados Unidos continuava a não ter tração significativa. O N95 era um terminal fantástico (ver AQUI), bem construído, artilhado de especificações e com um design de eleição. Juntava a música, o vídeo e a fotografia… e não se esquecia da produtividade. Era uma visão do que seria o futuro personificado, 3 anos mais tarde (sim, ainda foram precisos 3 anos), pelo iPhone.

O N95 foi um sucesso de vendas na Europa, mas nunca o foi nos EUA. Aliás, a Nokia, como fabricante de telefones, nunca conseguiu ter nos Estados Unidos o predomínio que teve no resto do mundo. Isso não impediu que fosse, durante décadas, o maior fabricante mundial de telemóveis.