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#Millennials. A geração que desistiu da democracia

O FIM DA DEMOCRACIA Nas gerações mais jovens não falta quem veja com bons olhos um regime autoritário, como o de Chavez na Venezuela ou o de Fidel em Cuba.

reuters

O desinteresse e o descontentamento em relação à política são tão acentuados que os mais jovens parecem dispostos a trocar a democracia por algo diferente. Como um golpe de Estado militar

Há seis anos, o então presidente da Câmara Municipal do Porto, Rui Rio, foi ao programa “5 Para a Meia Noite”, da RTP, dizer ao humorista Nilton que o atual sistema político “estava caduco, esgotado”. O local pode não parecer o mais adequado para uma declaração tão definitiva, mas Rio, que admitiu recentemente que poderá avançar para a liderança do PSD, sabia perfeitamente para quem estava a falar: o público-alvo do programa são os millennials, nascidos entre o início dos anos 80 e meados do final do século, a geração da internet, a mais qualificada, preparada e informada (ou, pelo menos com maior acesso à informação) de sempre. Mas também a geração onde a indiferença e o descontentamento em relação à política são tão acentuados que muitos millennials estarão dispostos a trocar a democracia por algo diferente (mas não necessariamente novo) – como um golpe de Estado militar.

Podem descansar os fiéis escudeiros que este texto não é sobre Fidel, embora as prosas laudatórias dos últimos dias sobre o legado do ex-líder cubano possam ser um bom indício de que muitos aceitariam abdicar do atual sistema político em favor de um onde, em nome de uma revolução, se restringissem as liberdades individuais, se executassem os opositores políticos, se mandassem outros para a prisão e se colocassem mordaças nos jornalistas. Este texto é sobre um estudo de dois cientistas políticos, Yascha Mounk, da Universidade de Harvard, nos EUA, e Roberto Stefan Foa, da Universidade de Melbourne, na Austrália, sobre “Os Sinais da Desconsolidação Democrática”. Os resultados do trabalho serão publicados em janeiro no “Journal of Democracy”, mas o “The New York Times” já adiantou algumas das conclusões. A principal? A de que as democracias liberais não são tão seguras como se poderia pensar e estão, pelo contrário, em sério risco de declínio.

A “consolidação democrática” é um teoria criada por cientistas políticos, segundo a qual quando os estados desenvolvem instituições democráticas, uma sociedade civil robusta e um certo nível de riqueza então a sua democracia é sólida. Foi assim durante décadas. Dados da Freedom House, uma organização sem fins lucrativos que mede a democracia e a liberdade em todo o mundo, mostram que o número de países tidos como “livres” aumentou consistentemente entre meados dos anos 70 e o início do novo milénio, sobretudo na América Latina e na Europa de Leste. Porém, em 2015, os níveis de liberdade no mundo caíram pelo 10º ano consecutivo e o número de países que deram passos atrás quase duplicou em relação aos que se tornaram mais livres. Yascha Mounk e Roberto Stefan Foa tentaram então perceber se este declínio era o resultado de alguns eventos num curto período de tempo ou se, pelo contrário, indicavam um padrão ao qual era preciso prestar atenção.

INFOGRAFIAS DE RITA ISABEL PARDAL

Para responder a esta questão os autores desenvolveram uma fórmula baseada em três fatores. O primeiro era o apoio público: quão importante é para os cidadãos que o seu país se mantenha democrático? O segundo era a abertura a formas não democráticas de governo, como golpes de estado militares. O terceiro avaliava se os partidos e movimentos antissistema estavam a ganhar terreno. Se num país o apoio à democracia estivesse em queda enquanto os outros dois fatores registassem um aumento, então a democracia estaria a “desconsolidar-se”, abrindo caminho a regimes autocráticos. Como uma febre que anuncia a chegada de uma gripe violenta.

SINAIS DE ALERTA

De acordo com o sistema desenhado pelos dois investigadores, os sinais de “desconsolidação democrática” são evidentes nos Estados Unidos e em várias democracias liberais, incluindo Austrália, Nova Zelândia, Reino Unido (que votou a favor do Brexit), Holanda (onde o partido de extrema-direita de Geert Wilders é favorito a ganhar as próximas eleições) e Suécia, entre outros. Nestes países, a percentagem de pessoas que responde que é “essencial” viver em democracia caiu substancialmente, sobretudo entre as gerações mais jovens, como os millennials

Rita Isabel Pardal

Os cidadãos de vários destes estados tidos como democracias consolidadas são hoje não só “mais críticos dos seus líderes políticos”, como também se tornaram “mais cínicos sobre o valor da democracia como sistema político, menos esperançosos de que possam fazer algo para influenciar as políticas públicas e mais abertos a apoiar alternativas autoritárias”, escrevem os autores num outro artigo sobre a sua investigação publicado em julho. É entre os millennials que esta “crise da legitimidade democrática” é mais evidente: em 2011, quase um quarto da geração nascida entre os início dos anos 80 e o final do século consideravam que a democracia era uma forma “má” ou “muito má” de governo.

São também os millennials os que menos consideram que um golpe de estado militar é ilegítimo em democracia...

Rita Isabel Pardal

... ou que acreditam que as eleições livres são essenciais.

Rita Isabel Pardal

Sem surpresa, é também entre os millennials que o interesse na política mais baixou.

Rita Isabel Pardal

Isto, claro, é o que nos diz a teoria. A realidade, porém, é bem mais complexa. Se só os millennials (que constituem 19% do eleitorado dos EUA) tivessem votado, seria Hillary Clinton a suceder a Barack Obama, mas foi Donald Trump quem levou a melhor com o seu discurso antissistema. Para Mounk, os sinais de alerta são evidentes. “A realidade é que Trump poderá tentar minar a democracia liberal nos EUA”, disse ao New York Times.

Trump. Marine Le Pen. Geert Wilders. Beppe Grillo. Se estes não são os políticos que queremos hoje, talvez fosse altura de tentar perceber as causas do descontentamento. Porque acreditar que uma geração que cresceu em democracias estáveis não as valorizam tanto porque as tomam como algo adquirido não resolve o problema. Convém não ignorar os sintomas. Antes que a gripe seja fatal.