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Insetos invasores devastam a economia mundial e “matam mais que balas e canhões”

JOSÉ CARIA

“Os insetos são uma das maiores ameaças ao desenvolvimento humano”, afirma o ecólogo francês, Franck Courchamp, que esteve em Lisboa para falar sobre alterações climáticas e a invasão de insetos, responsáveis por prejuízos massivos. Anualmente custam à economia mundial €69 mil milhões

Carla Tomás

Carla Tomás

Jornalista

Insetos como a vespa asiática, a mosca da fruta, o mosquito tigre ou a térmita da Formosa, entre uma dezena de espécies invasoras, revelam ser “uma das maiores ameaças para o desenvolvimento humano”, afirma ao Expresso o ecólogo francês Franck Courchamp, sendo responsáveis por "perdas anuais de mais de 69 mil milhões de euros por ano a nível mundial". As contas foram feitas por uma equipa internacional coordenada por Courchamp — diretor do laboratório francês de Ecologia e Evolução do Centro Nacional de Investigação Científica, na Universidade de Paris-Sud, em França — e publicada na revista Nature Communication.

Estes invasores invertebrados atacam culturas agrícolas, florestas ou a indústria do imobiliário e põem em causa a saúde humana, propagando doenças como o zika, o dengue ou a febre amarela, causando um impacto massivo na economia mundial. Contudo, os valores dos prejuízos agora apresentados resultam de "uma estimativa por baixo, já que há muitos insetos ainda por estudar e alguns custos que não se conseguem avaliar”, explica o ecólogo francês.

O especialista em dinâmica de populações e o impacto do aquecimento global participou esta semana numa conferência sobre “Alterações climáticas: por onde passa o futuro próximo”, no Museu de História Natural e da Ciência, da Universidade de Lisboa. Durante a palestra alertou para as evidências científicas de que as alterações climáticas “acentuam ainda mais a dispersão destas espécies invasoras, podendo aumentar os custos económicos em 18% até 2050”. Isto porque, explica, “as espécies invasoras têm tolerância limitada a determinadas temperaturas para se reproduzirem e desenvolverem, porém estas barreiras térmicas tendem a desaparecer com as alterações climáticas que lhes permitem invadir zonas até aqui inóspitas”.

2000 espécies invasoras na Europa

Só na Europa existem cerca de duas mil espécies de insetos invasores, entre mosquitos, moscas, borboletas, formigas e escaravelhos ou outros, que podem ser responsáveis “por mais de 3,5 mil milhões de euros de prejuízos ou por dez vezes este valor, já que os números não são ainda sólidos”, explica Courchamp.

Os dados recolhidos pelos cientistas que colaboraram no projeto INVACOST (apoiado pela Fundação PNB Paribas no âmbito da Climate Iniciative), no qual participou Courchamp, indicam que “87% dos 2500 invertebrados terrestres que colonizam novos territórios são insetos”.

Estas espécies invasoras passam todas as barreiras geográficas através da dispersão humana associada às migrações, ao comércio e ao turismo. Por isso, os investigadores estão a elaborar cartas de risco a nível mundial, observando e analisando todas as portas de entrada, aeroportos e portos para ver em função do clima de cada ponto de origem por que portas podem entrar”.

40% da produção agrícola afetada

Em termos globais “os insetos são responsáveis pela redução de 40% da produção agrícola, consumindo o equivalente ao que poderia alimentar um milhão de seres humanos”, sublinha o investigador francês. E lembra que os dados recolhidos até agora indicam que “uma das razões que limita o desenvolvimento de muitos países do continente africano ao nível social, cultural e económico são as doenças causadas por algumas espécies de insetos que dificultam que nos países africanos se desenvolva uma agricultura semelhante à que se faz na Europa, América ou na Ásia”.

E pode esta invasão pôr em risco a alimentação humana? Courchamp diz que tal não se pode afirmar, mas que é certo que “diminui bastante a segurança alimentar”. Questionado sobre se uma possível solução para o problema passa por começarmos a comer insetos, o cientista sorri:" Apesar de existirem movimentos e empresas que querem por esse tipo de dieta a funcionar, não é uma hipótese viável em relação à maioria dos insetos invasores, que não são fáceis de capturar”.

Uma das espécies que está a afetar fortemente a agricultura europeia é a vespa asiática. “Toda a população de vespa asiática que está na Europa entrou por uma única via: numa peça de barro vinda da China dentro da qual estava uma rainha que foi fecundada e criou toda uma população”, conta o investigador ao Expresso. Segundo ele, “extinguir esta praga é quase impossível, pois haverá sempre uma fêmea que escapa e vai criar nova população”. A vespa asiática é uma assassina de massas, já que “faz uma carnificina das abelhas comuns em poucos minutos”, afetando o setor da apicultura e do mercado do mel, que em França representa 135 milhões de euros por ano. O impacto sobre as culturas agrícolas também é grande, já que dizima também outros polinizadores selvagens.

“Os insetos matam mais que balas e canhões”

“Ao longo da história da humanidade os insetos têm sido sempre uma das principais ameaças para o homem”, recorda o ecólogo. Como exemplo, cita o livro “The Illustrious Dead”, de Stephan Talty, no qual o autor conclui que “não foi o frio do Inverno que dizimou os soldados durante as campanha de Napoleão, mas sim as pulgas e as doenças por elas causadas, como o tifo ou a cólera”. E conclui que "os insetos mataram mais que as balas e os canhões”.

Atualmente há menos mortes causadas por situações de guerra, mas proliferam doenças transmitidas por insetos. “Só a malária mata anualmente cerca de um milhão de pessoas por ano, na sua maioria crianças”, recorda Courchamp. Em termos globais os insetos invasores custam mais de €6,1 mil milhões por ano ao setor da saúde.

“O mosquito tigre está disperso por 80 países de cinco continentes, sendo responsável pela transmissão de doenças como o dengue, o zika ou a febre amarela. “E já chegou ao sul de frança”, diz.

Além de nocivos para o homem, estes invasores invertebrados “são a segunda principal causa de perda de biodiversidade”, sublinha o investigador, lembrando que eliminam todas as espécies nativas dos ecossistemas onde chegam, nomeadamente os insetos polinizadores autóctones essenciais para 80% das culturas mundiais.