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“Pode ser que eu venha a mudar: apanhamos tanta pancada que às vezes ficamos cansados. Mas não chegou esse momento”

Luaty Beirão nasceu protegido num país em guerra. Estudou em Inglaterra e em França. Tornou-se rapper por opção. Nunca precisou de trabalhar. Mas a determinada altura, a consciência gritou-lhe mais alto e o luso-angolano acabou por abdicar do conforto de uma vida para se tornar um ativista pela liberdade e a democracia em Angola. A ousadia custou-lhe, a ele e a 16 companheiros, a cadeia. Ele esticou ainda mais a corda com uma greve de fome que durou 36 dias. Não vergou, não quebrou, não tem arrependimentos. Cinco meses depois de ter saído da prisão, sente-se ainda mais motivado. E, um dia, a filha Luena, que ficou sem o seu pai durante meses, há de conhecer a sua história

O ativista luso-angolano de 35 anos, que foi acusado de atos preparatórios de rebelião e de atentado contra José Eduardo dos Santos, está em Lisboa, onde esta quarta-feira apresentou o seu livro “Sou eu mais livre, então. Diário de um preso político angolano”, escrito na prisão de Calomboloca, em julho de 2015.

A escrita e a leitura foram o escape do rapper, que cinco meses depois de ter saído da prisão continua a afirmar que prefere estar preso por dizer o que pensa do que viver toda a vida aprisionado ao medo de falar. Assumindo que a prisão não foi uma experiência traumática, mesmo quando colocou a vida em perigo com uma greve de fome que durou 36 dias, Luaty recusa o epíteto de líder ou de revolucionário e vê-se como um cidadão que “só quer ser pleno no seu país e que recusa viver sob o medo”. “Recusar viver sob o medo poder ser visto como um ato revolucionário, eu prefiro não lhe dar esse ênfase todo, porque não gosto de me pôr em pedestais. Acho que era algo que toda a gente devia fazer, porque é nosso direito. Todos têm de fazer um bocadinho, todos têm de deixar a sua semente e todos têm de regar.”

E se a prisão “se calhar” o ajudou a “colocar as coisas em perspetiva” e a perceber que há outras vantagens em utilizar outros métodos de luta, ao mesmo tempo garante ter reforçado o seu ímpeto ativista.

Reconhece que viveu anos como um “pendura” porque sempre teve a solidariedade da família que o sustentava, mas que entretanto, depois de várias tentativas para arranjar emprego que saíram goradas por causa do seu ativismo, percebeu: “Ou eu desisto do que faço para poder trabalhar e ter algum dinheiro ou me habituo e as pessoas à minha volta percebem que aquilo que faço não deixa de ser útil e vão-me apoiando”.

Quanto ao futuro, diz que continua a fazer o ativismo de sempre e que tem agora com uns amigos um projeto de denúncia de violações dos direitos humanos. “É algo pequenino, somos um grupo de cinco pessoas, mas temos feito algumas peças em vídeo em que relatamos mais do que abusos - crimes praticados pela polícia que executa supostos criminosos na via pública e que atinge pessoas inocentes no fogo cruzado”. Além deste trabalho que lhe consome muito tempo, continua a escrever e a querer dar concertos de música. Em Luanda, foi impedido de o fazer recentemente, mas promete continuar a lutar pelos seus direitos.

Sobre o país, mais concretamente sobre a sucessão de José Eduardo dos Santos, insiste que este “devia sair já amanhã”, mas que deve ser ele próprio a proceder à mudança de liderança. O lusodescendente assegura que dentro do próprio MPLA há muita gente insatisfeita e que já há sinais de rutura, ainda que por enquanto pouco visíveis.

Este sábado, Luaty Beirão - também conhecido por Ikonoklasta - e o seu amigo e músico MCK vão apresentar no Musicbox, em Lisboa, o espetáculo Ikopongo, que recentemente foi proibido em Luanda. Também no sábado, o Expresso publica uma versão alargada desta entrevista.