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Célula de Aveiro recrutava no Martim Moniz

Marroquino detido em França foi recrutado em Lisboa por ex-polícia. Líder da rede está preso na Alemanha. Vários jovens radicalizados

LUCÍLIA MONTEIRO

Eles gostavam de nos falar sobre o Deus deles”, recorda uma vizinha do prédio no centro de Aveiro onde Hicham El Hanafi, 27 anos, viveu durante cerca de um ano com Abdessalam T., até ao passado verão. Hicham, o rapaz sorridente, muito conversador, com as mãos a ajudar com gestos o português que saía torto, era só isso mesmo: um jovem muçulmano, marroquino, atencioso, que falava com ela muito além do formal “bom dia”, que até explicava à reformada “aquelas dietas dos muçulmanos” no Ramadão. Agora, dizem-lhe que foi preso em França, em Marselha, suspeito de integrar um grupo de sete radicais, fiéis ao autoproclamado Estado Islâmico, que se preparava para realizar vários atentados em França no dia 1 de dezembro. O “vizinho simpático” seria responsável por angariar o dinheiro necessário para a compra das armas a usar em vários alvos já definidos, como a Disneylândia de Paris, o mercado de Natal dos Campos Elísios, o Palácio da Justiça na capital, a sede dos serviços secretos, a estação de metro de Charonne, uma igreja, esplanadas, entre outros locais.

“Não o consigo imaginar preso por terrorismo. Nem sequer usava trajes muçulmanos”, diz, com desconforto, a idosa. “Nem a ele, nem ao outro, mais velho”, acrescenta. “Era normal vê-los a beber uma bica no café. Ou às compras no Pingo Doce.” Hanafi não vivia sozinho em Aveiro. O apartamento de 3º andar, aliás, era alugado pelo mais velho, Abdessalam T., também marroquino.

“De repente desapareceram. Nunca mais os vi aqui”, conta outro morador do bairro residencial. É normal. Abdessalam T. foi preso na Alemanha no início do verão, acusado de “crimes menores”, assegurou ao Expresso fonte da investigação que acredita, porém, na sua “ligação mesmo que indireta” ao grupo de Marselha e Estrasburgo.

Em Portugal seria ele o líder da célula de radicalização que operou entre 2014 e 2016, com centro em Lisboa, sede em Aveiro e ligações à Alemanha, Bélgica, Inglaterra, França e ao Daesh. Porém, “nunca foram recolhidas provas suficientes para o deter”, acrescenta a mesma fonte.

Parecia um doutor. Cinquenta anos, bem vestido, bom aspeto, andava sempre com uma mala de cabedal na mão. Abdessalam circulava com à-vontade pelas ruas de Lisboa, mexia-se entre a pequena criminalidade da capital, dominava o Martim Moniz, os 400 metros da Rua do Benformoso, de uma ponta à outra, onde trabalham e vivem muitos cidadãos magrebinos. Demorava-se nos cafés e nas lojas à conversa, quase sempre com jovens da mesma nacionalidade e credo. Era como um professor a ensinar os alunos. Um líder a doutrinar. Muçulmano radical, propagandeava a necessidade imperiosa de se juntarem ao Estado Islâmico na Síria, levarem com eles as famílias, e aí lutarem em nome de Alá e do califado.

“Lava a cabeça aos jovens”

A personagem começou a ser notada, falada dentro da comunidade, até que alguém decidiu falar dele para fora, denunciá-lo ao Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF). “É um velho perigoso”, disseram; um radical que “lava a cabeça aos jovens”, garantiram. Entre os jovens radicalizados estava Hicham El Hanafi.

Foi assim que, no início do verão de 2015, começou a investigação à célula de recrutamento e radicalização. Enquanto as suspeitas de ligações terroristas ainda eram ténues — só a Polícia Judiciária (PJ) pode abrir inquéritos por terrorismo —, a equipa da Direção Central de Investigação (DCINV) do SEF continuou no terreno a recolher dados. A Unidade de Coordenação Antiterrorismo (UCAT), que integra elementos de todas as forças de segurança e serviços de informações, acompanhava o processo.

Vários jovens, todos de nacionalidade marroquina, foram radicalizados no Martim Moniz, em Lisboa

Vários jovens, todos de nacionalidade marroquina, foram radicalizados no Martim Moniz, em Lisboa

MÁRIO JOÃO

Primeiro, o background. Abdessalam T. chegou a Portugal em outubro de 2013, com identificação falsa, fugido — justificou ele à chegada ao aeroporto de Lisboa — dos que o perseguiam no país natal, onde era polícia, opositor do regime e defensor de uma orientação islamita mais radical. Detetado durante o controlo documental, pediu asilo evitando o retorno imediato. No mesmo voo TAP, rota Casablanca-Bissau-Lisboa, viajava Hicham El Hanafi, também com passaporte falso, também a requerer, à chegada, asilo por questões ideológicas, enquanto elemento do revolucionário Movimento 20 de Fevereiro.

Se não se conheciam até aí — não foi possível provar o contrário — passaram a ser amigos no centro de acolhimentos para refugiados, em Lisboa, para onde foram transferidos enquanto decorria o processo de asilo (os requerentes de proteção internacional são autorizados a permanecer em território nacional até à decisão). De acordo com várias fontes da investigação ouvidas pelo Expresso, Abdessalam T. terá começado aqui a sua função de recrutador do Estado Islâmico, entre os magrebinos do centro. E também, fora, no coração de Lisboa. Aveiro torna-se um polo da célula terrorista com a transferência dos dois, decidida pela Segurança Social, para a Fundação CESDA (Centro Social do Distrito de Aveiro) e, mais tarde, para um apartamento no centro da cidade. Aí o recrutamento continua, tanto por Abdessalam T., como pelo discípulo Hanafi. No terreno e no Facebook.

No final do verão de 2015, o SEF concluía que Abdessalam T. era “um radicalizador” e Hicham El Hanafi “um futuro operacional” e passou a investigação para a Unidade Nacional contra Terrorismo (UNCT) da PJ, que abriu oficialmente um inquérito. O SIS também ficou de olho neles. Hanafi não foi, porém, o único recrutado. Nem o primeiro. O Expresso sabe que “vários jovens, todos de nacionalidade marroquina”, foram radicalizados pelo ex-polícia e já não se encontram em Portugal. Em Aveiro ainda vivem alguns dos rapazes que frequentavam o apartamento do 3º andar mas, dizem os investigadores, “esses que ficaram são os espertos, os que rejeitaram a lavagem” do islamita.

Asilo só para ajudar investigação

Os dois marroquinos obtiveram asilo em Portugal, mas o ok definitivo do Ministério da Administração Interna foi calculista, destinado a permitir a continuação da investigação dos requerentes, sem que estes se apercebessem que estavam a ser monitorizados. Por não terem meios de subsistência — não trabalhavam —, eram apoiados pela Segurança Social.

Ainda com a autorização de residência provisória começaram a viajar, dentro e fora do país. Durante 2015 passaram grandes temporadas na Bélgica — onde terão “intensificado a radicalização” —, na Alemanha e em França. Há também registos da tentativa de entrada de Hanafi em Inglaterra com documentação falsa. No Sistema de Informações Schengen chegaram a coexistir pedidos para as autoridades germânicas e francesas de vigilância discreta relativa aos dois cidadãos. Mais recentemente, a PJ e o SIS avisaram as congéneres francesas para a presença de Hanafi no território e, sabe o Expresso, os serviços de informações portugueses “tiveram um papel definitivo” na semana que precedeu a detenção do marroquino.

Em Aveiro, o apartamento esteve durante meses sob vigilância da PJ e do SIS. Hoje, vive lá um homem divorciado, que nada sabe dos anteriores inquilinos. Ao fecho da edição, Hanafi continuava em prisão preventiva, perto de Paris. Abdessalam deverá ser libertado em breve, apurou o Expresso junto de fonte da investigação. Ambos poderão perder a autorização de residência em Portugal. De acordo com o MAI, e citando a lei de asilo, pode ser “revogada, suprimida ou recusada a renovação do direito de asilo” se, entre outros, o refugiado representar “perigo para a segurança interna”.