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Maria Florinda, que sobreviveu a um desastre aéreo: “Não se consegue explicar”

ROBYN BECK/ AFP/ Getty

“Olhei para o meu marido e disse: a aterragem não vai correr bem.” A 22 de agosto de 1999, o avião em que seguiam a portuguesa Maria Florinda e o marido Ernesto virou, tombou e incendiou-se quando chegava a Hong Kong. Sobreviveram – ele com mazelas graves, porque foi o ferido mais grave. Três pessoas morreram. A história de Maria Florinda, hoje com 63 anos, contada na primeira pessoa, numa semana devastada pela queda do avião da Chapecoense

Maria Florinda Santos (testemunho recolhido por Marta Gonçalves)

Recebi um convite para uma viagem ao Brasil em 1998, através de uma associação sindical de administrativos da saúde . Eu e o meu marido fomos, gostamos muito. Aquilo eram viagens tipo visitas de estudo, em que íamos conhecer hospitais. Recebemos um outro convite para o ano seguinte - Tailândia e Hong Kong. O Brasil era um destino de sonho, mas para o oriente nem me tinha atrevido a sonhar.

No ano seguinte, lá fomos. Primeiro estivemos uma semana na Tailândia. E tudo aconteceu quando voávamos de Banguecoque para Hong Kong, a 22 de agosto de 1999. Lembro-me que chegámos ao destino já ao final da tarde, não me consigo recordar das horas.

Ainda antes do embarque, ouvi um português que não era do nosso grupo a comentar que em Hong Kong estava muito mau tempo. Claro que não liguei àquilo que tinha acabado de ouvir. Ouvi aquilo assim de lado, não valorizei nada. Só quando o avião começou a sobrevoar Hong Kong, e como eu vinha do lado da janela e perto da asa, comecei a perceber o estado do tempo.

Depois, o avião deu as voltas habituais e fez-se à pista. Deu um abanão que parecia uma travagem brusca. Os passageiros começaram a bater palmas como se já tivéssemos aterrado. Mas eu vi e senti que ainda estávamos no ar. Nesse momento, olhei para o meu marido e disse-lhe: "A aterragem não vai correr bem".

Quando o avião tocou no solo, começou abanar. Tombou primeiro para o lado direito, onde eu estava. Depois tombou para a esquerda e novamente para a direita. Ao virar pela segunda vez para o meu lado, a asa partiu-se e ficou para trás. Então, entrou um lume enorme para dentro do avião. A sensação que tenho é que o aparelho queria virar e aí lembro-me de pensar: “Deus queira que isto não fique de pernas para o ar”.

Ao parar, o avião ficou virado ao contrário. As luzes apagaram-se. E fogo mesmo ali ao nosso lado.

Fiquei presa ao banco com a cabeça pendurada. Queria sair do lugar e nem me lembrava que tinha o cinto. Ao soltar-me, caí. Foi uma queda pequena, mas eu tive a sensação de que estava a cair num poço sem fundo. Não sei explicar.

© Bobby Yip / Reuters

Olhei para cima e não vi o meu marido. Comecei a gritar enquanto andava, havia sítios em que punha o pé e ficava com água por meio da perna.

Finalmente, quando ouvi a voz do meu marido, vi que ele tinha a pele queimada. Pedi ajuda a umas amigas que também tinham ido na viagem para tirá-lo dali. Com o acidente, abriu-se um buraco no local da porta e foi por lá que saímos.

Chovia torrencialmente, de lado e com muita força. Com o meu corpo, tentei proteger o corpo do meu marido. Ele estava queimado por causa do incêndio, mas em momento algum tive noção da gravidade dos ferimentos.

Saímos pelo nosso pé do avião. Vi os bombeiros, que nos deram mantas e ajuda. Logo que vi uma ambulância, corri para ela devido ao estado em que estava o meu marido.

Foi um alívio enorme quando metemos os pés em terra firme - acho que nem se consegue explicar. É um medo gigante, é medo de morrer. Pensei que não saía dali viva.

Entre os portugueses, o meu marido foi o ferido mais grave. Ficou bastante queimado. Teve de ser operado duas vezes ainda em Hong Kong. Ficámos lá três semanas em tratamentos. Quando regressámos a Portugal, ainda esteve internado mais uma semana no Hospital de São João, no Porto, e andou mais de um ano a fazer fisioterapia diária na unidade de queimados.

Eu fiquei com o cabelo, o ombro e o pé queimado. Já não tenho marcas, mas o meu marido tem. O Ernesto passou muito, ficou muito debilitado e traumatizado. Durante uns tempos não andava.

Nos dias seguintes foi um misto de medo e esperança. Passei os dias todos no hospital ao lado do meu marido. A companhia aérea mandou vir de Portugal as minhas duas filhas, o que tornou tudo mais fácil.

Ao fim de três semanas, foi o cabo dos trabalhos. Tivemos de voltar a meter-nos dentro de um avião para regressar a Portugal. Mentalizámo-nos que só assim podíamos regressar a casa. Foi terrível, estávamos muito nervosos. Eu e o meu marido viemos na cauda, ele de maca, com acompanhamento constante de médicos e enfermeiros.

Depois de tudo, fiquei uns bons anos sem voltar a voar. Entretanto, recebi um convite para ir a Bruxelas, eu fui mas o meu marido não conseguiu. Na véspera do embarque, não dormi. Ao pequeno-almoço, não comi, vomitava e estava muito agoniada. Desde aí, superei um pouco o medo e as viagens seguintes foram mais simples. Com o Ernesto isso só aconteceu mais tarde.

Agora, quando andamos de avião, sempre que chega ao momento de aterrar, o coração salta. Não deixámos o medo vencer e tentamos fazer uma viagem por ano.

A companhia aérea, a China Airlines, foi considerada culpada do acidente porque o avião nunca devia ter aterrado ali, havia um tufão de uma intensidade moderada. Devia ter sido desviado. Mas aterrou e deu no que sabemos.

Só dez ou onze anos depois do acidente é que recebemos.

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