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Afinal, os resultados positivos a Matemática são obra de quem?

ASCENSÃO E QUEDA. Resultados do 4º ano a Matemática tiveram uma progressão significativa nos últimos 20 anos, mas a Ciências pioraram entre 2011 e 2015

MARCOS BORGA

Os resultados do TIMSS 2015, uma das mais antigas avaliações internacionais na área da Educação, já estão a ser usados politicamente. À esquerda, o secretário de Estado da Educação realça medidas lançadas durante um Governo PS. Já o ex-ministro Nuno Crato, que integrou o último Governo PSD, destaca contributos dos dois lados da barricada, recordando que os resultados de 2015 são também fruto de metas por si introduzidas. Certo é que a maior progressão a Matemática foi anterior ao último Governo PSD. E os resultados a Ciências caíram entre 2011 e 2015

Maria João Bourbon

Maria João Bourbon

(texto)

Jornalista

Sofia Miguel Rosa

Sofia Miguel Rosa

(infografias)

Jornalista infográfica

Que fatores são responsáveis pela enorme progressão nos resultados a Matemática no 4º ano de escolaridade entre 1995 e 2015? Para o antigo ministro da Educação do último Governo PSD, Nuno Crato, e o atual secretário de Estado do Governo PS, João Costa, a resposta está nas políticas públicas.

Os resultados de Portugal no TIMSS 2015 (4º ano) e TIMSS Advanced 2015 (12º ano), apresentados na manhã desta terça-feira em Lisboa, mostram que o nosso país foi aquele em que os alunos do 4º ano mais progrediram a Matemática, passando da antepenúltima posição, em 1995 (442 pontos), num total de 17 países, para a 13ª posição em 2015 (541 pontos), em 49 países. O seu desempenho foi, inclusive, superior ao de países como a Finlândia ou a Alemanha.

Os resultados do Trends in International Mathematics and Science Study (TIMSS) já estão a ser usados politicamente. À margem da apresentação dos resultados, o secretário de Estado da Educação, João Costa, sublinha o investimento dos últimos 20 anos nesta área, fazendo referência ao Plano de Ação para a Matemática, introduzido em 2006 durante o primeiro Governo de Sócrates (PS).

Já o ex-ministro da Educação do Governo PSD, Nuno Crato, recorda - sem deixar de referir os vários contributos dos dois lados da barricada política - que estes resultados são também fruto das novas metas curriculares para a Matemática do 1º ciclo e provas finais do 4º e 6º ano, introduzidas durante o seu mandato como ministro da Educação.

“Os alunos agora avaliados iniciaram o seu percurso escolar em 2011, seguiram as novas metas curriculares e fizeram as provas finais de 4º ano”, diz ao Expresso o antigo ministro da Educação. Mas explica que nunca atribuiu a melhoria de resultados “apenas ao trabalho do Governo” do qual fez parte. “O que se passou nos últimos 20 anos foi uma atenção crescente aos resultados e à avaliação”, especifica, destacando os contributos de Ferreira Leite (PSD) e Marçal Grilo (PS), David Justino (PSD), Isabel Alçada (PS).

Mas os números mostram que o maior salto foi dado entre 1995 e 2011: um aumento de 90 pontos, de 452 para 532, e apenas 9 pontos entre 2011-2015, de 532 para 541 (o valor mediano de referência é 500). Ou seja, a taxa de crescimento anual durante o último Governo foi inferior à dos Governos que o precederam.

Além disso, o TIMSS 2015 não vai tanto à procura de respostas nas políticas públicas, preferindo centrar-se em fatores como os incentivos e recursos educativos existentes em casa, o ambiente escolar e a frequência do pré-escolar. Isto é, estabelece uma relação positiva entre cada um destes fatores e os resultados obtidos a Matemática pelos alunos do 4º ano.

DEIXAR CAIR AS CIÊNCIAS EM PROL DA MATEMÁTICA?

Este salto expressivo nos resultados a Matemática não se fez sem alguns trambolhões. Para João Costa, a aposta na Matemática passou por “deixar cair” as Ciências, que registaram uma queda surpreendente entre 2011 (522 pontos) e 2015 (508), durante o anterior Governo PSD, durante o qual Crato foi ministro. Entre 1995 e 2011 os resultados tinham aumentado de 442 para 532 pontos.

Esta é, aliás, a crítica mais comum às metas para a Matemática introduzidas por Nuno Crato entre 2013 e 2015, enquanto ministro da Educação: a de que contribuíram para afunilar o currículo, dando-se apenas importância à Matemática e ao Português.

O antigo ministro rejeita-as. “Não vejo as coisas assim. Não percebo como se pode falar em afunilamento do currículo quando introduzimos, por exemplo, o Inglês como disciplina obrigatória - que não o era em nenhum ano de escolaridade - e logo no 1º ciclo”, especifica, acrescentando que deu autonomia às escolas para introduzirem mais disciplinas e áreas. E recorda que a ambição numa disciplina, como a Matemática, não impede a ambição noutras, como as Ciências.

DAR UM SALTO QUALITATIVO

Olhando para os números, o que pode ser feito para recuperar as Ciências sem perder a Matemática? Foi esta a questão levantada por João Costa esta terça-feira em Lisboa, à margem da apresentação dos resultados portugueses do TIMSS, uma das mais antigas avaliações internacionais na área da Educação, promovida pela International Association for the Evaluation of Educational Achievement (IEA).

Para Nuno Crato a resposta é clara: “O que naturalmente precisamos é de pensar melhor as Ciências no 1º ciclo, introduzir também aí metas curriculares e alguma forma de avaliação externa.” Já João Costa destaca a importância de valorizar as várias áreas do currículo como, segundo diz, o atual Governo tem vindo a fazer.

Além das assimetrias entre Ciências e Matemáticas, o atual secretário de Estado aponta as assimetrias regionais, que obrigam à delimitação de estratégias diferentes, “sobretudo no âmbito do plano de progressão do processo escolar”. Neste contexto, as entidades intermunicipais “estão a desenvolver planos próprios que vão candidatar aos fundos do Portugal 2020”.

João Costa acrescenta que, para conseguirmos ir mais longe, é preciso “complementar os dados quantitativos com uma análise qualitativa do que se faz em Leiria [uma das regiões portuguesas com melhores resultados] que não se está a fazer noutras regiões” de Portugal.