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O trench coat está de volta

A moda está em voga e as tendências aparecem à velocidade com que se vão embora. Esta estação, há vida além do vestido preto, mas ele vai resistindo ao tempo

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Com um simples vestido preto, eu nunca me comprometo”, popularizou Ivone Silva em Portugal. O Preto. A (não) cor que absorve todos os comprimentos de onda do espectro solar, que é tristeza mas também luxo e sofisticação. O preto que Coco Chanel ‘mundializou’ e ‘essencializou’ no seu “little black dress” e que, em 1926, a revista americana “Vogue” publicou nas suas páginas. Simples, elegante e de tecido leve. Nascia o símbolo do chique. O vestido preto nunca mais comprometeu ninguém, abram-se roupeiros por esse mundo fora e constate-se isso mesmo.

De lá até cá houve, e há, mais vida além do “pequeno vestido preto”. Todos os anos, coleção após coleção, percorrendo todas as estações que um ano permite, designers de moda do mundo inteiro ditam aquilo-que-as-pessoas-dizem-não-seguir: tendências. Nova Iorque, Paris, Londres, Milão, Lisboa ou Porto colocam enormes passerelles ladeadas por centenas de cadeiras por onde desfilam rapazes e raparigas usando roupas que os designers criam e que, subtilmente, utilizam para dizer o que se usará dali por seis meses. Dir-se-á que só os fiéis seguidores da moda seguirão à risca o que por lá se vê. Será mesmo assim?

Os pelos serão os pormenores com maior importância nesta estação

Os pelos serão os pormenores com maior importância nesta estação

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“Todos somos influenciados, de uma forma ou de outra, por tendências, que podem ser de moda ou de outra natureza. Assumem uma visibilidade maior no discurso da moda, mas na verdade elas existem em todas as áreas criativas: arquitetura, indústria automóvel, culinária, alimentação... e apontam caminhos, mais ou menos seguros e já estudados sobre o gosto, as expectativas e a predisposição do consumidor, minimizando o risco da aposta na novidade”, explica António Simões, antigo sénior designer da Dielmar.

Verdade absoluta: a moda faz-se de modas. E o que está na moda não é mais do que o conjunto de “fatores culturais, sociais, do que sai nos media e o marketing. Ao viver em sociedade, somos pressionados (consciente e inconscientemente) a adotar comportamentos padrão dentro do nosso grupo social numa tentativa de identificação de valores, interesses e comportamentos”, defende António Simões. Para o designer de moda, Ricardo Preto, as tendências são criadas “com bom gosto (quase sempre) a que se junta o poder de influência de algumas celebridades”. Ainda que todas essas influências saltem aos olhos do consumidor, “uma tendência nunca vai determinar uma coleção, a mesma já obedece a muitos requisitos e regras necessárias ao seu equilíbrio e valor comercial. A coleção nunca fica escrava de uma tendência, porque isso pode vir a custar os clientes da marca”, reforça Ricardo.

Não passa um dia sem que sejamos bombardeados com imagens sugestivas sobre o que se usará naquela ou em outra estação do ano. As chamadas marcas de fast fashion — Zara, H&M, Mango, etc. — são as que mais contribuem para isso. Longe vai o tempo em que a moda era ditada apenas pelas classes mais altas e com maior poder de compra. Hoje, a moda é encarada como a evolução de uma sociedade, reforçando o poder e a influência visual das subculturas. Mais importante do que isso, faz-se por ciclos, o ‘Trickle Down’ (de cima para baixo) e o ‘Bubble Up’ (de baixo para cima). A explicação é de António Simões: “No primeiro, assistimos à apresentação de algo novo a partir de grupos formadores de opinião, marcas de alta costura, artistas e celebridades, que se vai difundindo até chegar à massificação total pelas grandes cadeias de lojas, conduzindo ao desgaste. É o efeito pirâmide. No segundo, o fenómeno da tendência nasce de baixo para cima (a base da pirâmide), normalmente tendo como primeiros impulsionadores grupos de cultura alternativa, terminando em versões exclusivas, e caras, nas lojas de referência.” Em qualquer um dos casos, diz, o importante é que haja consenso.


Por consenso pode também entender-se as filas em frente a uma loja dias antes de ser lançada uma coleção. É a aceitação maciça que corre o risco de se transformar num uniforme. Mas a moda também é isso — a capacidade de usar de maneira diferente aquilo que é igual. É a capacidade criativa de pegar no que nos é vendido, tornando-o nosso. São as misturas, os apontamentos e pormenores, e as conjugações que se fazem. A moda, hoje, é tudo o que quisermos que ela seja. Sempre foi. Tomemos o vestido preto do início do texto como exemplo. “Não é uma tendência, é essencial. Um básico revisitado constantemente. No Brasil diz-se ‘TQT’ (tem que ter)”, diz Ricardo Preto. António Simões defende que “é, talvez, a peça mais transgeracional e democrática, porque pode ser usado por mulheres de todas as idades sem causar embaraço ou ser alvo de preconceito”.

Os homens também seguem tendências

Neste outono-inverno 2016/2017, sobreposição, mistura e irreverência são palavras de ordem. Casacos de estilo militar, com cortes imponentes e marcantes, saias plissadas de tecido leve conjugadas com blusas de tecido mais rico ou com aplicações. Camisolas de gola alta conjugadas com ‘boyfriend jeans’, ou as sempre-na-moda calças de ganga usadas com botins conferem um look mais casual. António Simões defende “um apelo nostálgico aos anos 60/70 sobretudo nas formas e silhuetas: vestidos linha trapézio (sem mangas), calças ‘pantalonas’ muito fluidas e soltas logo a partir da cintura, blusas e camiseiros com estampados macro e botas de cano alto (mesmo acima do joelho) são algumas das peças que se irão impor como must have da estação. Nas cores, os tons de castanho surgem como paleta dominante, criando looks muito outonais e aconchegantes. Os pelos (de aspeto natural, longo e sedoso) e as franjas serão os pormenores com maior importância e a reter”. Já Ricardo Preto opta por “brocados leves em seda e licra” na sua coleção.

Os homens são sempre deixados de lado, como se as tendências fossem só no feminino. Errado. Casacos compridos (as trench coat) “em versão mais slim e alongada para usar com uma camisola de malha por baixo, num visual mais descontraído. Calças slim, ou skinny, curtas ou com dobras feitas à mão são ideais para coordenar com as indispensáveis ‘Chelsea Boots’ e blusões do estilo bomber”, diz António Simões. Urbano é a palavra de ordem. “‘Hoodies’ (camisolas com capuz) com bolso canguru ou não são também peças fundamentais e que se conjugam na perfeição com gorros de lã, sempre em visuais muito urbanos e descontraídos. Camisolas de tricô em jogos grossos, com tranças e grafismos desenhados a partir de blocos de cor deverão ser presença obrigatória. As cores serão um pouco escuras, alternando entre uma gama de cinzas médios e escuros e a família dos castanhos outonais ajudando a construir uma imagem e silhuetas muito relaxada e descontraída mas extremamente urbana e cuidada”, arremata o antigo designer. b