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E a culpa é do Facebook? Sim, do seu algoritmo cego

reuters

Mais de 1.600 milhões de pessoas usam o Facebook e 66% dos adultos que frequentam esta rede social é aí que toma contacto com a informação. Dados que podem ter ajudado Donald Trump a chegar à presidência dos Estados Unidos

Na última semana, Facebook e Google anunciaram iniciativas destinadas à destrinça entre notícias e notícias falsas. Ambas as empresas tiveram necessidade de vir a público anunciá-lo porque são vários os críticos que apontam para que a vitória de Donald Trump nas eleições presidenciais norte-americanas tenha recebido um valente empurrão de conteúdos falsos que foram plantados nas redes sociais e na Internet. Quem os plantou? Trolls (um troll é um utilizador da Internet que defende posições extremadas e que persegue todos os que tenham ideias contrárias), miúdos ucranianos que queriam ganhar umas massas com a publicidade da Google e, entre outros, os profissionais do rumor.

Mark Zuckerberg recorreu ao Facebook para explicar que 99% do que é mostrado pela “sua” rede social é verdade. Admitindo, assim, que 1% é mentira. Fiquei surpreendido. Afinal, são mais de 1.600 milhões os que utilizam mensalmente o Facebook. Estava convencido, pelos muitos disparates que leio nessa rede, que o “volume da mentira” fosse bem maior.

Colocando as coisas em perspetiva, 1% de mentira nem é muito importante. O dado mais relevante é o número de vezes que o conteúdo é partilhado e lido. Durante as eleições, sites de notícias falsas elaboraram as teorias mais desconcertantes sobre Hillary Clinton. Este, por exemplo, que a candidata derrotada seria a responsável por uma rede de escravas sexuais para pedófilos. Sim, é ridículo, mas isso foi publicado - e o site Breibart foi utilizado como uma das “fontes” para esta história completamente insana.

O Breibart é um site de extrema-direita e o seu principal mentor, Stephen Bannon, foi contratado para a campanha de Trump. Bannon é, hoje, um dos seus principais assessores na Casa Branca e prepara-se para lançar versões europeias do Breibart em países como a França e a Inglaterra – que vão a eleições brevemente e onde os nacionalistas estão, infelizmente, a ganhar maior projeção. Durante a campanha americana, o Breibart chegou a ter audiências próximas de jornais como o “Wall Street Journal”.

É importante referir que a campanha de Clinton também teve trolls de serviço. No entanto, segundo esta análise feita pelo site Buzzfeed, os republicanos foram muito mais eficazes e profícuos do que os democratas na criação destas “realidades alternativas”.

O reforço dos media tradicionais

Uma das missões dos órgãos de comunicações, e dos jornalistas, foi, é, e será, a de gatekeeping. Esta função de validar a verdade é, hoje, mais importante que nunca. É preciso não esquecer que 66% dos adultos que utilizam o Facebook é, aí, que consomem informação. Por mais que as equipas de Mark Zuckerberg tentem aprimorar o algoritmo que manda na maior rede social do planeta, a verdade é que haverá sempre alguém a tentar, e a conseguir, enganá-lo. Hoje, esta rede já não nos mostra os conteúdos por ordem cronológica. Vemos aquilo de que, supostamente, “gostamos”. Esta análise do nosso comportamento no Facebook permite ao tal algoritmo fazer o mais básico da programação: “gostaste disto, então é muito provável que também gostes disto”. Ao “pensar” assim, a tecnologia da Facebook, que já teve mais controlo humana, está a colocar-nos numa bolha onde parece que o mundo virtual, pelo menos dentro desta rede, não existe além daquilo que já nos faz algum sentido, com o qual já temos relação.

Esta constatação é determinante para entender o que aconteceu nas eleições americanas. Um simpatizante pela causa republicana ou pela democrata viu, à partida, conteúdos no Facebook que provinham dessas áreas. Um caldo primordial onde foram alimentados preconceitos e comportamentos mais extremos.

Mark Zuckerberg não pode imitar Pilatos. A sua criação regurgita milhões de conteúdos mensalmente. Muitos nascem da pena de jornalistas. Outros provêm de curiosos que não sabem o que é um código deontológico, e muitos outros alimentam uma agenda, uma intenção. Os últimos são, geralmente, mentira, ou uma deturpação da realidade. Aliás, no nosso desenvolvimento como seres sociais, nunca terá existido um momento em que fosse tão fácil disseminar um boato, uma mentira.

Nestas eleições americanas, o Facebook desempenhou um papel relevante no resultado final. E Trump, a quem não se reconhecem grandes atributos, foi quem conseguiu perceber melhor a importância das redes sociais e tirou maior partido das suas capacidades virais.
Por isso, reforço, os media tradicionais assumem hoje uma importância maior na divulgação da verdade. Só a relação de confiança que ainda existe entre o público e estes produtores de conteúdos é, e será, o garante de veracidade. Chegue-lhe pelo Facebook ou por outro qualquer canal. A tecnologia, sem bom controlo humana (sem exercer o contraditório e o cruzamento das fontes, por exemplo) ainda não tem a capacidade de distinguir as notícias, das notícias falsas. Ainda…