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Lisboa, obras sem fim

Cais do Sodré, 4ª feira, 23 de novembro

Intervenções na cidade estão para durar. Até ao final do ano devem iniciar-se mais quatro, 
no âmbito do programa 
‘Uma Praça em Cada Bairro’. Um roteiro das atuais, iminentes e previstas obras, que para já vão infernizando o trânsito e a vida de lisboetas e de quem trabalha ou visita a capital

Paulo Paixão

Paulo Paixão

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Jornalista

Tiago Miranda

Tiago Miranda

Fotojornalista

Nuno Botelho

Nuno Botelho

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Fotojornalista

Jaime Figueiredo

Jaime Figueiredo

infografia

Infográfico

O diálogo é já um clássico. Entra-se no táxi, indica-se a morada e logo o motorista desfila o rol de complicações que se vai enfrentar. O destino é o Largo do Município, onde fica a Câmara Municipal de Lisboa (CML). “Ir por baixo não dá, que está tudo cortado. A Calçada do Combro está péssima, acabei de fugir de lá. Talvez pela Avenida de Liberdade.”

São assim os dias de quem circula por Lisboa, tentando escapar às muitas obras que sobretudo desde o início de maio, quando arrancaram os trabalhos no eixo central, se estenderam por grande parte da cidade.“Se a CML não tivesse optado por fazer as obras de valorização do Cais do Sodré, Largo do Corpo Santo e Campo das Cebolas ao mesmo tempo, em vez de termos o trânsito condicionado durante ano e meio, teríamos o espaço em obras durante quatro ou mais”, justifica o gabinete do presidente da Câmara, Fernando Medina.

Fernando Nunes da Silva, professor do Instituto Superior Técnico (IST) e especialista em mobilidade, discorda. “Não havia qualquer necessidade. É contraproducente fazer em simultâneo obras em vias com interdependência. Em dado momento, havia trabalhos na Avenida da República e em praticamente todas as suas transversais, quando fazer a obra do eixo central já era suficientemente complicado.”

Duas das intervenções arrancaram já nesta semana, no Largo da Igreja de Santa Isabel e no Largo da Memória. Outra das grandes obras públicas em curso na cidade, embora sem impacto na circulação rodoviária, é o novo terminal de cruzeiros, a Santa Apolónia, da responsabilidade da Administração do Porto de Lisboa.

Avenida da República, 5ª feira, 24 de novembro
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Avenida da República, 5ª feira, 24 de novembro

Tiago Miranda

Praça do Saldanha, 5ª feira, 24 de novembro
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Praça do Saldanha, 5ª feira, 24 de novembro

Tiago Miranda

Campo das Cebolas, 5ª feira, 24 de novembro
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Campo das Cebolas, 5ª feira, 24 de novembro

Nuno Botelho

Rossio de Palma, 5ª feira, 24 de novembro
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Rossio de Palma, 5ª feira, 24 de novembro

Nuno Botelho

Praça de Campolide, 5ª feira, 24 de novembro
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Praça de Campolide, 5ª feira, 24 de novembro

Nuno Botelho

Largo de Santos, 4ª feira, 23 de novembro
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Largo de Santos, 4ª feira, 23 de novembro

Tiago Miranda

Largo da Memória, 5ª feira, 24 de novembro
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Largo da Memória, 5ª feira, 24 de novembro

Nuno Botelho

Largo da Graça, 4ª feira , 23 de novembro
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Largo da Graça, 4ª feira , 23 de novembro

Tiago Miranda

Largo da Igreja de Santa Isabel, 5ª feira, 24 de novembro
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Largo da Igreja de Santa Isabel, 5ª feira, 24 de novembro

Nuno Botelho

Novo terminal de cruzeiros, 4ª feira, 23 de novembro
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Novo terminal de cruzeiros, 4ª feira, 23 de novembro

Avenida da República, 5ª feira, 24 de novembro
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Avenida da República, 5ª feira, 24 de novembro

Tiago Miranda

O quotidiano de ruas cortadas, trânsito condicionado, passeios levantados, escavadoras e outras máquinas a invadir faixas de rodagem e espaços de peões não só está para durar como será alargado a mais locais. Até ao final do ano, deverão arrancar mais quatro frentes do programa “Uma Praça em cada Bairro”: Largo de Alcântara, Largo do Calvário/Fontainhas, Alameda Manuel Ricardo Espírito Santo e Alameda das Linhas de Torres.

Mais espaços para peões, plantação de árvores ou novos planos de circulação rodoviária são alguns traços comuns a várias destas intervenções.Há, no entanto, pontos singulares: no Largo do Calvário será reposto o fontanário anteriormente existente, hoje em dia na Travessa Teixeira Júnior; no Largo de Alcântara, pretende-se potenciar o "cluster das cervejarias"; na Alameda Manuel Ricardo Espírito Santo, na charneira entre as freguesias de Benfica e de São Domingos de Benfica, o objetivo é criar um "caráter de praça", com mais esplanadas associadas ao comércio; já na Alameda das Linhas de Torres, a intervenção, que se estende à Rua do Lumiar, será introduzido um separador central.

Fora do programa "Uma Praça em cada Bairro", estão também previstas obras na segunda circular. Embora o processo de pavimentação esteja parado, iniciar-se-ão brevemente trabalhos para 
novos acessos no viaduto 
do Campo Grande.

Antevisão do Largo de Alcântara
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Antevisão do Largo de Alcântara

Imagem C.M.L

Antevisão do Largo do Calvário
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Antevisão do Largo do Calvário

Imagem C.M.L

Antevisão da Alameda Manuel Ricardo Espírito Santo
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Antevisão da Alameda Manuel Ricardo Espírito Santo

Imagem C.M.L

Antevisão da Alameda das Linhas Torres
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Antevisão da Alameda das Linhas Torres

Imagem C.M.L

Todas as obras do programa "Uma Praça em cada Bairro" já em curso ou a lançar nos próximos tempos deverão estar concluídas antes das eleições autárquicas, a realizar entre o final de setembro e o início de outubro de 2017.

Puro eleitoralismo, acusam opositores de Medina. “Tempos estranhos estes em que o cumprimento das promessas eleitorais é chamado de eleitoralismo,” riposta a Câmara, lembrando que todo o processo de consulta pública, lançamento de concursos e execução de obras é demorado.

Nunes da Silva, crítico assumido da gestão de Medina (foi vereador entre 2009 e 2013, com o pelouro da Mobilidade, sob a presidência de António Costa), vê na simultaneidade das obras um dedinho da política. “Trata-se de incompetência técnica”, diz, para corrigir de seguida: “Foi uma decisão política que se sobrepôs aos pareceres dos técnicos.”

Retirar carros da cidade, aumentar espaços verdes, promover a utilização dos espaços públicos pelos moradores são pedras de toque das intervenções. “Lisboa tem mais de 300 dias de sol por ano, um dos valores mais altos entre as capitais europeias”, lembra a autarquia. No caso do programa “Uma Praça em cada Bairro” trata-se de replicar a requalificação da Avenida Duque d’Ávila, que ganhou espaços pedonais e ciclovias em detrimento do trânsito automóvel.

No entanto, a maioria das intervenções do programa não tem ainda um calendário de obra.

No final, será uma cidade diferente, seguramente mais agradável à vista e aos passeios. Mas para quem tem de andar de carro as críticas são muitas. “A estratégia é totalmente errada”, atira o mesmo taxista. “As obras são boas para o turismo. Para as bicicletas. Mas o país movimenta-se é com carros.”

Fernando Medina não precisa de ir além da varanda dos Paços do Concelho, com vista para a Rua do Arsenal, cortada ao trânsito há vários meses, para perceber as queixas. O movimento e barulho de escavadoras, calceteiros, martelos pneumáticos é constante e contínuo até a um Cais do Sodré virado do avesso.

Fernando Medina, na segunda-feira, na Rua do Arsenal, a caminho da Câmara, seguido pelo ministro do Ambiente, João Matos Fernandes

Fernando Medina, na segunda-feira, na Rua do Arsenal, a caminho da Câmara, seguido pelo ministro do Ambiente, João Matos Fernandes

Tiago Miranda

Os turistas que veem a cidade sentados no andar de cima dos autocarros turísticos talvez pensem que terão escolhido a altura errada para visitar a cidade. Mas as fotografias não param. Na fila do 28 as selfies ajudam a passar o tempo de espera: 25 minutos. A demora é compensada pela chegada de dois elétricos de seguida — outro clássico da espera do transporte público, que tem a vantagem de evitar que o primeiro siga ainda mais apinhado. Chegando à Graça, o cenário repete-se. Mais máquinas em movimento, mais ruas levantadas, mais pedras, mais pó.

Além do para arranca na cidade, as queixas sobre o funcionamento do Metro e da Carris (empresa cuja futura gestão municipal foi anunciada nesta segunda-feira) são outras das mais ouvidas por estes dias.

Cortes nas carruagens, nos funcionários, nas carreiras levaram a que, sobretudo nas horas de ponta, o transporte público seja uma alternativa pouco melhor a estar preso no trânsito dentro do próprio carro.

A Câmara lembra que o tráfego médio diário aumentou cerca de 30 mil veículos/dia em dois anos (entradas e saídas). Nunes da Silva desmonta a tese: “Esquecem-se é de dizer que ainda estão 50 mil veículos/dia abaixo dos valores de 2004.”

Afastar os carros

Para tirar os automóveis do centro da cidade, a aposta é, entre outras medidas, criar mais estacionamento em zonas limítrofes e/ou associadas a estações de metro e interfaces. No total, serão 4455 lugares em parques dissuasores. “Terão um custo simbólico, muito abaixo dos preços habituais”, explica a autarquia.

Neste ponto, Nunes da Silva concorda com Medina: “Têm é de estar indexados ao título de transporte. E as pessoas preferem pagar um pouco mais e ter um lugar seguro.”

Nos parques dissuasores, além de construção de raiz e alargamento de equipamentos já existentes, haverá o incremento de uma situação nova: espaço de entidades privadas com quem a Câmara negoceia a compra de lugares. É assim que no Estádio da Luz, por exemplo (exceto nos dias de futebol), haverá 800 lugares disponíveis, tendo em vista sobretudo os passageiros que usam o interface do Colégio Militar.

Nunes da Silva faz questão de recordar que o projeto já vem do seu tempo. “Tem é de haver uma passerelle sobre a segunda circular, que chegou a ser desenhada. Permitiria também um melhor escoamento de espectadores em dias de futebol.”

Mas o plano da Câmara é para manter a circulação pedonal tal como está, através do túnel de acesso ao estádio.

(Versão adaptada e atualizada do texto publicado na edição impressa do EXPRESSO de 19 de novembro de 2016)