Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

Sismos. Podem as réplicas prolongar-se por vários anos? Sim: aconteceu em Lisboa em 1761

FRANCK ROBICHON / EPA

Autoridades japonesas revelaram que o sismo de magnitude 6,9 que se registou na passada segunda-feira, perto de Fukushima, foi uma réplica de outro ocorrido na mesma região... há cinco anos. O fenómeno já aconteceu pelo menos duas vezes em Portugal

Virgílio Azevedo

Virgílio Azevedo

Redator Principal

Surpreendeu muita gente mas não é um fenómeno misterioso, tendo ocorrido pelo menos já duas vezes em Portugal. As réplicas dos terramotos podem prolongar-se não apenas por dias, semanas ou meses, mas também por vários anos. E esta semana, a Agência Meteorológica do Japão revelou que o sismo de magnitude 6,9 na Escala de Richter que atingiu o nordeste do país na passada segunda-feira foi uma réplica de um outro registado na mesma região há cinco anos.

O epicentro localizou-se a 11 km de profundidade no mar, a cerca de 37 km ao largo da perfeitura de Fukushima, onde a 11 de março de 2011 um sismo de magnitude 9,1 e o tsunami que se seguiu devastaram toda a região, mataram 18 mil pessoas e provocaram graves danos na central nuclear de Fukushima Daiichi, desencadeando a pior crise nuclear desde o desastre de Chernobil, na Ucrânia, em 1986.

Fernando Carrilho, sismólogo e chefe da Divisão de Geofísica do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), confirma ao Expresso que "as réplicas que se estendem por vários anos são um fenómeno normal nos grandes sismos". E admite que este fenómeno "é perfeitamente plausível no Japão".

O especialista diz que "existem formas de avaliar se eventos como este estão relacionados entre si, baseadas em critérios espaço-temporais". Os investigadores dispõem de sistemas de registo e de observação que permitem constatar que "quanto maior é a magnitude de um sismo, maior é a sua zona de influência no espaço e no tempo", ou seja, maior é o conjunto de réplicas que estão com ele relacionadas ao longo do tempo, constituindo uma série sísmica.

Réplicas do sismo do Faial de 1998 duraram quatro anos

"Há pelo menos dois bons exemplos deste fenómeno em Portugal", recorda Fernando Carrilho: o sismo do Faial de 9 de julho de 1998 e o Terramoto de 1755. No primeiro caso, as réplicas do sismo de magnitude 6,1 e epicentro a nordeste daquela ilha dos Açores "duraram quatro anos e um mês". Ou seja, a série sísmica associada a este evento só terminou em agosto de 2002.

No evento do Faial houve nove mortos, mais de uma centena de feridos e 1500 casas parcial ou totalmente destruídas, bem como alguns milhares de desalojados, significativos danos materiais ao nível de infraestruturas básicas como a rede viária, o sistema de abastecimento de água, a rede de distribuição de energia e de comunicações, em especial junto à costa nas freguesias da Ribeirinha e do Salão, as mais próximas do epicentro. E ocorreram ainda importantes movimentos de vertente nas arribas litorais, nas escarpas e em zonas de declives mais pronunciados.

O Terramoto de 1755, com uma magnitude estimada de 8,7 a 9, "também teve muitas réplicas", conta o especialista do IPMA, "tendo sido documentadas na época as maiores". A mais forte terá acontecido em 1761, "com uma magnitude estimada de 7,5 na Escala de Richter e o epicentro localizado a sudoeste do Cabo de S. Vicente (Algarve), na mesma zona de geração". Esta réplica de 1761 "provocou ainda um tsunami, mas que não teve a expressão do fenómeno idêntico de 1755", que tinha provocado ondas de cerca de 20 metros de altura.

Mas Fernando Carrilho ressalva que na época não existiam ainda sismógrados ou marégrafos, "o que significa que temos de aplicar fórmulas e algoritmos à chamada sismicidade histórica (relatos históricos) para obtermos estimativas do que aconteceu". Os resultados não são, obviamente, "tão claros como os que são hoje obtidos com a sismicidade instrumental".

Origem comum de 1755 e de 1761

Os dois grandes sismos terão sido gerados "provavelmente pela movimentação combinada das falhas do Marquês de Pombal e da Ferradura, que se situam a uma distância de 100 km a 120 km do Cabo de S. Vicente".

Mas é preciso esperarmos pelo fim de uma série sísmica para percebermos verdadeiramente o que aconteceu. E para compreendermos qual é o sismo principal da série e quais são as suas réplicas, explica o especialista do IPMA. Caso contrário podem surgir notícias enganadoras, como algumas das que foram dadas sobre o terramoto ocorrido no centro de Itália a 26 de outubro, apenas dois meses depois da catástrofe de Amatrice.

Atingiu a magnitude de 5,5 na Escala de Richter e teve uma suposta réplica com a magnitude de 6,1 cerca de duas horas depois. Mas "se aparecer um sismo maior, passa a ser este o principal da série sísmica e os que estão para trás são classificados como sismos precursores", esclarece Fernando Carrilho.