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“Não serei uma estrela do rock, serei uma lenda”: o Freddie vive

FERNANDO CONCEIÇÃO. Chamam-lhe “o Freddie português” e aquele casaco amarelo é valioso e invejado - ao ponto de ter medo de lavá-lo (mas não de levá-lo). Nas idas a Londres e a Montreux, veste-se a rigor com a indumentária com que Freddie subiu ao palco no mítico concerto em Wembley, em 1986. E em casa tem um precioso museu privado dedicado aos Queen

ANA BAIÃO

Fernando Conceição é um fã abnegado de Freddie Mercury, daqueles que gastam os CD de tanto os ouvir. Coleciona tudo o que tenha que ver com o artista e viaja pelo mundo no encalce dos seus sítios emblemáticos. Quando um grave problema de saúde debilitou Fernando Conceição, a quem chamam “o Freddie português”, foi alvo de uma homenagem da melhor banda de tributo aos Queen. Na semana do 25º aniversário da morte de Freddie Mercury, que se assinala esta quinta-feira, abriu ao Expresso a porta de casa e do seu raro museu privado para desvendar encontros e episódios singulares

Margarida Mota

Jornalista

Freddie Mercury, o carismático vocalista dos Queen, morreu faz esta quinta-feira 25 anos. Mas a lenda continua viva graças a fãs como Fernando Conceição. “Era um génio, a compor, a cantar e em palco. Para nós, os fãs, ele não morreu, apenas deixou de escrever. Ouvimos as músicas dos Beatles ou do Elvis com nostalgia, mas não as do Freddie. Parece que ele está ali, a cantá-las.”

Fernando, de 52 anos, recebe o Expresso no seu apartamento em Queluz vestido com uma t-shirt preta que tem estampada uma frase emblemática do seu ídolo: “Não serei uma estrela do rock, serei uma lenda”, uma espécie de declaração prévia a uma conversa onde o fã se dispõe a partilhar como nasceu a admiração pelo artista e como, 25 anos após o seu desaparecimento, Freddie continua a ser importante para tanta gente. “Tinha uns 15 anos quando ouvi os Queen pela primeira vez. Gostava muito de música, mas não os conhecia. Um dia, o meu irmão mais velho trouxe um single do ‘Crazy little thing called love’ e pôs a tocar. Eu não queria dar parte fraca — coisa de irmãos — e não dei muito valor. Mas a música nunca mais me saiu da cabeça. Fui comprar o mesmo single para mim. Ainda o tenho.”

Aquele disco seria a primeira peça de um “museu” que foi ganhando forma ao longo dos anos e que hoje ocupa uma parede na sala de estar de Fernando, onde uma grande estante está totalmente preenchida com todo o tipo de objetos alusivos aos Queen: discos em vinil, cassetes e CD, vídeos, livros, postais e álbuns fotográficos, pins, medalhas e porta-chaves, bandeiras e peças de roupa, brinquedos, bonecos e puzzles, garrafas de vinho, cerveja e vodka, frascos de ketchup e preservativos, entre muitas outras coisas que Fernando vai comprando e recebendo de presente. Umas mais valiosas do que outras em termos monetários, todas elas emocionalmente preciosas.

MUSEU. Fernando Conceição na sua sala-museu, onde guarda todo o tipo de objetos alusivos a Freddie e aos Queen, de discos em vinil a preservativos

MUSEU. Fernando Conceição na sua sala-museu, onde guarda todo o tipo de objetos alusivos a Freddie e aos Queen, de discos em vinil a preservativos

ana baião

Na sua sala-museu, como Fernando lhe chama, já esteve Jacky Smith, que preside há décadas ao Clube de Fãs Internacional Oficial, de que Fernando é o sócio 60.360. Muitos outros admiradores conhecem o espaço através do Facebook de Fernando. De Vila Nova de Gaia à Polónia, vários já lhe expressaram o desejo de visitar o museu. Fernando tem cotação alta junto de fãs de todo o mundo. “Dizem que sou o Freddie português.” Perguntam-lhe se tem o número de telemóvel dos músicos da banda, pedem-lhe que esclareça rumores e que confirme informações, como aconteceu recentemente quando foi conhecida a morte da mãe de Freddie Mercury.

Aparentemente, aquela parede homenageia todos os membros dos Queen por igual, mas a figura de Freddie Mercury sobressai. “Sou fã dos Queen, mas mais do Freddie Mercury. Marcou-me principalmente a voz dele, que é muito poderosa, e as suas atuações ao vivo, a personagem que ele assumia em cima do palco e a interação com o público”, diz. “Até hoje, não houve mais ninguém como ele.”

LONDRES. Após vencer um concurso organizado pela editora dos Queen, em 2011, o fã português teve entrada numa festa só para convidados, na véspera da inauguração de uma exposição sobre a banda. Roger Taylor e Brian May não faltaram. Fernando e a sua jaqueta amarela não passaram despercebidos

LONDRES. Após vencer um concurso organizado pela editora dos Queen, em 2011, o fã português teve entrada numa festa só para convidados, na véspera da inauguração de uma exposição sobre a banda. Roger Taylor e Brian May não faltaram. Fernando e a sua jaqueta amarela não passaram despercebidos

FOTO CEDIDA POR FERNANDO CONCEIÇÃO

Uma foto da parede da sala-museu está também na origem de um dos momentos mais especiais da vida de Fernando Conceição. Em 2011, a Universal, editora dos Queen, organizou um concurso em vários países: quem provasse ser o maior fã da banda ganharia uma viagem a Londres para duas pessoas com direito a estadia e entrada numa festa privada que teria lugar na véspera da inauguração da exposição “Stormtroopers in Stilettos”, sobre os primeiros anos da banda e que abriu ao público a 25 de fevereiro.

Fernando participou com a imagem do seu “museu” e foi o vencedor português. Embarcou para Londres trajado à Freddie da cabeça aos pés, com jaqueta amarela, calças desportivas e ténis Adidas, a indumentária com que o vocalista subiu ao palco no mítico concerto em Wembley, a 12 de julho de 1986.

Sem saber se os membros dos Queen que continuaram com o projeto após a morte de Freddie iam à festa, Fernando desfilou pela “passadeira vermelha” — que naquele caso era rosa-choque — e entrou num espaço exclusivo onde conviviam familiares do cantor — como a mãe, Jer Bulsara, e a irmã Kashmira —, pessoas próximas da banda, como o manager Jim Beach, e outras estrelas do espetáculo, como a cantora Jessie J e Dave Grohl, vocalista dos Foo Fighters.

O desejo de Fernando concretizou-se e quer o guitarrista Brian May quer o baterista Roger Taylor compareceram ao evento. O momento para tirar fotos com ambos, pedir autógrafos e trocar umas palavras surgiu com naturalidade. “Foi um sonho realizado, já que com o Freddie não consigo estar”, recorda. “O Brian May disse-me que se não soubesse onde está a jaqueta amarela original, usada pelo Freddie, dizia que era a minha.”

O casaco foi um presente de aniversário da esposa de Fernando, que o encomendou às escondidas a uma amiga aderecista, após visionar muitos vídeos e fotografias de Freddie com ele vestido. “Se a costureira quiser fazer outro, já não sai igual”, garante Fernando. “Este casaco tem qualquer coisa de especial. O próprio Brian May mo disse.” Diana Moseley, a costureira de Freddie Mercury, também já lhe pôs a vista em cima. Confirmou que o tecido usado era o mesmo, observou Fernando de cima a baixo e... procurou defeitos. Disse que as calças tinham o bolso na perna errada. Fernando ficou aflito, mas depois confirmou não ser verdade. “Não vendia este casaco por dinheiro algum! Uns italianos já mo quiseram comprar, mas não aceitei.” Tem o casaco desde 2009. Nunca o lavou. “Tenho medo que aconteça alguma coisa.”

QUEEN. Após a morte de Freddie Mercury, a banda britânica prosseguiu a carreira com apenas dois dos restantes três membros. Para John Deacon, o baixista, não fazia sentido continuar sem Freddie, a alma do projeto

QUEEN. Após a morte de Freddie Mercury, a banda britânica prosseguiu a carreira com apenas dois dos restantes três membros. Para John Deacon, o baixista, não fazia sentido continuar sem Freddie, a alma do projeto

ANA BAIÃO

Depois de privar com os músicos dos Queen, Fernando já voltou a Londres várias vezes, por altura de outras festas, apenas para se colocar à porta a tirar fotos e ver entrar os convidados. Para ele, cada ida à capital britânica torna-se um “tour” pelos sítios emblemáticos frequentados por Freddie: o colégio onde estudou, o Heaven (uma discoteca gay), a casa onde viveu (Garden Lodge), na zona de Kensington, fechada ao público por vontade do artista, e onde vive Mary Austin, namorada de Freddie durante oito anos, a quem o cantor deixou a fortuna e a quem dedicou o tema “Love of my life”. Esta é também a música preferida de Fernando — “preferidas são elas todas, mas aquela é especial” — e a que tem como toque de telemóvel para identificar as chamadas da mulher. Para os outros, o toque é o “Bohemian Rhapsody”.

Junto a Freddie, em Montreux

Fernando não é um fã que se limita a “romper” os discos dos Queen, ouvindo-os até à exaustão. Além do museu, viaja sempre que pode, no rasto do ídolo, até Londres e desde 2008 até à cidade suíça de Montreux, para onde Freddie Mercury se retirou numa fase tardia da vida e onde anualmente fãs de todo o mundo acorrem para celebrar o aniversário do artista, a 5 de setembro.

À casa que Freddie ali comprou, voltada para o lago Léman, só se chega de barco. “É um paraíso”, confirma Fernando. “O lago transmite uma grande tranquilidade. É muito fácil perceber por que motivo o Freddie quis lá morar.” Ali, tinha sossego, isolamento e anonimato.

Em Montreux, a festa oficial decorre no casino, onde se entra mediante a compra de bilhete, mas o grande convívio entre fãs acontece junto a uma estátua em bronze de Freddie, oferecida pela soprano espanhola Montserrat Caballé (com quem Freddie gravou “Barcelona”) e inaugurada a 25 de novembro de 1996.

A estátua está virada para o lago. “A dada altura, os suíços quiseram virá-la para a cidade, mas os fãs não deixaram. Fizeram uma petição”, que Fernando também assinou. “O Freddie comprou ali a casa para estar a olhar para o lago...”

MONTREUX Estátua de Freddie Mercury virada para o lago Léman, na cidade suíça de Montreux, onde o músico viveu nos últimos anos. Todos os anos, a 5 de setembro, os fãs ali acorrem para celebrar o aniversário de Freddie

MONTREUX Estátua de Freddie Mercury virada para o lago Léman, na cidade suíça de Montreux, onde o músico viveu nos últimos anos. Todos os anos, a 5 de setembro, os fãs ali acorrem para celebrar o aniversário de Freddie

FABRICE COFFRINI / AFP / GETTY IMAGES

Entre os admiradores, junto à estátua, nunca falta assunto. Convivem, cantam (músicas dos Queen e também os parabéns), tiram fotos, partilham entre si informações novas. “Só falamos do Freddie, há sempre uma novidade qualquer.” Junto de Peter Freestone, o assistente pessoal de Freddie que também é presença assídua, tentam saber pormenores inéditos da vida do músico. “Às vezes, o Peter, que também cozinhava, faz-nos o bolo que costumava fazer para o Freddie.”

Em Montreux, Fernando dá nas vistas mal sai do comboio “por causa do casaco amarelo”, que o acompanha desde que lá vai e por causa do bigode à Freddie que deixa crescer propositadamente. Junto à estátua, torna-se, ele próprio, uma atração para os fãs, a quem não diz que não quando lhe pedem para tirar uma foto. É uma grande festa a vários níveis. “Só não vou se não puder”, diz.

Foi o que aconteceu este ano. Há cerca de dois anos e meio, a vida de Fernando — da mulher, do pequeno Afonso de 9 anos e de Fábio de 24 (filho apenas de Fernando) — deu uma reviravolta, quando lhe foi diagnosticado um cancro. Deixou de poder fazer planos e deixou de comparecer com a frequência habitual nos locais de sempre. Mas “os fãs do Freddie português” não o esqueceram.

Foi o caso da banda argentina Dios Salve a la Reina, reconhecida por muitos — incluindo Fernando — como “a melhor banda de tributo aos Queen” em todo o mundo e que recentemente se apresentaram em versão sinfónica em Lisboa e Gondomar, acompanhados da Orquestra Filarmonia das Beiras, dirigida pelo maestro Cristiano Silva, e pelo Coro do Departamento de Comunicação e Arte da Universidade de Aveiro. Conhecedores do problema de saúde de Fernando, que conheciam dos seus concertos em Portugal, dedicaram-lhe um vídeo de motivação.

No ano passado, conseguiu ir a Londres e marcou presença na festa no Hard Rock Cafe que, a cada 5 de setembro, doa uma percentagem de cada refeição servida em todos os seus restaurantes por todo o mundo à Fundação Mercury Phoenix Trust (veja AQUI). Criada em 1992, apoia o combate à Sida, que vitimou Freddie. “O gerente era português. Na festa atribuíram prémios aos mais bem vestidos. Lá trouxe mais uns... É o casaco.”

The show must go on... com outros vocalistas

Talvez a “fúria” com que Fernando viaja no encalce de Freddie Mercury se explique pelo facto de nunca ter visto o artista ao vivo. “É um desgosto que tenho. Ele nunca veio a Portugal e, naquela altura, eu não tinha hipótese de viajar. Eram outros tempos. Se fosse hoje, desgraçava-me a vida porque eu andaria atrás dele para todo o lado.”

O primeiro concerto dos Queen a que assistiu foi em Barcelona, a 2 de abril de 2005. Freddie tinha morrido há 14 anos e a banda regressava aos palcos com um novo vocalista, Paul Rodgers, mas sem o baixista John Deacon, para quem os Queen acabaram quando Freddie morreu. Nesse ano, a 2 de julho, os “Queen + Paul Rodgers” passaram também pelo Estádio do Restelo e Fernando não faltou. O terceiro e último concerto a que assistiu foi a 20 de maio passado, no Rock in Rio Lisboa, com Adam Lambert como vocalista.

“Como fã dos Queen/Freddie Mercury, para mim nenhum deles se aproxima do Freddie. O Brian May e o Roger Taylor gostam de música, querem continuar com os Queen, mas deviam fazer músicas novas. Podiam tocar repertório dos Queen, mas não apenas isso, como acontece. Em Barcelona, ouvir as músicas interpretadas por outro cantor que não o Freddie mexeu muito com o público. O concerto estava completamente morno e só ‘explodiu’ quando surgiu no video wall a imagem do Freddie.”

Para fãs como Fernando, Freddie é insubstituível, pelo que as músicas compostas por ele não deveriam ser interpretadas por outros cantores enquanto Queen. A banda está ciente desta sensibilidade. Durante os concertos, é Brian May quem interpreta “Love of my life”. A ele junta-se inevitavelmente o público e... Freddie Mercury, projetado no ecrã.

Desta forma, homenageiam a alma da banda e acalmam as hostes. “Eles passam muitas imagens do Freddie, que é o que realmente une o público. Eles têm a noção de até onde podem ir com o Adam Lambert ou qualquer outro.”

Como se depreende da forma como aprecia os argentinos Dios Salve la Reina, Fernando não se opõe à existência de bandas tributo, que copiam os Queen em repertório e atitude. “Eu faço o meu tributo, eles fazem o tributo deles.” Igualmente, não se incomodou quando, a dada altura, Freddie Mercury optou por seguir com a carreira a solo. “Para mim era igual, era o Freddie”, um artista de exceção e um homem extravagante, de excessos (leia AQUI), que não queria envelhecer em palco e que protegeu a sua privacidade até ao fim da vida.

A 23 de novembro de 1991, a imprensa noticiou que Freddie Mercury tinha sida. No dia seguinte, morreu, aos 46 anos. “Não estou a ouvir o Freddie”, reclama Fernando durante a sessão fotográfica para o Expresso. A mulher, a assistente do fã quando está “em modo Freddie” e companheira de aventuras, dirige-se ao leitor de CD e carrega no “on”. Freddie volta a ouvir-se por toda a casa.