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Francisco tem atuado “com grande sensibilidade pastoral”

Na semana em que o Papa anunciou estender a todos os padres católicos a faculdade para perdoar o aborto, o Expresso entrevistou, via email, o padre Manuel Barbosa, secretário e porta-voz da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), que admite que a medida pode alargar-se no futuro a outras situações. “O Santo Padre dará certamente orientações pastorais, se achar oportuno”

Tiago Miranda

Qual é o significado para a Igreja Católica a absolvição de todas as mulheres que praticaram o aborto e que se arrependeram?
Para a Igreja não existem pecados irremissíveis, isto é, todos os pecados são perdoáveis, mesmo os pecados graves como o aborto provocado, seja praticado pela mulher, seja por aqueles que nele formalmente colaboram. É importante realçar este aspeto, pois habitualmente só se refere a mulher que pratica o aborto. Como diz o Papa no n.º 8 da Carta Apostólica, o pecado e o perdão dizem respeito a “todas as pessoas que incorreram no pecado do aborto”.

É preciso que a pessoa esteja arrependida e peça para se reconciliar com Deus. O perdão dos pecados é dom de Deus e só Ele o concede (cf. n.º 8), mas reafirma-se, igualmente, a mediação da Igreja no processo de reconciliação do pecador arrependido com Deus, por meio daqueles que estão revestidos com o poder de perdoar os pecados.

Enfim, trata-se de assumir plenamente o amor misericordioso de Deus que nos perdoa infinitamente num abraço de Pai, como vemos constantemente no Evangelho que é o próprio Cristo.

Isso não coloca em causa o posicionamento do Vaticano relativamente ao aborto, porque o Papa insiste que é um “grave pecado colocar fim a uma vida inocente”...
Não, de modo nenhum. O aborto “provocado” ou “direto”, “querido como fim ou como meio”, é sempre “pecado grave”, contrário à lei moral (cf. Catecismo da Igreja Católica 2271). O Papa Francisco reitera “com todas” as suas “forças que o aborto é um grave pecado” (cf. n.º 12 da Carta Apostólica).

A misericórdia de Deus, porém, é sempre um acontecimento de “graça” que antecede (cf. n.º 8). O Papa Francisco pretende destacar o grande alcance pastoral desta verdade doutrinal para os nossos tempos, apelando reiteradamente à primazia da misericórdia de Deus expressa no perdão.

Tiago Miranda

Na carta apostólica “Misericordia e Misera” pode ler-se que “não existe nenhum pecado que a misericórdia de Deus não consiga atingir e limpar quando encontra um coração arrependido em busca de reconciliação”. Poderá assim o perdão ser alargado no futuro a outras questões fraturantes, rejeitadas pela Igreja Católica?
O Santo Padre tem atuado com grande sensibilidade pastoral, perscrutando atentamente o mundo, atento aos anseios mais espirituais da pessoa e que ninguém pode apagar, sempre com grande entrega e confiança na misericórdia divina. A caridade tão natural que o Santo Padre manifesta no seu múnus pastoral é toda ela um serviço à verdade e na verdade. O quanto a Igreja rejeita no presente como no futuro é sempre e só o pecado. Este só pode ser vencido na caridade e na verdade.

As mesmas exigências que se colocam em relação ao pecado de aborto podem colocar-se diante doutras situações. O Santo Padre dará certamente orientações pastorais, se achar oportuno, para todos estarmos preparados para acolher e viver o perdão infinito de Deus. É bom recordar que a absolvição para os que incorreram no pecado do aborto sempre aconteceu, apenas a forma de a praticar era reservada ao bispo. Ao alargar essa faculdade a todos os sacerdotes, mantém-se a mesma exigência e responsabilidade.

O Papa insiste que o sacramento da reconciliação precisa de voltar a ter um papel central na vida cristã, apelando aos sacerdotes que possibilitem aos cristãos “experimentar a força libertadora do perdão”. O que Francisco quer dizer com isso? É uma mensagem de aproximação aos católicos?
Os sacerdotes têm uma função instrumental no processo da reconciliação do pecador com Deus Pai e com a Igreja. Neste sentido, os sacerdotes são chamados, durante a confissão, a permitir que o pecador arrependido faça a experiência de um autêntico acontecimento de perdão e de paz. Por outro lado, o sacramento da confissão continua a ser o meio objetivo pelo qual se dá, na Igreja, o perdão de Deus, confiado àqueles que receberam o ministério ordenado. No entanto, tal exercício sacerdotal é quanto mais acreditado quando também experimentado pela misericórdia de Deus.

Claro que a aproximação deve ser intensificada, não como método mas como atitude essencial no seguimento de Jesus Cristo: sendo aproximação a Deus, só pode ser aproximação entre irmãos.

O Papa anunciou também que vai manter o serviço dos Missionários da Misericórdia para promover o perdão dos pecados. Quantos sacerdotes portugueses estão envolvidos nessa missão? Está previsto o número manter-se?
Na bula “O Rosto da Misericórdia” (n.º 18), o Papa anunciava a iniciativa dos Missionários da Misericórdia e dizia qual o seu sentido, como “sinal da solicitude materna da Igreja pelo povo de Deus...”, com algumas faculdades especiais. No início da Quaresma deste ano, o Papa fez o envio desses missionários, cerca de mil em todo o mundo. Os bispos puderam apresentar nomes de sacerdotes para serem confirmados pelo Papa. De notar que esses missionários podiam ir também a outras dioceses e mesmo a outros países, em acordo com os respetivos responsáveis, como é óbvio.

De Portugal, foram enviados nove Missionários da Misericórdia. Segundo o que diz o Papa nesta Carta Apostólica e ressalvando possíveis indicações novas, penso que irão manter-se os mesmos em todo o mundo, também em Portugal.