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Uma tese polémica: “O grande genocídio aconteceu na Krajina, não em Srebrenica”

Major-general na reserva Carlos Branco

mário joão

Esta será, muito provavelmente, uma das teses mais polémicas do livro que o major-general Carlos Branco lança esta quinta-feira em Lisboa. Duas décadas depois de ter sido alcançada a paz, o antigo observador militar ao serviço da ONU na Bósnia critica ainda os media internacionais por terem coberto conflito nos Balcãs alinhados com os interesses das grandes potências e a forma pouco isenta como os crimes de guerra foram julgados pelo Tribunal Internacional Penal para a Antiga Jugoslávia

Carlos Abreu

texto

Jornalista

Mais de 20 anos passados sobre a assinatura do Acordo de Dayton, que haveria de colocar um ponto final na guerra da Bósnia, “o passado é sempre presente. As feridas foram mal saradas e as dores tornaram-se crónicas. Basta que mudem os ventos da geopolítica para se voltarem a abrir”. O alerta consta do livro do major-general Carlos Branco, “A Guerra nos Balcãs. Jihadismo, Geopolítica e Desinformação, lançado esta quinta-feira em Lisboa, onde relata os 17 meses passados ao serviço das Nações Unidas “num teatro de operações que englobava cinco países independentes resultantes da dissolução da República Federal Socialista da Jugoslávia: Eslovénia, Croácia, Bósnia-Herzegovina, a República Federal da Jugoslávia (nascida em 1992 e que englobava a Sérvia e o Montenegro) e a Macedónia” (p. 34).

Em entrevista ao Expresso na véspera do lançamento do seu último livro, que será apresentado pelo embaixador Francisco Seixas da Costa, autor do prefácio, Carlos Branco, de 58 anos, começa por constatar que “aquela região está sempre em conflito quando mudam os ventos da história”. “E nenhuma das soluções encontradas ao longo dos tempos foram suficientes para acomodar os interesses de todas as partes. Ora, a solução que se encontrou volta a não ser uma solução estável, como é evidente, passados estes 20 anos. Quando houver uma nova alteração na geopolítica da Europa, será novamente uma zona de confronto.”

No entender do homem que a 15 de agosto de 1994 aterrava em Zagreb para participar na missão da ONU nos territórios da antiga Jugoslávia como observador militar, “continua válida a necessidade de constituir uma Comissão da Verdade, um poderoso instrumento de reconciliação que, infelizmente, não foi possível criar, apesar das várias tentativas feitas” (p. 205). E explica porquê: “Neste tipo de conflitos internos não há santos e pecadores. Como todos cometeram erros, o facto de se vir publicamente reconhecer que se cometeu erros é uma catarse. Aqueles de defendem que não há reconciliação sem justiça não estão a dizer a verdade. Na maior parte dos casos, a reconciliação tem se ser feita com os ‘assassinos’, com os líderes que promoveram estas situações.”

Para o oficial do Exército português que cumpriu os primeiros seis meses de missão em Mostar, “escolhida pela comunidade croata da Bósnia para capital da autoproclamada República Croata da Bósnia-Herzegovina” (p. 49), importa compreender que “estávamos num mundo de caos em que não há hierarquia, em que há milícias que se organizam para se defenderem e quase que se comportam como local power brokers”. E insiste: “Uma comissão da verdade permite às pessoas expiarem os seus erros publicamente e dizer a verdade, porque o grande problema é que estas histórias não são contadas com verdade. E só quando isto se consegue fazer é que se abrem as portas para a reconciliação.”

Mário joão

No livro, o major-general Branco critica duramente o trabalho do Tribunal Internacional Penal para a Antiga Jugoslávia, que por não ter agido de forma imparcial comprometeu toda e qualquer esperança de reconciliação. E dá exemplos: “Relativamente aos acontecimentos ocorridos em Srebrenica, o Tribunal apenas condenou um executor [Dražen Erdemović, um croata bósnio condenado em 1998 por participar na morte de centenas de homens muçulmanos bósnios civis]. Nenhum dos restantes condenados foi processado ou condenado por executar prisioneiros de guerra, mas sim pelas suas “responsabilidades de comando”, ou pela sua participação numa associação criminosa (Joint Criminal Enterprise), uma doutrina de que o Tribunal se socorreu e cuja aplicação em contexto de conflito é muito controversa. Como é possível declarar a existência de um genocídio se passados 20 anos o Tribunal não foi ainda capaz de identificar quantas vítimas foram mortas, qual a causa da morte e quem as matou?” (p. 203-204).

Ora, para o oficial português, naquela que poderá ser vista como uma das suas ideias mais polémicas defendidas neste livro, “o grande genocídio que aconteceu foi na Krajina (região da Croácia onde a população sérvia era maioritária). Em Srebrenica (enclave atacado pelas forças sérvias bósnias em julho de 1995), ao contrário do que foi amplamente noticiado, não é um genocídio, mas uma série de crimes de guerra cometidos pelas partes em conflito. E o que digo tem vindo a ser corroborado ao longo destes 20 anos pelos próprios muçulmanos”, afirmou durante a entrevista ao Expresso.

No livro, Carlos Branco escreve: “Os acontecimentos de Srebrenica não podem nem devem ser confundidos com os que viriam a ter lugar um mês mais tarde na Krajina, onde o Exército croata levou a cabo uma operação de assassínio sistemático da população sérvia que não fugiu ou que não conseguiu fugir, não poupando ninguém. Homens, mulheres, crianças, idosos, foram todos sem exceção objeto do mesmo tipo de sevícias, ou pior ainda. Essa ação foi detalhadamente planeada e encontra-se devidamente documentada (…). Os acontecimentos na Krajina nunca foram considerados genocídio pelo Tribunal. Sobre estes incidentes, os media ocidentais mantiveram um prudente distanciamento; um silêncio cúmplice e ensurdecedor” (p. 204).

Os media também não escapam às duras críticas do homem que, além de observador militar ao serviço da ONU, depois de autorizado a prolongar a missão por mais seis meses, foi colocado no quartel-general da UNPROFOR (Força de Proteção das Nações Unidas) como “subchefe da secção de operações” onde haveria de testemunhar “os acontecimentos decisivos que levaram ao fim da violência generalizada na Bósnia, ao términos da missão da ONU e à sua substituição pelas forças da OTAN” (p. 29).

“As grandes potências decidiram quem é que iam apoiar. Os alemães, por exemplo, estavam interessados na independência da Croácia e da Eslovénia por questões históricas. Os norte-americanos, por ignorância, viam os sérvios como aliados dos russos por serem ortodoxos e utilizarem o alfabeto cirílico. A partir do momento em que um determinado grupo é demonizado por uma grande potência, toda a comunicação social passa a fazê-lo, constituindo-se como porta-voz de determinados Estados poderosos, interessados, por seu turno, num determinado resultado daquele conflito. Ou seja, os media tendem a espelhar os alinhamentos das grandes potências e isto não é uma teoria da conspiração. É mesmo assim”, argumenta o general Branco na entrevista ao Expresso.

Mário joão

O antigo observador da ONU, que haveria de regressar a Portugal a 5 de fevereiro de 1996, acusa os media internacionais de terem fechado os olhos, por exemplo, à presença dos jiadistas nos Balcãs e questiona, em declarações ao Expresso: “Os órgãos de comunicação social não sabiam o que se estava a passar? Por amor de Deus! Não sabiam que haviam unidades de jiadistas em Zenica [na Bósnia-Herzegovina]? Unidades essas que ameaçavam organizações não-governamentais. Os norte-americanos estavam perfeitamente cientes de que a Al-Qaeda estava na Europa. Isso era do conhecimento público. Recentemente, o mundo ocidental ficou muito incomodado com as decapitações do Daesh, mas isso já acontecia nos Balcãs e até estão algumas na internet com os carrascos e as vítimas identificados. Onde é que estava o tribunal de Haia? Quantos mujahideen é que já foram julgados?”.

“A GUERRA NOS BALCÃS. JIHADISMO, GEOPOLÍTICA E DESINFORMAÇÃO - Vivências de um Oficial do Exército Português ao Serviço da ONU”, de Carlos Branco, Edições Colibri, 2016, 272 págs., €17

“A GUERRA NOS BALCÃS. JIHADISMO, GEOPOLÍTICA E DESINFORMAÇÃO - Vivências de um Oficial do Exército Português ao Serviço da ONU”, de Carlos Branco, Edições Colibri, 2016, 272 págs., €17

No livro, Carlos Branco defende que “ao contrário do que muitos possam pensar, a jihad global não teve origem no Afeganistão mas sim na Bósnia. Poucos analistas ocidentais consideraram a Bósnia uma frente da jihad global promovida pela Al Qaeda” (p. 27).