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Portugal entre os países onde o cancro da mama mata menos

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Relatório da OCDE publicado esta quarta-feira mostra que as portuguesas são das que mais sobrevivem à doença. Segundo o documento, os resultados positivos começam com a garantia de acesso a meios de rastreio

O cancro da mama é a neoplasia que mais atinge as mulheres em todo o mundo. Portugal não é exceção, mas está a conseguir ganhar muitas batalhas na guerra contra a doença. Em 2013, o país registou das mais baixas taxas de mortalidade na Europa, ao lado de países da Espanha, Estónia, Suécia e Finlândia. Segundo o relatório da OCDE "Health at Glance: Europa 2016" divulgado esta quarta-feira, o acesso a programas de deteção precoce dos tumores é uma das chaves do sucesso.

Quase 90% das mulheres rastreadas

No documento, consta que o carcinoma da mama fez menos de 30 vítimas mortais por cada 100 mil mulheres, quando a média na Europa a 28 rondou as 33,2 vítimas. Os autores correlacionam a sobrevivência com o rastreio. Na Europa, a cobertura varia entre 54% a 63% de cobertura da população feminina, mas em Portugal os valores ultrapassam os 80%.

A OCDE salienta ainda os progressos obtidos no tratamento, permitindo que um número cada vez maior de mulheres continuem vivas nos cinco anos seguintes ao diagnóstico. Também aqui Portugal está entre os melhores, com taxas muito próximas dos 90%.

Os dados são animadores, pois "o cancro da mama é a forma de cancro mais prevalente entre as mulheres nos países europeus", salientam os autores. E deixam um alerta: "Uma em cada nove mulheres vai ter um cancro da mama e um terço vai morrer da doença." Entre todos os carcinomas, os tumores malignos da mama são os mais comuns, com 13,8% de incidência em 2012, os dados mais recentes disponibilizados pelo relatório.

Homens mais vulneráveis ao cancro

Os carcinomas da próstata (13,6%), colorretal (13%) e pulmão (11,8%) são os tumores que se seguem na lista dos mais frequentes. "Estes quatro cancros representam mais de metade de todos os novos cancros estimados para a União Europeia (UE)." Em 2012, cerca de 2,7 milhões de novos cancros foram diagnosticados entre os países da UE, 54% entre a população masculina e 46% entre as mulheres.

Em Portugal, a diferença entre homens e mulheres é ainda mais evidente e sublinhada pelos peritos da OCDE. "Em 2013, a diferença entre sexos foi particularmente evidente na Letónia, Estónia, Lituânia, Republica Checa, Espanha e Portugal, com as taxas de mortalidade nos homens mais de duas vezes superiores às das mulheres". A maior prevalência de fatores de risco e a menor disponibilidade de métodos de rastreio para os cancros que mais afetam a população masculina são os fatores apontados para justificar a menor sobrevivência após o diagnóstico de doença oncológica.

Os investigadores salientam que, de facto, a mortalidade por cancro tem vindo a diminuir desde 2000. Contudo, esse decréscimo tem sido "mais modesto" do que o verificado nas doenças cardiovasculares, a primeira causa de morte entre a maioria dos países europeus.

Números mais recentes, do Instituto Nacional de Estatística e da Direção-Geral da Saúde, e publicados em fevereiro pelo Expresso, mostram que o cancro da mama matou 1681 mulheres em 2014, mais 22 do que no ano anterior, e que o cancro da próstata fez 1786 vítimas, 69 acima dos óbitos em 2013. Já as doenças cérebro-cardiovasculares, como o AVC e o enfarte, mataram mais de 32 pessoas em Portugal em 2014.

Nuno Miranda, diretor do Programa Nacional para as Doenças Oncológicas, diz estar "muito contente com o relatório, que mostra o que vem acontecendo há alguns anos com a redução da mortalidade, sobretudo as mortes precoces". O oncologista salienta os bons resultados obtidos no cancro da mama, mas também nos tumores malignos do pulmão: "Portugal e a Suécia têm a menor mortalidade."

Genética protege as portuguesas

No caso dos carcinomas da mama, o médico admite que a população pode ter fatores genéticos que a protegem. "Na Dinamarca, por exemplo, os resultados são maus e trata-se de um país muito organizado, que não deixas as coisas a meio, e com recursos, mas que pode ter características genéticas entre as mulheres que fazem aumentar o risco."

Por cá, os estilos de vida podem vir a mudar o cenário. "Um dos fatores protetores contra o cancro da mama é a idade com que se amamentou e que tem vindo a ser adiada. No entanto, hoje também é mais raro existir uma mãe que não amamenta. Ainda não sabemos em que sentido poderão ir estas alterações."

Na opinião do médico, "Portugal está a diminuir a distância face aos países mais desenvolvidos". Salienta, no entanto, "que é curiosos o facto de mesmos assim os portugueses são dos europeus que têm pior perceção da sua saúde".