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Poluição mata prematuramente 6700 pessoas por ano em Portugal

A contaminação atmosférica com origem nas atividades humanas, designadamente na indústria e na circulação automóvel, são responsáveis pela morte prematura de cerca de três milhões de pessoas por ano em todo o mundo

Nuno Fox

A má qualidade do ar é a principal causa ambiental de mortes prematuras em toda a Europa. Um relatório da Agência Europeia do Ambiente estima que as doenças associadas à poluição atmosférica levam à morte prematura de pelo menos 467 mil pessoas por ano na Europa, 6700 das quais em Portugal

Carla Tomás

Carla Tomás

Jornalista

Apesar de nos últimos anos se ter registado uma melhoria relativa na qualidade do ar que respiramos nas cidades europeias, a concentração de partículas finas em suspensão (como as PM10 e PM2,5) e de poluentes como o dióxido de azoto ou o ozono continuam a matar prematuramente milhares de pessoas.

A Agência Europeia do Ambiente estima que pelo menos 467 mil pessoas perderam a vida em toda a Europa em 2014, devido a doenças associadas à poluição originada pelas partículas finas em suspensão. Só em Portugal, terão sido 6700 as mortes causadas por doenças respiratórias, cardiovasculares ou cancerígenas aceleradas pela contaminação atmosférica.

O "Relatório da Qualidade do Ar 2016", divulgado esta quarta-feira pela Agência Europeia do Ambiente, cruza a monitorização do ar em 400 cidades europeias (entre 2000 e 2014) com os dados das respetivas entidades nacionais de saúde. E constata que “85% da população urbana da União Europeia foi exposta a partículas poluentes inaláveis em níveis nocivos para a saúde de acordo com a Organização Mundial da Saúde”.

Poluição aumentou em Portugal

O relatório conclui que a poluição diminuiu na União Europeia no perído analisado. Em Portugal, as emissões de PM2,5 cairam 22% entre 2005 e 2014 e as de óxido de azoto 38%. Contudo, 2015 não confirma esta tendência, pelo menos em Portugal.

“É verdade que a poluição estava a diminuir até 2014, mas no ano passado a qualidade do ar piorou no nosso país”, alerta Francisco Ferreira. O engenheiro do ambiente e dirigente da associação ambientalista Zero pegou nos dados de 2015 disponibilizados pela Agência Portuguesa do Ambiente e verificou que “houve um conjunto de ultrapassagens significativas de valores-limite de qualidade do ar, sobretudo devido às condições meteorológicas (um ano particularmente quente) e ao aumento do tráfego automóvel potenciado pela descida dos preços dos combustíveis e pela sensação recuperação económica pós-crise”.

Em 2015 “verificou-se quase o dobro das excedências ao valor-limite diário de partículas inaláveis na estação de monitorização da qualidade do ar da Avenida da Liberdade em Lisboa”, explica ao Expresso o dirigente da Zero. O máximo admissível são 35 dias de excedências, mas no ano passado registaram-se 66 dias. Também se verificaram ultrapassagens para o parâmetro dióxido de azoto (NO2) nesta estação lisboeta, registando 20 dias acima do valor-limite horário, quando o máximo permitido são 18 dias. Neste parâmetro, “a média anual registada (58,6 mg/m3) foi bastante superior ao permitido pela legislação europeia e nacional (40 mg/m3)”.

Segundo a Zero, “esta média foi igualmente superada no Porto, na estação de Francisco Sá Carneiro / Campanhã (58,6 mg/m3) e em Braga,na estação de monitorização de Frei Bartolomeu Mártires – São Vitor (64,6 mg/m3)”. A associação ambientalista salienta que “em todos estes casos o tráfego rodoviário é o responsável pela ultrapassagem dos valores-limite, pelo que é indispensável a tomada de medidas para redução das concentrações em causa da responsabilidade fundamentalmente das autarquias das zonas afetadas”.

Novos tetos de emissões são necessários

"A melhoria da qualidade do ar na Europa (até 2014) não é suficiente para evitar os danos inaceitáveis provocados na saúde e no ambiente”, confirma o diretor executivo da Agência Europeia do Ambiente, Hans Bruyninckx, num comunicado enviado às redações. Bruyninckx sublinha que “precisamos de atacar as causas da poluição do ar, transformando de forma inovadora a nossa mobilidade, energia e sistema alimentar”. E, acrescenta: “Este processo depende da acção de todos, incluindo autoridades públicas, empresários investigadores e cidadãos em geral.”

O relatório é tornado público no mesmo dia em que o Parlamento Europeu vota uma nova diretiva para limitar os “Tetos nacionais de emissões” de diversos poluentes atmosféricos como o óxido de enxofre, o óxido de azoto, o amoníaco, os compostos orgânicos voláteis ou as partículas finas.

Os Estados membros deverão ser obrigados a desenvolver programas de controlo da poluição do ar em 2017 e 2018, para reduzir os danos para a saúde pública e combater problemas ambientais de acidificação e de eutrofização.