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O que o tempo, a memória e os homens fizeram às prisões do Estado Novo

FOTOS ANA BAIÃO, JOSÉ CARIA, MARCOS BORGA, RUI DUARTE SILVA e ARQUIVO A CAPITAL/IP,

O Governo divulgou em setembro uma lista de 30 monumentos que serão alvo de concessão a privados. Entre eles constava o Forte de Peniche, onde estiveram presos políticos que se destacaram na luta antifascista. Da sua história fazem parte a prisão e a fuga, já levada às salas de cinema, de Álvaro Cunhal. Em dois meses os protestos foram tais que o Governo acabou por retirar o Forte de Peniche da referida lista, impedindo assim que parte da fortaleza que já alberga um museu se tornasse um hotel. A propósito desta polémica, recuperámos outros locais e edifícios que também serviram de prisão ou cenário de interrogatórios e torturas levados a cabo pela PIDE e que foram entretanto transformados em museus, pousadas ou condomínios de luxo

Aljube | Lisboa

d.r.

Aljube tornou-se numa espécie de sinónimo de “cadeia dos presos políticos da PIDE” e por isso tornou-se um Museu da Resistência e Liberdade, dedicado à memória do combate à ditadura e da resistência em prol da liberdade e da democracia. Mas os horrores que se escondem nas paredes do Nº42 da Rua Augusto Rosa remontam à ocupação muçulmana de Lisboa, onde já era instalação prisional.

marcos borga

Utilizada depois como prisão eclesiástica, nem o terramoto de 1755 conseguiu derrubar o edifício do Aljube. Após o Liberalismo, foi destinada a presos de delito comum e mais tarde prisão de mulheres. Durante a I República foi erguido inclusivamente mais um piso. Desde a implantação da ditadura militar, em 28 de maio de 1926, até ao seu encerramento em 1965, a cadeia do Aljube serviu de depósito a dezenas de presos políticos que ali foram severamente interrogados e torturados. Alguns deles saíram de lá já sem vida, como o militante comunista Manuel Vieira Tomé, enquanto outros elaboraram fugas com sucesso. Da sua história ficaram especialmente conhecidas os “curros” ou “gavetas”, celas de isolamento construídas no início dos anos 40 do século XX feitas à medida de um homem estendido ao comprido, como um sarcófago. Apesar do fecho em 65, só após o 25 de Abril de 1974 é que o edifício do Aljube foi utilizado para outras funções que não as de cadeia. Depois de alguns anos a servir como instalações do Ministério da Justiça passa, já neste século passa para a alçada da Câmara de Lisboa, que começa a prepará-lo como espaço museológico. Depois de receber a exposição “A voz das Vítimas”, que inclui a reconstituição do Parlatório e dos curros, o Museu da Resistência e Liberdade abre finalmente em 2015, no 40º aniversário do 25 de Abril.

Sede da Pide António Maria Cardoso | Lisboa

ana baião

António Maria Cardoso foi um oficial da Marinha Portuguesa, deputado e explorador em África, na segunda metade do século XIX, mas o seu nome está mais associado à PIDE do que à sua própria história por dar nome à rua onde esteve instalada a sede da extinta Polícia Internacional e de Defesa do Estado. O edifício de cinco andares, alugado na altura à Casa de Bragança e onde estava escrita a frase de Salazar “havemos de chorar os mortos se os vivos o não merecerem”, é hoje um condomínio de luxo.

ana baião

Apesar da promoção comercial dos apartamentos no site do Paço do Duque ter evocado apenas o passado longínquo de palácio da nobreza, local de festas de duques e princesas, o movimento “Não Apaguem a Memória” tem procurado preservar a memória do local. Chegou a negociar com o dono da obra, com a intermediação da Câmara de Lisboa, a instalação de um núcleo museológico dentro do edifício com o aproveitamento do espaço de uma antiga cisterna e uma sala contígua com saída para a Rua Víctor Cordon, mas sem sucesso. Entretanto, na parede da sede onde a polícia fascista chegou a interrogar e torturar vários opositores ao regime, antes de os enviar para os calabouços do Aljube ou de Caxias, foram colocadas, roubadas e recolocadas várias placas registando o anterior inquilino, a PIDE, e os disparos mortais dos seus agentes na tarde de 25 de Abril de 1974, quando se recusaram render-se.

Forte de Peniche

FOTO ARQUIVO A CAPITAL

Embora aquele que viria a ser o Forte de Peniche tivesse sido mandado edificar ainda durante a primeira metade do século XVI, na verdade a fortaleza só viria a ser concluída em meados do século XVII, em pleno período de Restauração, quando a Coroa portuguesa levou a cabo uma profunda remodelação do sistema defensivo da costa. Foi edificada uma grande fortaleza, de planta estrelada irregular, delimitada por uma cortina de muralhas com baluartes poligonais e uma segunda linha defensiva. Esta obra estaria concluída em 1645. Ao longo dos anos, a fortaleza desempenhou o seu papel na defesa da costa atlântica, destacando-se a sua importância durante as invasões francesas e as guerras liberais. Entre 1934 e 1974, o Forte de Peniche foi transformado em prisão de presos políticos do Estado Novo.

Marcos Borga

Sendo uma das prisões de mais alta segurança durante a ditadura, ficou famosa a fuga de Peniche no dia 3 de Janeiro de 1960 dos presos Álvaro Cunhal, Joaquim Gomes, Carlos Costa, Jaime Serra, Francisco Miguel, José Carlos, Guilherme Carvalho, Pedro Soares, Rogério de Carvalho e Francisco Martins Rodrigues. Em 25 de Abril de 1974, o forte foi naturalmente um dos objetivos principais da ação dos militares revolucionários. Utilizado depois como abrigo para os retornados de África durante o processo de descolonização, acabou por ser transformado em museu - vocacionado, por um lado, para evocar memórias da resistência antifascista contra o Estado Novo e, por outro, a dar relevo a Peniche como museu municipal. Ali é possível ver a cela onde esteve preso o ex-secretário-geral do PCP Álvaro Cunhal e alguns dos seus desenhos a carvão, bem como o local por onde se evadiu em 1960. O museu é visitado anualmente por cerca de 40 mil pessoas.

Fortaleza de Angra do Heroísmo | Açores

d.r.

A “Fortaleza de São João Baptista”, oficialmente denominada “Prédio Militar n.º 001/Angra do Heroísmo”, mas também referida como “Castelo de São João Baptista”, “Fortaleza de São Filipe”, “Castelo de São Filipe” e “Fortaleza do Monte Brasil”, localiza-se na costa sul da ilha Terceira, nos Açores, e está incluída no local classificado como Património Mundial pela UNESCO. Começou a ser construída em 1593, em plena dinastia filipina, e foi inaugurada em 1640, tendo servido como proteção costeira de piratas e corsários, aquartelamento de tropas espanholas e rota de comércio transcontinental. Com cerca de 4 km de muralhas contínuas e abaluartadas, envolvendo todo o Monte Brasil, é tida como a maior fortaleza construída por Espanha em todo o mundo. Já no século XX serve como prisão. Quando Portugal decidiu entrar na I Guerra Mundial, foram enviados para aquela fortaleza um grupo de alemães que vivia no continente, suspeitos de apoiarem a Alemanha.

d.r.

Durante o período do Estado Novo torna-se uma espécie de placa giratória por onde passavam os presos políticos a caminho do Tarrafal. Entre eles destacam-se, entre outros, o socialista Edmundo Pedro (preso juntamente com o pai Manuel Pedro), Mário Castelhano (secretário-geral da CGT, a grande confederação sindical da I República), Emídio Santana (que depois de ter passado por lá organizou o atentado a Salazar, em 1937), João Soares (pai de Mário Soares), João Silva (durante anos fotógrafo da CGTP) e o comunista Sérgio Vilarigues. A cidade açoriana de Angra do Heroísmo conta desde o ano passado com uma lápide que assinala a presença de presos políticos no Forte de S. João Baptista durante a ditadura fascista, tanto a dos que cumpriram pena ali, como os que estiveram em trânsito para o Campo de Concentração do Tarrafal. Hoje continua a ser uma unidade militar, conhecida como “Regimento de Guarnição N.º 1”.

Museu Militar do Porto

FOTO ARQUIVO A CAPITAL

O edifício onde está instalado o Museu Militar do Porto foi mandado construir no final do século XIX e inicialmente destinado à habitação de D. Maria Coimbra. Mas também albergou freiras espanholas, durante a Guerra Civil Espanhola, e, depois de 1936, o Estado alugou o imóvel para nele instalar a PIDE/DGS, tendo sido adquirido a D. Ismênia Aurora Pinto Coimbra por 450 contos, em 1948.

RUI DUARTE SILVA

Segundo registos, cerca de 7600 cidadãos portugueses foram interrogados e torturados no “edifício do heroísmo”, como é conhecido no Porto, que após o 25 de abril de 1974 passou para a posse do Ministério do Exército, tendo sido aí instalado o Museu Militar do Porto.

  • O Forte de Peniche, por um ex-preso político

    Dirigente do PCP, José Ernesto Cartaxo tinha 28 anos quando foi preso pela PIDE. Esteve em Caxias e em Peniche. A pedido do Expresso, explica por que razão é importante o recuo do Governo na concessão a privados do Forte de Peniche. E recorda como funcionava o Parlatório, onde os presos eram autorizados a ver a família

  • O triunfo dos dias de chumbo

    Adulterar os espaços onde vivem os rastos do combate e da resistência à ditadura é anular a memória. Apagar a memória seria o triunfo do que julgavam serem os defuntos dias de chumbo

  • A espantosa fuga da “mais sinistra cadeia da ditadura”

    Parece um filme, mas é a história da fuga de três presos da cadeia do Aljube, contada pelo único sobrevivente desta aventura programada para homens que não tinham vertigens. A corda usada era curta, o que obrigou Américo de Sousa a cair com estrondo no telhado do prédio vizinho, o carro que os deveria recolher não apareceu e a mulher da casa de contacto não queria abrir a porta. Imprevistos à parte, eles atingiram a liberdade que tinham por destino. O antigo militante comunista Carlos Brito conta como foi