Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

Eis o meu corpo – em nome da ciência

Rui Duarte Silva

A Universidade do Porto recebe por ano 200 formulários de pessoas interessadas em doar o seu corpo para investigação após a morte

André Manuel Correia (texto) e Rui Duarte Silva (fotos)

O que leva alguém a decidir doar o seu corpo para estudo e investigação? Contribuir para a formação de melhores profissionais de saúde e permitir o desenvolvimento de novas técnicas é um dos principais fatores que pesa na hora da decisão. Ainda assim, são poucos aqueles que o fazem em Portugal, comparativamente com outros países, nomeadamente no Norte da Europa. A Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP) recebe, em média, 12 cadáveres por ano para poderem ser dissecados e estudados pelos seus alunos. Esta quarta-feira organizou uma homenagem, no cemitério de Agramonte, para lembrar todas estas pessoas, numa cerimónia intitulada “Evocação da Dádiva”.

Anualmente, a Unidade de Anatomia do Departamento de Biomedicina da UP recebe cerca de 200 formulários preenchidos por interessados em doar o seu corpo para investigação após a morte. O número estabilizou nos últimos anos, mas é ainda assim insuficiente, tendo em conta que a instituição conta com quase 300 alunos de medicina por ano, como explicou ao Expresso Dulce Madeira, docente e responsável pela Unidade de Anatomia.

A primeira doação efetuada à UP aconteceu em 1980 e naquela época muitas dos que tomavam essa opção faziam-no por dinheiro, devido às dificuldades económicas. Outros corpos, não reclamados, também chegavam às universidades. Atualmente e desde julho de 1999, com o Decreto-Lei 274/99, a situação alterou-se e todos os cidadãos interessados devem manifestar a sua intenção de doar o corpo a uma qualquer instituição devidamente acreditada, como universidades, institutos de medicina legal, gabinetes médico-legais e serviços de anatomia patológica dos hospitais.

Mas o que leva alguém a tomar uma decisão com este peso aos 18 anos? É o caso de Jéssica Braga, agora com 19 e estudante de Enfermagem. Não foram necessários meses para pensar. A decisão demorou apenas dois minutos, “foi algo instantâneo”, assegura. “O facto de estar na área das ciências não teve nada a ver”, começa por dizer. “Não é um ato de coragem e devia ser um ato banalizado”, embora reconheça que não é um assunto sobre o qual fale com os amigos. Em relação à família, foi mais simples, embora tenha assinado antes de comunicar a decisão lá em casa. “Os meus pais conhecem-me e sabem quais são as minhas ideias. Não foi nenhum choque. O meu pai tem ideias parecidas comigo e reagiu bem. A minha mãe teve mais receio, mas para mim fez todo o sentido”, acrescenta a jovem.

Rui Duarte Silva

Durante cinco ou seis anos a Universidade do Porto não recebeu nenhum cadáver

Antes de o Decreto-Lei ter entrado em vigor, conta Dulce Madeira, “havia muita disponibilidade de corpos, porque muitos não eram reclamados e chegavam à universidade”, mas com a promulgação do diploma o panorama alterou-se. “No início do milénio tínhamos muito poucos cadáveres, não havia doações e deixou de ser possível receber os corpos não doados”, acrescenta a responsável, garantindo que houve um período de “cinco ou seis anos em que não entrou um só cadáver no departamento”.

“Qualquer pessoa pode ser um dador, desde que esteja na possa de todas as faculdades mentais”, explicou Dulce Madeira, que justifica o facto de não existirem mais pessoas interessadas com “um certo desconhecimento” relativamente ao assunto. “A maior parte dos dadores são pessoas em idade mais avançada que ficam sensibilizadas, digo eu, porque talvez tiveram uma doença e foram bem tratadas, ou tiveram um familiar nessas circunstâncias”, explica Dulce Madeira.

Rui Duarte Silva

Antes da cerimónia de homenagem, encontramos à conversa três mulheres que decidiram doar o seu corpo após a morte para que possa ser estudado e contribuir para a formação de novos profissionais médicos. Maria Luísa Ribeiro, de 67 anos, Maria Soares dos Reis, de 84, e Ana Maria Jardim, de 48, admitem que ainda há um certo tabu em relação ao tema, mas destacam a contributo para a sociedade. “É um estudo para os médicos e que vai servir os meus filhos e os meus netos”, frisa Maria Luísa Ribeiro, que considera que deviam existir mais pessoas interessadas.

Ana Maria Jardim trabalha no lar “Casa do Repouso”, em São João da Madeira, e lá conheceu as duas mulheres que, ali, a acompanham e assistem emocionadas à homenagem. “Quero que o meu corpo possa ser objeto de estudo para formar melhores médicos”, garante. O momento de partilhar a decisão com a família é duro, reconhecem. “Não foi muito fácil explicar aos meus filhos. Fazia-lhes confusão não saber onde eu ficaria. Mas depois aceitaram. Tenho o meu marido hoje aqui comigo e eles percebem que é uma decisão minha”, contou Ana Maria ao Expresso.

Na cerimónia de homenagem estiveram presentes perto de duas centenas de pessoas, entre os quais muitos alunos, dadores, familiares e responsáveis políticos.