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Caso José Veiga. Multimilionário brasileiro veio a Portugal de propósito para ser constituído arguido

José Roberto Conalghi viajou de São Paulo para Lisboa para ser constituído arguido por corrupção na Operação Rota do Atlântico. Dono do grupo Asperbras, era o patrão de José Veiga nos negócios que o ex-agente de futebol montou no Congo

José Roberto Conalghi achou que não tinha grandes hipóteses. Ou dava sinal de vida voluntariamente ou sujeitava-se a ser alvo de um mandado de detenção internacional, correndo o risco de ser preso numa das suas viagens de negócio ao estrangeiro. O multimilionário brasileiro tinha o exemplo recente do diretor financeiro da Asperbras, o grupo de construção de que é um dos donos e que herdou do pai. Aquele alto quadro do grupo, José Maurício Caldeira, foi intercetado há seis meses, a 19 de maio, em Buenos Aires, na Argentina, precisamente porque pendia sobre ele um mandado internacional emitido pela Interpol. Ou seja: qualquer passo fora do Brasil passou a ser arriscado.

Representado em Portugal pelo advogado João Medeiros, da PLMJ, Conalghi resolveu então tomar a iniciativa e na semana passada voou para Lisboa e apresentou-se voluntariamente no Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP), para ser interrogado e passar a ser arguido na Operação Rota do Atlântico, o inquérito-crime que tem como protagonista o ex-agente de futebol José Veiga.

A notícia sobre a constituição como arguido de Colnalghi foi avançada esta quarta-feira pelo "Observador" – e confirmada pelo Expresso. O chairman da Asperbras está indiciado por corrupção no comércio internacional e branqueamento de capitais. O interrogatório ao empresário foi feito na quarta-feira da semana passada pela procuradora Susana Figueiredo, que dirige a investigação ao caso, e acompanhado por Carlos Alexandre, um dos juízes do Tribunal Central de Instrução Criminal.

O empresário saiu em liberdade mas, segundo o "Observador", teve de deixar uma caução de três milhões de euros, um valor que fica congelado e que reverte a favor do Estado português se Conalghi não respeitar futuras notificações para responder no processo ou não cumpra a pena a que venha a ser eventualmente condenado. Mas, entretanto, está livre de viajar para onde quiser sem ter de se preocupar com um mandado de detenção. Já antes, o diretor financeiro da Asperbras tinha sido extraditado da Argentina, pagando uma caução de dois milhões de euros para se manter em liberdade.

Conalghi é suspeito de ter corrompido, em coautoria com José Veiga, o Governo de Dennis Sassou Nguesso no Congo Brazaville. O ex-agente de futebol português era o representante da Asperbras naquele país africano. Os negócios envolvem não só o grupo brasileiro, que ganhou contratos públicos de centenas de milhões de euros junto do executivo de Brazaville, mas também alguns empresários russos ligados ao comércio de petróleo, num esquema complexo de troca de favores e comissões.

No Brasil, José Roberto Conalghi tem sido investigado pelas autoridades pelo facto de a Asperbras ter alegadamente financiado as campanhas eleitorais de Lula da Silva e de Dima Rousseff.

José Veiga foi detido em fevereiro deste ano, juntamente com Paulo Santana Lopes, irmão de Pedro Santana Lopes, ex-primeiro-ministro e atual provedor da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. Veiga, que era diretor da Asperbras no Congo, e Paulo Santana Lopesestão indiciados de corrupção no comércio internacional, branqueamento de capitais, tráfico de influências e fraude fiscal qualificada. Em maio, Veiga saiu da cadeia e ficou em prisão domiciliária e desde julho que apenas está obrigado a apresentar-se periodicamente na esquadra mais próxima, sendo que não pode viajar para fora do país. O rol de arguidos inclui ainda Manuel Damásio, ex-presidente do Benfica, e uma advogada e gestora de agências imobiliárias, Maria de Jesus Barbosa.

Nas várias buscas promovidas pelo Ministério Público foram encontrados cerca de sete milhões de euros em dois cofres de uma moradia em Cascais. Registada em nome de uma offshore, o imóvel era referido nas conversas intercetadas a José Veiga e a Paulo Santana Lopes como “a casa do ministrinho”, uma expressão que os procuradores acreditam referir-se ao ministro das Finanças congolês Gilbert Ondongo, uma vez que este governante costumava usar a propriedade.