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Romances e novelas ajudam a combater a violência doméstica?

Em Portugal, 85% das vítimas de violência doméstica são mulheres, de acordo com dados da APAV

Ilustração de João Carlos Santos

Em Portugal, 85% das vítimas de violência doméstica são mulheres. Na semana em que se assinala o Dia Internacional para a Eliminação da Violência Contra as Mulheres, o Expresso conversou com a psicóloga e escritora Ana Cristina Silva, e com a argumentista e ativista feminista Helena Amaral sobre o papel da ficção na prevenção e combate a este crime público

Ana Cristina Silva, escritora e doutorada em Psicologia, transformou as palavras na sua razão de existir. Poucos meses antes de completar 52 anos, a investigadora que dedicou boa parte da carreira académica a estudar a aquisição da linguagem escrita, decidiu reescrever o livro “A Mulher Transparente” publicado em 2003, e doar os direitos da reedição à APAV: “A literatura deve proporcionar uma compreensão mais profunda do processo por que passam as vítimas”.

“A história é a mesma, não a alterei, apenas atualizei a escrita, porque a minha forma de escrever já não é a mesma, já não me revia nalgumas expressões que usei então. Na altura em que escrevi este romance, fiz uma enorme pesquisa sobre mulheres espancadas, sobre o perfil psicológico das vítimas, o ciclo de violência a que são submetidas. E agora fez-me todo o sentido voltar a publicar o livro, porque os números de mulheres vítimas de violência doméstica são terríveis”, diz Ana Cristina Silva. “Há uma quase crença na omnipresença do agressor, que leva as mulheres vítimas de violência doméstica a ficarem paralisadas”.

Muitas delas são mulheres jovens, com emprego estável, e capacidade de se sustentarem a si próprias como a Clara de “A Mulher Transparente” que fica refém de um homem “encantador”, educado e bem instalado na vida, que conhece num bar, e com quem vem a casar. Com o passar do tempo, o Meireles que cobria a mulher de flores e atenções transforma-se num controleiro e, mais tarde, num homem que lhe dá sovas violentas.

Desigualdade na base da violência

“A violência tem por base questões de desigualdade de poder; é aqui, nesta desigualdade, que se gera a violência”, diz ao Expresso, Daniel Cotrim da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima: “Quando a Ana Cristina Silva nos contactou a dizer que tencionava doar os direitos de autor à APAV, tentámos perceber se o livro se enquadrava na nossa mensagem. Aliás, a APAV tem uma relação institucional com o Instituto Superior de Psicologia Aplicada onde ela é professora, e temos tido várias parcerias desta natureza com outros autores”.

O montante dos direitos “não é muito significativo, mas ficamos associados a projetos” que podem ajudar vítimas de violência doméstica: “As mulheres querem sentir-se protegidas e que se faça justiça”. Claro que também há homens que são vítimas de violência doméstica, mas em Portugal – de acordo com dados da APAV – 85% das vítimas são mulheres. A situação no resto do mundo não é muito diferente como se lê num site das Nações Unidas sobre esta temática: “Em todo o mundo, cerca de 70 % das mulheres já experimentaram [alguma forma de] violência física/e ou sexual de um parceiro íntimo na sua vida”.

Se restringirmos a área geográfica para os 28 Estados-membros da União Europeia, “43% das mulheres sofreram alguma forma de violência psicológica por parte de um parceiro íntimo”, o que alerta para a existência de situações de violência sistemática e prolongada.

A fantasia da vingança e o seu papel terapêutico

Ana Cristina centra-se na personagem feminina; concentra toda a sua atenção em Clara porque ficou muito marcada por uma frase de uma senhora que assistiu a uma sessão de divulgação da primeira edição de “A Mulher Transparente”, em 2003: “Uma senhora que não conhecia veio ter comigo e disse-me – ‘parece que conhece a minha vida toda’. Nunca mais me esqueci daquela frase, até porque me interessam sobretudo as vítimas mulheres”.

Apesar disso, a narrativa deste livro, que poderá ser utilizado com instrumento de debate nas sessões terapêuticas realizadas em casas abrigo, inlcui o perfil de um agressor que algures no tempo foi vítima de violência. E esta questão é central porque “o agressor tem de ser punido e reinserido”, diz Daniel Cotrim.

Só tratando o agressor se evita a repetição do ciclo de violência com a mesma ou outra vítima. A APAV tem funcionado como consultora de vários argumentistas e realizadores. “Quando estava a preparar o telefilme “E depois matei-o” – que ganhou um prémio – a Raquel Palermo falou connosco para tentar perceber o que as vítimas sentiam”, diz Cotrim.

D.R.

A “fantasia da vingança” – que acaba por falhar – contra o agressor está presente no livro da psicóloga Ana Cristina. Na APAV, Cotrim considera admissível esse “desejo de vingança” e lembra que estas questões são abordadas e desmontadas do ponto de vista terapêutico.

Identificação com livros e novelas funciona?

Ao doar os direitos de autor à Associação Portuguesa de Apoio à Vítima, Ana Cristina acaba por mostrar que acredita que o seu livro possa ajudar alguém que seja vítima de violência. A opinião sobre este tema está dividida : “Da Literatura espero muita coisa mas nunca que sirva de profilaxia para uma qualquer maleita, de receituário para uma doença ou de terapia para um problema. Pode ocorrer... ocorre em condições específicas do encontro de uma obra com o seu leitor mas não é isso que faz da obra Literatura”, diz a argumentista Helena Amaral, que trabalhou em vários projetos de televisão entre os quais “Conta-me como foi”.

A verdade, é que “quando as obras se afirmam pela sua qualidade intrínseca, qualquer que seja o tema, qualquer que seja a circunstância, a Literatura cumpre-se no seu papel fundamental de mudar o mundo através das transformações que opera em cada leitor”, acrescenta Helena Amaral.

“Continua a discutir-se o papel pedagógico que as telenovelas (novela é outra coisa) podem ter junto das populações, dado o impacto do suporte em que são exibidas. Por regra, espera-se das telenovelas o que não se espera de uma série, normalmente, por desconsideração do primeiro destes géneros televisivos. Nunca subalternizo um autor, seja qual for o género que pratique. Aos de telenovelas, como aos outros, reconheço o direito (e o dever) de apresentar a sua visão do mundo”.

Recuando quase uma década, a novela da RedeGlobo “Mulheres Apaixonadas” da autoria de Manoel Carlos, originou um grande debate sobre o tema no Brasil. A tese de mestrado de Claiton César Czizewski, aborda a questão da violência nesta novela. O autor estudou 192 episódios e a “audiência desse produto televisivo” não foi determinante para a escolha do tema: “Ao eleger a violência doméstica como eixo gerador dessa história paralela da telenovela Mulheres Apaixonadas, o autor da obra, Manoel Carlos, contribui para dar visibilidade a um tema de relevância social ainda pouco discutido porque velado, por conta de sua já citada condição de tabu. Já com a forma de narrar esse conflito, atrai a atenção de um público normalmente alijado do debate das grandes questões sociais”.

É por isso que Claiton César Czizewski entende que o autor do argumento “buscou uma dimensão socioeducativa para a abordagem da questão da violência na telenovela Mulheres Apaixonadas pela via propositiva. Em âmbito temático, propôs aos telespectadores e à sociedade a reflexão e a discussão acerca de assuntos relevantes, mas obscurecidos no debate social por sua condição de tabu”.

Dia Internacional para a Eliminação da Violência Contra as Mulheres

Para Ana Cristina Silva, “a história de cada mulher espancada comporta uma luta esgotante para sobreviver. O seu olhar vai-se apagando para tudo que não seja o seu medo. Cabe a cada um de nós que conheça um caso desta natureza dar o seu contributo para que a história mude de rumo”.

No prefácio à reedição de “A Mulher Transparente”, a secretária de Estado para a Cidadania e Igualdade, Catarina Marcelino, lembra que entre “2004 e 2014 morreram no nosso país, às mãos de atuais e ex-companheiros, maridos e namorados, 400 mulheres”.

Para combater este flagelo e todas as formas de violência contra mulheres e raparigas, a Assembleia Geral das Nações Unidas determinou em 1999, que o dia 25 de Novembro deve ser celebrado como o Dia Internacional para a Eliminação da Violência Contra as Mulheres. Em Portugal, haverá concentrações e marchas no Porto e em Lisboa, a que se associam várias organizações como a APAV, UMAR, plataforma Capazes, entres outras. Nos Açores, na ilha de São Miguel, a exposição “Rostos de Vozes Silenciadas” de Lena Gal, estará patente no Museu Municipal da Ribeira Grande.

A 7 de dezembro, a secretária de Estado Catarina Marcelino faz uma apresentação de “A Mulher Transparente” na biblioteca da Assembleia da República.