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“Face Oculta”, o autor sem rosto que reivindicou o ataque ao Cantinho do Avillez

VANDALISMO. Fachada do restaurante do chef José Avillez foi alvo de um ataque pouco comum em Portugal. Na fotografia, imagem do interior do espaço

RUI DUARTE SILVA

Mensagem anónima foi publicada numa “plataforma noticiosa alternativa” vigiada pelas autoridades portuguesas. Responsáveis da plataforma garantem não saber a identidade do autor. Viagem de José Avillez a Israel na origem do caso

Quatro dias depois dos atos de vandalismo na fachada do restaurante do chefe José Avillez no Porto, a PSP continua a investigar. Trata-se de um ataque com contornos de antissemitismo, pouco comum em Portugal. Um texto escrito no próprio dia do ataque, e publicado no sábado numa “plataforma noticiosa alternativa” chamada Indymedia, pode dar pistas sobre os autores.

“O vermelho que escorre no vidro é o sangue que Avillez avilta com a sua colaboração culinária. A cola que veda a fechadura é a fome provocada que Avillez quer gourmet. As ementas recheadas de realidade são a face visível de que ‘o destino das nações depende da forma como elas se alimentam’”, pode ler-se no post. O autor, que assina com o nome de código “Face Oculta”, explica que o ato de vandalismo se justifica porque de nada serviu a “ação indireta alimentada por cartas educadas a apelar para que Avillez não participasse” num evento gastronómico em Israel, que contou com um protesto de 140 organizações de Direitos Humanos.

O autor do post intitulado “Restaurante de Avillez alvo de Ação Direta” lamenta a presença do chefe em Telavive, “deixando um travo amargo nos nossos estômagos de poetas, que apenas um copo de ação direta (essa forma máxima de poesia) mitigará”.

Ao Expresso, dois responsáveis da plataforma Indymedia garantem não saber quem é o autor deste post: “No caso do ataque ao Cantinho do Avillez, no Porto, o Indymedia recebeu um email anónimo com o comunicado de ‘reivindicação’ e fez o que tinha a fazer: publicou-o”, explica um voluntário. E garante que “normalmente” a publicação é livre e não é mediada à priori. “O que quer dizer que não é preciso login, nem ter username nem password. Basta um nome (que pode ser qualquer um). Depois da publicação, o coletivo editorial permite-se retirar tudo o que considerar que viola a sua politica editorial”.

Um outro gestor do site argumenta que “o Indymedia não tem que apoiar, ou deixar de apoiar, o conteúdo noticioso. Todo e qualquer material publicado é da exclusiva responsabilidade da pessoa que toma a iniciativa de o publicar. O Centro de Média Independente Portugal existe com o único propósito de defender a liberdade de expressão, liberdade de informação e para servir o interesse público”, explica.

À pergunta sobre se a pessoa que assina “Face Oculta” já escreveu posts no passado, os administradores explicam que este nome de código é o que aparece por defeito na plataforma de publicação: “Quem publica pode escolher outro nome. Neste momento em que somos nós a publicar, a maior parte das vezes deixamos esse nome intacto. Foi o que aconteceu desta vez”.

Os administradores do site não foram interrogados, até ao momento, pela PSP: “E esperamos não ser, porque calculamos que a polícia, ao fim de anos de vigilância, já tenha percebido que nos limitamos a transmitir notícias.”

Canal de anarquistas, diz a polícia

Fontes da investigação confirmam que este Centro de Média Independente – que se popularizou sobretudo desde as manifestações anti-NATO em Lisboa no final de 2010 – é monitorizado pelas autoridades portuguesas há alguns anos. “Trata-se de um canal anarquista com muita atividade e tem ativistas em Lisboa e no Porto”, diz ao Expresso um alto responsável.

Duas das organizações pró-Palestina que escreveram uma carta ao chefe José Avillez para que não participasse na Round Tables, evento gastronómico que decorre em Israel entre 6 e 26 de novembro, e que protestaram há cerca de duas semanas em frente ao Cantinho do Avillez no Porto já negaram o seu envolvimento nos atos de vandalismo realizados na sexta-feira. “Soubemos das pinturas pela comunicação social. Pelo que sabemos, esse ato não foi reivindicado por nenhuma organização nem por ninguém, portanto desconhecemos quem são os autores”, disse ao Expresso um dirigente da BDS Portugal.

Também o Movimento Pelos Direitos do Povo Palestino (MPPM) escreveu um comunicado a demarcar-se do episódio: “Ações como as que ocorreram no Porto, e cuja autoria se desconhece, não são da responsabilidade, nem têm qualquer relação com o perfil de iniciativas, princípios políticos e vocação de uma organização com as responsabilidades e o estatuto do MPPM”.

O cozinheiro português, que nunca tomou posições políticas, tem estado em silêncio sobre o incidente e não deverá fazer quaisquer comentários. José Avillez não apresentou queixa e dentro do grupo de restauração o assunto está a ser desvalorizado.

Esta é a primeira vez que um restaurante do chefe é vandalizado. José Avillez vê a gastronomia “como uma forma de aproximar culturas”. Por se tratar de um incidente na via pública, a PSP tomou conta da ocorrência, mas Avillez não tem intenções de ainda poder apresentar queixa.

A direção nacional da PSP não faz, por enquanto, comentários sobre o caso. Mas o Expresso sabe que as informações que davam conta de que os restaurantes do chefe português, no Porto e em Lisboa, estão sob vigilância policial “não correspondem à verdade”.