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Sociedade

Volta ao mundo dos sapatos

No Museu do Calçado, o sapato reinventa-se em objeto de arte

Uma coleção de mais de 500 réplicas e modelos originais retratam a memória e a evolução do calçado desde os tempos mais remotos até à atualidade

Isabel Paulo

Isabel Paulo

Jornalista

Outrora bastião da metalurgia pesada, o antigo edifício da Oliva, empresa fundada em 1925, deu lugar ao Museu do Calçado, num tributo aos milhares de operários da indústria que fez de São João da Madeira o epíteto de capital portuguesa do calçado. Inaugurado há uma semana, o núcleo museológico oferece aos visitantes uma coleção de mais de 500 réplicas e modelos originais que retratam a memória e a evolução do sapato desde os tempos mais remotos até à atualidade, a par da exposição temporária inaugural do mais internacional dos designers portugueses do sector, Luís Onofre. Comissariada pela diretora do museu, Suzana Meneses, que lidera há vários o Museu da Chapelaria a dois passos, e pelo herdeiro da história e património da fábrica “Calçado Onofre”, do vizinho concelho de Oliveira de Azeméis, a mostra atravessa 17 anos de carreira do criador da marca Luís Onofre, que calça pés anónimos e os de famosas como a rainha de Espanha, Letizia Ortiz, Michelle Obama, Penélope Cruz ou Paris Hilton.

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Os sapatos símbolos de sedução de Luís Onofre, arte legada pela avó e que perdura na família desde 1939, são a porta de entrada que conduz os visitantes à coleção permanente, fruto de mais de seis anos de investigação e que desvenda por ordem cronológica os segredos do calçado desde a pré-história até ao século XXI. Antes da partida para o mundo, ponto de paragem obrigatório é o da contextualização da importância socioeconómica do sector do calçado na região, ilustrado por uma oficina escura do velho sapateiro e pelo acervo da galeria contígua que reproduz a passagem da manufatura à produção industrial e onde não faltam as máquinas, moldes, matérias-primas do início do século XIX, fotografias e testemunhos de operários e de gaspeadeiras, sempre mulheres, de fábricas da região. “A ideia é abordar a evolução do calçado enquanto objeto quotidiano, enquadrado nos usos e costumes sociais de cada época”, refere Susana Menezes. Ricardo Figueiredo, presidente da Câmara local, acrescenta que o museu, mais do que uma evocação do passado, será ainda “um equipamento vivo com um papel pedagógico para as gerações presentes e vindouras”.

A viagem ao fascinante mundo do calçado é palmilhada numa rampa ascendente, com ou sem guia, revisitando modelos de sapatos concebidos originalmente para proteger os pés, mas que se revelariam objetos de desejo e luxo, símbolos de estatuto social. No Túnel do Tempo, calcula-se que os nossos antepassados pré-históricos usariam calçado feito de folhas, cascas de árvore, fibras vegetais e animais, estando patente ao público uma réplica de sapato em pele, encontrado em escavações nos EUA. A ronda salta para o Antigo Egito, representado por uma sandália descoberta no túmulo de Tutankhamon, privilégio de nobres, sacerdotes e guerreiros. A sandália romana, de tiras, é o icónico calçado da Antiguidade Clássica, enquanto na Idade Média imperava o sapato de salto alto, típico da Borgonha.

Já em pleno Renascimento, a novidade são os escarpins, de seda ou veludo, ou as chopines, chinelas de plataformas vertiginosas, de origem veneziana, “as prediletas das prostitutas de então”. No século XVII, a tendência são as botas de cano alto, com volta virada, que calçariam os mosqueteiros de Alexandre Dumas. Na transição para o século XVIII, o visitante pode ainda apreciar os sapatos de salto alto usados na corte do Rei Sol, como a réplica dos preferidos de Luís XIV, profusamente decorados com fitas e rosetas. Na Inglaterra do século XIX, ostenta-se a bota Balmoral masculina, movendo-se a exposição por décadas a partir de 1900, “tal é o ritmo acelerado e volátil da moda, muito marcado pelo que acontece em redor”. A diretora do museu recorda também como a I Guerra Mundial teve um impacto brutal na indústria do calçado, com o couro a ser canalizado para as botas na frente de batalha. O ciclo de austeridade dá lugar aos loucos anos 20, ilustrado com uma réplica do ‘sapato bar’, momento em que o calçado ganha assinatura própria pelas mãos do criador francês André Perugia. Na década de 30, emerge Salvatore Ferragamo e os seus modelos extravagantes, antes de o mundo mergulhar de novo em guerra, restando aos civis calçado pobres, de pele de répteis, ráfias, lã e borracha. Nos anos 60, a inspiração salta das ruas para os ateliês, ao ritmo rock e o pop londrino, um tempo de botas brancas de vinil ou das Chelsea Boats popularizadas pelos Beatles. No acervo, há ainda uma sala de originais doados por designers internacionais e uma ala não menos inspiradora: a dos sapatos usados por notáveis, como os mocassins de António Guterres, gastos enquanto alto-comissário das Nações Unidas para os Refugiados, ou as botas do ex-jogador do FC Porto. António Sousa, da final da Taça dos Vencedores das Taças.

A visita ficaria incompleta sem uma galeria dedicada às artes plásticas, obras que invocam o incontornável sapatinho de cristal da Cinderela, os sapatos vermelhos da Dorothy em “O Feiticeiro de Oz” ou as botifarras do Gato das Botas.

Museu do Calçado Entradas gratuitas até ao final do ano. Encerra à segunda-feira