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getty images (imagem alterada digitalmente)

A cultura norte-americana está espalhada e enraizada no mundo. Do desporto à gastronomia, passando pela cultura, também há Made in USA em Portugal

Há casas do Brasil, de Cabo Verde e da maioria das comunidades que vivem em Portugal, mas, e dos Estados Unidos? Existem pelo menos 20 mil norte-americanos a viver no nosso país, uns mantêm os hábitos do país de origem, mas grande parte adaptou-se ao nosso ritmo de vida. A cultura americana foi-se espalhando e confunde-se amiúde com a portuguesa. Do desporto à gastronomia, passando pela cultura, onde se escondem os americanos em Portugal?

Por cá fala-se em futebol e não surgem dúvidas, 11 de cada lado a correr atrás de uma bola. Do outro lado do Atlântico a definição é outra e a bola é transportada com a mão. Em Portugal o futebol americano é um desporto que já começa a ter apoiantes, equipas e até uma associação oficial que organiza um campeonato. No total, há 12 equipas de futebol americano em Portugal, e o campeonato começou este mês. Os Lisboa Devil’s venceram o último campeonato e este ano os Navigators procuram retomar o primeiro lugar no pódio que já foi deles durante seis anos. Esta equipa formou-se em 2009 com a ajuda de um norte-americano que trabalhava na embaixada e entretanto ficaram só portugueses que se juntam duas vezes por semana para jogar futebol com sotaque. Falar-se de futebol americano sem falar de cheerleaders é quase impossível, e por cá já se pode aprender a fazer as piruetas e a desenhar letras no ar com os braços. No Real Sports Club não gostam de associar a existência de cheerleaders a uma aproximação à cultura americana. Ricardo Vinagre, do Real Sports Club, garante que é apenas mais uma modalidade, e neste caso para apoiar o futebol (europeu).

O futebol americano é uma moda recente, mas os costumes dos Estados Unidos estão bastante “presentes em Portugal”. Graça Didier, da Câmara de Comércio Americana, lembra que as relações entre os dois países são muito próximas e que há muitos protocolos que fazem com que nem se dê conta da intensidade com que os portugueses consomem cultura americana todos os dias. “Faz parte do dia a dia, na música, no cinema e até na alimentação.” No meio disto tudo são os lusodescendentes que de regresso a Portugal querem perpetuar as tradições com que cresceram. Maria Teixeira é um desses casos, nascida na terra da liberdade, depois de os pais e de os tios terem ido para lá estudar, sentia saudades dos sabores americanos. Surge assim, em 2005, a primeira loja Liberty, na Ribeira Grande, nos Açores. Em 2012, o sucesso era tanto que a loja vem para o continente com produtos com “gosto original.”Agora, há muito americanos a irem à loja, principalmente, em alturas festivas como o Halloween, a Ação de Graças ou o 4 de julho.

A Swing Station, uma escola de danças americanas, organiza dois festivais anuais em Portugal

A Swing Station, uma escola de danças americanas, organiza dois festivais anuais em Portugal

Great American Disaster, a reprodução fiel de um dinner americano dos anos 50, destaca-se na lista de restaurantes americanos em Lisboa

Great American Disaster, a reprodução fiel de um dinner americano dos anos 50, destaca-se na lista de restaurantes americanos em Lisboa

John Frey, ator nova-iorquino, apaixonou-se por Lisboa em 2009. Sem planos, as gravações de um filme trouxeram-no à cidade “que parece um museu” e daqui não mais saiu. Nas férias, volta a Nova Iorque para matar saudades daquilo que lhe faz mais falta, o seu bairro e os seus vizinhos. Tudo o resto encontra em Lisboa, onde dá aulas da técnica Meisner e onde “pode criar com menos constrangimentos financeiros.” Não conhece muitos americanos e depois de um exercício de memória diz que a coisa mais típica que faz é jogar “basket” na rua com um grupo de alunos e comer hambúrgueres no To B.

O sonho americano é uma imagem romântica de senhoras de vestidos rodados com jeito para a dança e carros grandes nas garagens. Abeth Farag pertencia a esse imaginário, mas quando chegou a Portugal não tinha companhia para dançar. Como a necessidade aguça o engenho, começou a ensinar danças vintage americanas (indy hop, vintage jazz, balboa, blues, tap) a portugueses. Nasceu assim a Swing Station, uma escola de dança que já é responsável pela organização de dois festivais internacionais anuais, o Atlantic Swing Festival, em Lisboa, e o Atlantic Blues, no Porto. O blues nasceu nos campos de algodão e foi-se espalhando pelos estados com a migração dos americanos. Agora, graças a Rui Guerreiro e Dúlio Canário emigrou para a margem sul do Tejo. Além de um festival de verão daquele estilo de música, há no segundo sábado de cada mês uma noite de blues. Já semanalmente, em Chelas, na Igreja de Santa Beatriz, há um cruzamento de culturas e é gospel e soul que se ouve com o conjunto Soul Gospel.

A América dos anos 50

Graça Didier parece ter uma lista infinita de atividades, empresas e víveres americanos que estão enraizados na cultura portuguesa. E da lista dos restaurantes salta à vista o Great American Disaster. Uma casa com mais de 30 anos, no centro de Lisboa, e que pretende ser a reprodução fiel de um dinner americano dos anos 50. David Costa garante que hoje os clientes americanos são tantos quantos os portugueses. Mais a norte, no Porto, a bolsa de Nova Iorque e o espírito de Wall Street inspiraram o Stox. Um bar onde os preços das bebidas sobem e descem ao longo da noite como se de ações se tratasse.

Não há volta a dar, a cultura americana está diretamente ligada à alimentação. E em grande parte aos doces, talvez isso seja parte do sucesso das bolachas caseiras de Karl e de Greg. As típicas american coockies, cujas fornadas fazem salivar os portugueses. Os programas de culinária trouxeram até Portugal os bolos gigantes e a tradição de que qualquer evento deve ser celebrado com um bolo. Julie Deffense materializou essa ideia e faz autênticas esculturas em massa doce para todas as ocasiões. Em Portugal apaixonou-se e de cá nunca mais saiu. Agora ganha a vida a fazer os portugueses apaixonarem-se pelos bolos americanos.

Dança, desporto, música, gastronomia e... carros. Daquelas “banheiras grandes e automáticas”, explica José Pedro Machado. Orgulhoso dono de um Mustang descapotável de 1971, confessa-se “pró-americano em tudo” embora nunca tenha ido aos Estados Unidos. Alimenta o sonho com a organização de passeios de Mustang quatro a cinco vezes por ano.

Swing Station
+351 912 451 357

Stox Club
Rua das Carmelitas, 151 Porto

Liberty Store
Largo de São Sebastião da Pedreira 9D, Lisboa

O Bolo da Julie

Real Sports Club
Rua Firmina Celestino Cardoso, Queluz

Great American Disaster
Praça Marquês de Pombal 1, Lisboa

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 12 de novembro de 2016