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O que vai ser da tecnologia com Trump?

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Não acredita no aquecimento global, já quis controlar a Internet e, supostamente, não tem conta de e-mail. O conservadorismo de Trump e da sua equipa não são boas notícias para os empresários da tecnologia, nem para os cientistas

Alegadamente, Trump não usa telefone nem tem conta de e-mail (ver AQUI) . Aliás, o ano passado chegou a sugerir “cortar a Internet no Iraque e na Síria”, uma tarefa hercúlea (e um atropelo aos direitos humanos) que os especialistas consideraram praticamente impossível – a Internet é, mesmo, uma rede tão embaralhada de ligações que as forças militares norte-americanas teriam de ir a esses países destruir localmente as infraestruturas. Mesmo assim, sobravam os satélites para permitir as ligações. Trump, num momento hilariante, chegou a dizer que ia falar com Bill Gates (ver AQUI) sobre este tema.

Não acredito que o agora Presidente norte-americano não tenha smartphone. Afinal, já reconheceu que, à noite, todos os escritos no Twitter (e são tantos e tão bons) são publicados por ele – durante o dia são também da sua autoria, mas é a equipa que os publica.

No entanto, a sua aversão às novas tecnologias é conhecida. O ano passado, na CNN, chegou a dizer que o exército norte-americano deveriam voltar a usar o serviço de correio postal para comunicar com as tropas. Uma forma que seria, segundo ele, mais segura do que enviar essa informação pelos “cabos”.

Aliás, Trump pediu um boicote à Apple quando a empresa se recusou a dar ao FBI o iPhone de um alegado terrorista. “Quem é que eles (Apple) pensam que são?”, disse, como pode comprovar AQUI.

Durante a campanha, Donald Trump não falou muito sobre tecnologia. Por isso, ninguém sabe muito bem quais as suas intenções. No entanto, em julho do ano passado, 150 personalidades da tecnologia assinaram uma carta onde consideravam que uma presidência Trump seria um desastre para a inovação. Entre os signatários, conta-se Vint Cerf (o “pai” da Internet) e, por exemplo, Steve Wosniak (um dos fundadores da Apple). A carta, que pode ser lida AQUI, defende, entre outros pontos, que a diversidade dos Estados Unidos da América é uma das suas forças. “Grandes ideias vêm de todas as partes da sociedade e devemos promover esse vasto e variado potencial criativo”, afirmam os autores.

Trump também se revelou pouco interessado na discussão sobre a Neutralidade da Internet. Um tema que esteve afastado desta campanha, mas sobre o qual, em 2014, Trump sempre foi escrevendo NO TWITTER que seria mau para os media conservadores.

Além das comunidade científica e tecnológica não saberem muito bem o que esperar do novo Presidente norte-americano, também alguns dos principais parceiros comerciais, nestas áreas, desconhecem as verdadeiras intenções de Trump. Se cumprir o que afirmou em campanha, a China, por exemplo, terá de pagar uma tarifa de 45% sobre todos os produtos que sejam importados daquele país. Se tivermos em consideração que metade das importações que os Estados Unidos fazem da China são produtos eletrónicos, pode antever-se que os norte-americanos vão começar a pagar mais pelos seus telefones, tablets e computadores portáteis. A CNBC mostra os números NESTE ARTIGO.

É verdade que Trump ambiciona promover a produção interna e forçar que os EUA produzem este tipo de equipamentos. Mas é conhecida uma conversa entre Obama e Steve Jobs, em 2011, em que o Presidente norte-americano perguntava a Jobs porque é que não mandava produzir o iPhone nos EUA. A resposta não se fez tardar: “Quando tivermos uma mão de obra semelhante à chinesa. Em volume, em qualidade e em preço”, terá dito o malogrado fundador da Apple.

Este fim de semana, no “Global Times”, um jornal chinês gerido pelo estado, é escrito, em editorial, que o recém-eleito Presidente será “condenado pela sua ignorância, incompetência e falta de bom senso” caso avance com a já referida tarifa. Pode ler o editorial AQUI e ficar a saber que os chineses já preparam retaliações, como lesar as vendas de automóveis americanos e de iPhones naquele país.

Se avançar, Trump vai forçar os americanos a pagar mais pelos seus gadgets preferidos, mas não só. Também vai colocar sob pressão fabricantes, distribuidores e revendedores desses dispositivos.

Obama vs Trump: um mundo de diferença nas novas tecnologias

Obama foi o primeiro a eleger um CTO (Chief Technology Officer) e um CDS (Chief Data Scientist) para a Casa Branca; promoveu o ensino das STEM (Science, Technology, Engenieering, Mathematics) nas escolas; falou sobre a importância do Big Data (a análise de grandes quantidades de dados); criou o National Science and Technology Council ,que produziu trabalhos nas áreas ambiental, da sustentabilidade e, por exemplo, na segurança nacional; usou as redes sociais para promover causas; e, entre centenas de outros exemplos, até confessou à revista “Wired” ser um trekkie (fã da série de TV Star Trek).

Agora, a Casa Branca fica entregue a Trump, que não acredita no aquecimento global, poderá cancelar a investigação em células estaminais (tendo em conta o seu conservadorismo) e do qual nada sabemos sobre o que pensa da exploração espacial. Pior, Donald Trump tem um vice-presidente criacionista (ver AQUI responsável por leis discriminatórias para algumas minorias.

De uma coisa podemos estar certos: a Ciência e a Tecnologia, nos Estados Unidos, começam agora uma caminhada de quatro anos no deserto de ideias que se esconde por baixo do penteado alaranjado de Trump.