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Humanos, como nós

d.r.

Durante três anos, Yann Arthus-Bertrand recolheu em 60 países dois mil depoimentos que lhe permitiram realizar “Human”, um documentário sobre a condição humana que é obrigatório ver, num mundo onde o ódio e o preconceito parecem ganhar terreno

Estima Joseph sente que a vida se lhe escapa entre os dedos. A chuva não cai, não consegue plantar nada para comer e alimentar a mulher e os filhos. Não tem mais madeira para cortar e ganhar dinheiro, nem carvão para encher um saco. Às vezes passam um ou dois dias sem ter comida para os filhos. Não há quem lhe estenda uma mão. Para viver assim, mais vale não viver. "Estamos à espera da morte, porque aquilo a que chamamos vida acabou. Ficamos deitados, não temos nada para dar às crianças. Deitamo-nos e esperamos a morte. Por isso digo que a vida acabou. É, a vida está acabada".

"Yuri" pensou o mesmo quando foi despedido depois de 27 anos de trabalho na mesma empresa e teve de voltar a viver em casa da mãe por medo de acabar na rua. A humilhação do despedimento tornou-se fúria. Quando se olha ao espelho, pensa: "Quem és tu, seu otário? O que estás a fazer nesta vida? Porque respiras? Para que vês o sol? Porque é que, aos 47 anos, tiveste de voltar a casa da tua mãe?"

Para "Farid", felicidade é ter o que comer. Seria feliz se tivesse um pequeno terreno para lavrar, um lugar para dormir, eletricidade para não viver às escuras. Mas dorme no chão, sobre feno, nem um lençol tem. "A eletricidade traria luz para a vida dos meus filhos", conta.

d.r.

"Samira" também não sorri. Tinha acabado de fazer 11 anos quando o padrasto a violou pela primeira vez. Esperou a mãe dela viajar e pediu à menina para ir limpar a TV do quarto dele. Depois, colocou-lhe a mão na boca e atirou-a para cima da cama. "Se gritares, mato-te!", disse-lhe. E ela lá ficou, calada. Se pudesse fazer justiça com as próprias mãos, matava-o à facada.

A 16 de janeiro de 2007, um soldado israelita matou Abir, uma menina de 10 anos, em frente à escola dela, em Anath. Ela estava com a irmã e dois amigos, às 9h30 da manhã. Atingiu-a na nuca a uma distância de 15 ou 20 metros, com uma bala de borracha. Abir não era uma combatente, era apenas uma criança. "Infelizmente perdeu a vida por ser palestina", lembra o pai, que se recusa a perpetuar o ciclo de violência e vingança. "Às vezes pensamos: 'se matar o assassino dela, ou se matar alguém do outro lado, o israelita, ou talvez 10, isso vai trazer a minha filha de volta'. Mas não é verdade. Só vou causar mais dor, e mais uma vítima". Houve quem lhe dissesse que não tinha direito de perdoar em nome dela. Respondeu-lhes que também não tinha o direito de se vingar em nome dela. "Espero que ela esteja satisfeita. Espero que descanse em paz."

"Eran" é um israelita que perdeu a filha num atentado terrorista a 4 de setembro de 1997. É o produto de duas sociedades em guerra, mas decidiu seguir outro caminho. "A minha definição de 'lados' mudou radicalmente. Hoje, do meu lado estão todos aqueles que querem a paz e que estão dispostos a pagar o preço da paz. E, do outro lado, estão aqueles que não querem a paz."

Durante três anos, Yann Arthus-Bertrand recolheu em 60 países estes e dois mil outros depoimentos que lhe permitiram realizar "Human", um extraordinário documentário sobre a condição humana. Quem não o viu esta semana na RTP pode vê-lo na íntegra no Youtube. Devia ser obrigatório em todas as escolas deste país, para nos lembrar que é muito mais o que nos une do que aquilo que nos separa. E que num mundo onde o ódio e o preconceito parecem ganhar terreno, só o amor ao próximo nos pode salvar.