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Enfermeiros e polícias foram a novidade na manifestação da Função Pública

NUNO FOX/LUSA

Protesto que reinvindicava aumentos salariais e fim do congelamento das carreiras, entre outras medidas, teve deste vez um leque muito alargado de participantes. E isso sentiu-se no impacto que teve nos serviços públicos

Ana Baptista

Ana Baptista

Jornalista

A manifestação da função pública que decorreu esta sexta-feira à tarde em Lisboa parece ter passado um pouco despercebida do público em geral, mas o seu impacto ainda se fez sentir. Não só no trânsito que provocou entre o Marquês de Pombal e a Assembleia da República, mas em alguns serviços por todo o país, que tiveram de encerrar porque os seus empregados saíram para a manifestação.

É verdade que foi um protesto com menos manifestantes do que noutras ocasiões, mas desta vez reuniu trabalhadores de áreas de actividade que não costumavam participar. Foi o caso de vários elementos de segurança, incluindo mesmo elementos da Polícia Marítima, mas principalmente enfermeiros e outros profissionais de saúde, até médicos.

“Tivemos um leque mais alargado de manifestantes que vieram em solidariedade com a forma de luta, porque o que reivindicamos também é para eles”, disse ao Expresso, a representante da Frente Comum dos Sindicatos da Administração Pública, Ana Avoila.

Em consequência, o impacto desta manifestação sentiu-se mais nos serviços de saúde, nomeadamente em centros de saúde que estiveram a trabalhar a meio gás ou mesmo encerrados, adianta a mesma responsável. Além disso, os serviços administrativos de alguns hospitais encerraram, provocando alguns atrasos. O Hospital de Santa Maria foi um exemplo disso, com algumas secretarias encerradas.

Outro das áreas onde o impacto da manifestação se fez sentir mais foi o da educação, como já é habitual. Segundo Ana Avoila houve “dezenas de escolas encerradas em Lisboa”, por exemplo, a Passos Manuel e o Agrupamento Arruda.

“Como não se trata de uma greve, não contabilizamos o que fechou ou não. Isto são apenas algumas informações que me foram chegando, mas sem dúvida que teve impacto porque temos aqui algumas centenas de trabalhadores”, adiantou.

Para Ana Avoila, o balanço não podia ter sido mais positivo. “Esta manifestação é um alerta para o Governo. Os trabalhadores não aceitam continuar a ser tratados assim e a Frente Comum considera que o Orçamento do Estado tem dinheiro que chegue para fazer aumentos salariais”.

Este era, aliás, um dos pontos principais do protesto desta sexta-feira. Isto porque desde 2009 que a função pública não é aumentada.

Mas esta não era a única reivindicação dos trabalhadores neste protesto. Na lista das exigências esteve ainda a progressão nas carreiras, congeladas desde 2005; as horas extraordinárias, que desde 2014 são pagas pela metade; a semana de 35 horas, que ainda não inclui contratos de trabalho individual e ainda a integração dos trabalhadores precários na Função Pública, como por exemplo os recibos verdes.

Contudo, desta lista, poucas exigências serão resolvidas no imediato, porque o Orçamento do Estado para 2017 já está fechado, ou seja, qualquer alteração só deverá acontecer em 2018. Aliás, o documento diz isso mesmo em algumas destas questões, como o desbloquear da progressão das carreiras, que diz que deverá acontecer até 2018.

O próprio Presidente da República comentou isso nesta tarde de sexta-feira, quando questionado pelos jornalistas no final da inauguração do Bazar Diplomático,em Lisboa.

“É uma greve a pensar no Orçamento do Estado para 2018, no sentido de que este Orçamento do Estado está fechado, está praticamente aprovado, simplesmente em 2018 o Governo prometeu a progressão e o reajustamento de vencimentos da função pública”, afirmou, citado pela Lusa, acrescentando que a manifestação é uma maneira dos sindicatos da função pública dizerem “não se esqueçam, não foi este ano, não foi para o ano, mas prometeram que seja em 2018”.

Mas para o líder da CTGP, Arménio Carlos, “a manifestação fez-se a pensar em 2017”, disse citado pela Lusa. “Tem de ser ir mais longe do que o que está previsto já em 2017”, acrescentou, lembrando que as reivindicações dos trabalhadores podem ser concretizadas com poupanças nas Parcerias Público-Privadas (PPP) ou nos juros da dívida.

Ana Avoila tem a mesma visão quando diz que os trabalhadores não podem esperar mais um ano, porque há situações que se arrastam há muito tempo. É por isso que têm “reuniões marcadas com as Finanças na primeira quinzena de dezembro”, adiantou a responsável da Frente Comum que, apesar de tudo e de querer continuar a lutar, conclui que “agora, está tudo nas mãos do Governo”.