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Como este homem se tornou o campeão europeu da Medicina Regenerativa

AMBIÇÃO. O novo centro europeu de investigação em Medicina Regenerativa e de Precisão, com sede na Universidade do Minho, tem a ambição de ser “um dos melhores da Europa e do mundo”, afirma Rui Reis

Rui Duarte Silva

Rui Reis, professor catedrático e vice-reitor da Universidade do Minho e diretor do grupo de investigação 3B's, é o coordenador científico do novo Centro das Descobertas para a Medicina Regenerativa e de Precisão, um megacentro internacional que vai ter sede em Guimarães e que acaba de ser aprovado pela Comissão Europeia. A sua instalação envolve o investimento de 100 milhões de euros nos próximos sete anos

Virgílio Azevedo

Virgílio Azevedo

Redator Principal

“Não gosto de perder em nada”, confessou um dia Rui Reis ao Expresso, “mas gosto de conseguir coisas que muitos acham impossível”. Por isso, a sua vertiginosa carreira tem sido marcada por sucessos atrás de sucessos a nível nacional, europeu e mundial na Medicina Regenerativa, Engenharia de Tecidos, biomateriais e células estaminais, áreas muito competitivas das Ciências da Vida.

É uma carreira que se cruza com os êxitos da equipa de investigação que dirige na Universidade do Minho, o Grupo 3B's – Biomateriais, Biodegradáveis e Biomiméticos, onde trabalham mais de 160 cientistas de várias nacionalidades. E que tem os seus 15 laboratórios instalados no AvePark – Parque de Ciência e Tecnologia das Caldas das Taipas, em Guimarães.

Esta semana Rui Reis, o seu Grupo 3B's e a Universidade do Minho (UM) — onde é vice-reitor para a Investigação — alcançaram mais uma importante etapa e conquistaram ainda maior projeção internacional com a aprovação pela Comissão Europeia de um novo projeto. Chama-se “The Discoveries Centre for Regenerative and Precision Medicine” e é um novo centro europeu de investigação de excelência na Medicina Regenerativa e de Precisão (personalizada) com sede em Guimarães e coordenação da UM, que tem simplesmente a ambição de ser “um dos melhores da Europa e do mundo, uma referência científica internacional”, sublinha o investigador ao Expresso.

A ambição pode parecer exagerada, mas olhando para a história do Grupo 3B's e para a carreira de Rui Reis, hoje com 49 anos (ver cronologia), a sua afirmação surge como natural, óbvia, perfeitamente ao alcance da Universidade do Minho (UM). Talvez por isso ele o diga de uma forma tão serena, descontraída mas, ao mesmo tempo, com tanta convicção.

INVESTIGAÇÃO. O Grupo 3B's dirigido por Rui Reis, onde trabalham mais de 160 cientistas de várias nacionalidades, tem os seus 15 laboratórios no AvePark, em Guimarães

INVESTIGAÇÃO. O Grupo 3B's dirigido por Rui Reis, onde trabalham mais de 160 cientistas de várias nacionalidades, tem os seus 15 laboratórios no AvePark, em Guimarães

rui duarte silva

Afinal a UM tem neste projeto do programa europeu Horizonte 2020 de estímulo à ciência, tecnologia e inovação, vários parceiros de peso: as universidades do Porto, Aveiro, Lisboa e Nova de Lisboa, e a University College London (Reino Unido), uma das melhores universidades da Europa e líder mundial em Ciências e Tecnologias da Saúde. Tem também um orçamento à medida desta ambição: 15 milhões de euros de financiamento direto da Comissão Europeia. E conta ainda com o apoio da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) e das Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR) do Norte, Centro e Lisboa e Vale do Tejo.

O objetivo central do “The Discoveries Centre” é focar-se na investigação multidisciplinar, com base em métodos inovadores a serem aplicados na prevenção e no tratamento de doenças músculo-esqueléticas, neurodegenerativas e cardiovasculares.

Investir 100 milhões de euros e contratar 200 cientistas

Mas o plano de negócios para os próximos sete anos vai mais longe, porque aponta para um investimento global de 100 milhões de euros. Curiosamente, apesar da sua grande dimensão, não se trata de investimento em edifícios ou em equipamentos, porque vão ser usadas as instalações e as infraestruturas dos vários parceiros do projeto. Será, assim, um centro de investigação com sede em Guimarães e polos no Porto, Aveiro e Lisboa e um campus de suporte em Londres.

O grande investimento vai concentrar-se naquilo que Portugal e a UE mais precisam para competir na globalização: recursos humanos altamente qualificados. Rui Reis revela que “vão ser contratados numa primeira fase cerca de 200 investigadores, a que somam os que terão dupla afiliação, isto é, os que estarão ligados ao mesmo tempo a outra instituição de investigação”. Mas em relação a estes “ainda é cedo para sabermos quantos vamos ter”. O objetivo do projeto “é tornar o novo centro europeu autosustentável em sete anos”. E no final deste período, o vice-reitor da UM admite que “os investigadores possam vir a ser mais de 200”.

Os cientistas a contratar serão líderes de grupos de investigação e membros das respetivas equipas, como investigadores auxiliares, pós-doutorados e estudantes de doutoramento. O investimento de 100 milhões de euros previsto para a instalação do novo centro destina-se também aos programas de doutoramento e pós-doutoramento, ao programa de treino para o pessoal clínico “e a toda a área de formação ligada ao empreendedorismo da responsabilidade da University College London (UCL), como o registo e licenciamento de patentes; a criação de produtos e o seu lançamento no mercado; investigação translacional (que aplica resultados de investigação básica à investigação clínica), incluindo ensaios clínicos; e o lançamento de empresas start up”, revela Rui Reis.

A UCL tem mais de 10 grupos de investigação na Medicina Regenerativa “e deu-nos massa crítica para apresentarmos uma candidatura muito forte ao financiamento da Comissão Europeia”, acrescenta o vice-reitor da UM. “Mas não tem nenhum grupo como o 3B's”.

VIAGENS. O investigador viaja quatro meses por ano em trabalho, apesar de ter feito toda a sua formação académica em Portugal

VIAGENS. O investigador viaja quatro meses por ano em trabalho, apesar de ter feito toda a sua formação académica em Portugal

rui duarte silva

Foi também a necessidade de ganhar massa crítica, dimensão, para concorrer aos fundos do programa europeu Horizonte 2020, que levou o 3B's a juntar mais quatro universidades portuguesas no projeto e a envolver dezenas de cientistas nacionais de renome. Esta parceria permitiu concorrer num universo de 170 candidaturas de vários países europeus, tendo sido selecionadas apenas 10 no final do processo para serem financiadas por Bruxelas, entre as quais a candidatura liderada por Rui Reis e pela Universidade do Minho.

“Efeito estruturante na ciência portuguesa”

A UM considerou esta semana em conunicado que “a criação do ‘The Discoveries Centre for Regenerative and Precision Medicine’ deverá ter um efeito estruturante na ciência portuguesa, podendo dar origem muito rapidamente ao maior e mais produtivo centro de investigação baseado em Portugal”. E deverá também ter “condições únicas para atrair talento científico internacional”, contribuindo “para o aumento da competitividade do setor da biomedicina e estimulando, de forma geral, o emprego científico altamente qualificado e o crescimento económico nacional a vários níveis”.

O centro será uma entidade privada, que poderá por isso “pagar salários mais elevados e oferecer melhores condições de trabalho, com equipas de investigação e estudantes imediatamente disponíveis, bem como acesso a laboratórios onde já temos equipamentos”, assinala Rui Reis.

O orçamento de 100 milhões de euros “está no plano de negócios que tivemos de apresentar na nossa candidatura em Bruxelas mas não é financiamento garantido, temos de recorrer a várias entidades e ao que formos conseguindo em concursos abertos e na venda de serviços”, explica o investigador. De qualquer maneira, nessa candidatura o projeto era acompanhado por cartas dos ministérios portugueses da Ciência, Economia e Saúde, bem como das CCDR do Norte, Centro e Lisboa e Vale do Tejo.

António Cunha, reitor da UM e presidente do Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas (CRUP), disse um dia numa reportagem do Expresso nos laboratórios do Grupo 3B's, que “Rui Reis tem um percurso notável, uma capacidade de trabalho enorme, uma grande criatividade, conseguindo estabelecer pontes entre várias áreas científicas”. E desenvolve “um trabalho pioneiro que tem trazido grande visibilidade e prestígio internacional à Universidade do Minho”.

RUI REIS: UMA HISTÓRIA DE SUCESSO

RAÍZES. Rui Reis é um homem do Porto mas em 1998, antes de concluir o seu doutoramento, decidiu transferir-se da Universidade do Porto para a Universidade do Minho

RAÍZES. Rui Reis é um homem do Porto mas em 1998, antes de concluir o seu doutoramento, decidiu transferir-se da Universidade do Porto para a Universidade do Minho

rui duarte silva

1990
Licenciatura em Engenharia Metalúrgica pela Universidade do Porto.

1994
Mestrado em Ciência e Engenharia dos Materiais (Biomateriais) pela Universidade do Porto, em colaboração com outras quatro universidades portuguesas. Mais tarde seria diretor desse mestrado nacional.

1999
Doutoramento em Engenharia de Polímeros (Biomateriais e Engenharia de Tecidos) pela Universidade do Minho, em cooperação com a Universidade Brunel (Londres).

1998-1999
Em 1998, ainda antes de concluir o seu doutoramento, decidiu transferir-se da Universidade do Porto para a Universidade do Minho, onde com o atual reitor, António Cunha, preparou a fundação do Grupo de Investigação 3B's – Biomateriais, Biodegradáveis e Biomimético, criado formalmente em 1999. O grupo arrancou com o primeiro grande projeto europeu (7,5 milhões de euros) na área da engenharia de tecidos humanos, o ISOBONE, liderado pela maior empresa europeia da área nesse momento (ISOTIS, na Holanda), sendo a Universidade do Minho o segundo maior parceiro.

1999
Fundou e dirige até hoje o Grupo 3B's, que atingiu rapidamente um grande reconhecimento internacional nas suas áreas de atuação.

2000
Principal responsável do LABMAT, laboratório de caraterização geral de materiais da Universidade do Minho.

2003–2009
Chefe de Investigação & Desenvolvimento na holding Corticeira Amorim SGPS.

2004
Coordenador de quatro grandes projetos de investigação europeus no 6º Programa-Quadro da UE, incluindo uma rede de excelência, dois projetos Marie Curie (treino pós graduado e organização de conferencias de alto nível) e um de investigação, no valor total de mais de 15 milhões de euros.

2006–2009 e 2011–2012
Fundador e presidente da Sociedade Portuguesa de Células Estaminais e Terapias Celulares (SPCE–TC).

2007
Doutoramento em Engenharia Biomédica (Biomateriais e Engenharia de Tecidos) pela Universidade do Minho.

2007–2015
Presidente e Diretor Científico da empresa Stemmatters – Biotecnologia e Medicina Regenerativa SA, criada a partir do Grupo 3B's (spin-off). Entretanto, também com base na investigação do grupo, fundou com os seus colaboradores diversas outras empresas, sendo de destacar a HydrUStent, que venceu importantes prémios de inovação e acabou de ser destacada no Web Summit em Lisboa.

2007
Foi fundador e assume até hoje a posição de editor-chefe do Jornal de Engenharia de Tecidos e Medicina Regenerativa da editora científica Wiley-Blackwell, a revista com melhor factor de impacto nesta área científica.

2008
Presidente executivo do Instituto Europeu de Excelência em Engenharia de Tecidos (TERM), com sede no edifício do Grupo 3B´s no AvePark, em Guimarães, e 22 parceiros de 13 países, tendo resultado da liderança única em Portugal de uma Rede de Excelência no 6º Programa-Quadro da UE.

2009
Coordenador de cinco projetos estratégicos internacionais de investigação, financiados pelo 7º Programa-Quadro da UE, no valor de mais de 20 milhões de euros.

2010
Membro da Direção Mundial da Federação Internacional para os Órgãos Artificiais (IFAO).

2010
Diretor do programa de doutoramento em Engenharia de Tecidos, Medicina Regenerativa e Células Estaminais da Universidade do Minho, atualmente financiamento pela FCT e pelo NORTE 2020 (CCDR–N).

2011
Diretor/Presidente do Laboratório Associado ICVS/3B's (uma parceria com o ICVS – Instituto de Ciências da Vida e da Saúde da Escola de Medicina da Universidade do Minho), cujas unidades tiveram avaliação de “Excelente” pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT). É o único Laboratório Associado totalmente baseado na Universidade do Minho.

2011
Professor Catedrático em Engenharia de Tecidos, Medicina Regenerativa, Biomateriais e Células Estaminais no Departamento de Engenharia de Polímeros da Escola de Engenharia da Universidade do Minho.

2013
Integrou a lista dos 100 portugueses mais influentes do Expresso.

2013–2015
Após ter sido eleito e assumido durante 3 anos (2010-2012) a posição de Presidente Europeu é eleito Presidente da Sociedade Internacional de Engenharia de Tecidos e Medicina Regenerativa (TERMIS), a principal organização mundial nesta área, com membros de 90 países.

2013
Vice-reitor para a Investigação da Universidade do Minho.

2013
Aos 46 anos recebeu um Bolsa Avançada do Conselho Europeu de Investigação (ERC) no valor de 2,35 milhões de euros para o seu projeto ComplexiTE de investigação nas áreas da engenharia e regeneração de tecidos humanos, com o objetivo de criar estruturas complexas de biomateriais e células estaminais.

2014
Professor Emérito Convidado da Universidade Nacional Chounbuk, em Jeonju, na Coreia do Sul.

2014
Condecorado pelo Presidente da República como Comendador da Ordem de Santigo de Espada e um dos dois primeiros cidadãos honorários de Guimarães.

2015
Coordenador de cinco grandes projetos de investigação europeus e de quatro programas doutorais e de formação avançada financiados pelo Programa Horizonte 2020.

Janeiro de 2016
Assume a posição de Presidente Global da TERMIS, o mais novo de sempre.

Outubro de 2016
Tomada de posse como membro da National Academy of Engineering (NAE) dos EUA, um dos maiores reconhecimentos que pode ser atribuído a um engenheiro a nível mundial. Foi o primeiro engenheiro com formação académica e toda a carreira desenvolvida em Portugal a ser eleito membro da NAE.

Outubro de 2016
Mais de 980 publicações científicas listadas no ISO Web of Science, das quais cerca de 730 artigos publicados em revistas científicas de referência internacional, sendo o investigador em Portugal com mais publicações científicas e um dos mais citados internacionalmente (mais de 20.500 citações). Apresentou cerca de 400 palestras em conferências científicas internacionais em todos os continentes e 200 comunicações a congressos.

Novembro 2016
Comissão Europeia financia novo centro de investigação europeu de excelência na área da Medicina Regenerativa e de Precisão, coordenado pela Universidade do Minho e com sede no AvePark, em Guimarães. “The Discoveries Centre for Regenerative and Precision Medicine” resulta de um parceria entre cinco universidades portuguesas e a University College London (Reino Unido) e envolve um investimento que pode chegar a 100 milhões de euros nos próximos sete anos.

2016
Investigador principal de financiamentos que totalizam mais de 40 milhões de euros, dos quais 25 milhões são financiamento para a Universidade do Minho. Em resultado destes e de outros projetos dirige o trabalho de mais de 160 investigadores (mais de 70 doutorados) de 27 nacionalidades.

2016
Nos últimos anos ganhou 17 prémios nacionais e internacionais de investigação e inovação, sendo o único investigador a nível mundial a receber os dois principais prémios da Sociedade Europeia de Biomateriais e o Grande Prémio Clemson de contribuições para a literatura da Sociedade Americana de Biomateriais.

2016
O Grupo 3B's tem neste momento mais de 160 investigadores, 15 laboratórios instalados num edifício próprio com características únicas a nível internacional cuja construção conseguiu financiar, 40 projetos (muitos deles de grandes dimensões), 32 patentes registadas, e só entre parceiros estratégicos, 14 parceiros industriais, nove parceiros clínicos (hospitais) e 39 parceiros académicos internacionais (universidades e institutos de investigação).