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“O humor é baralhar e fazer cócegas”

marcos borga

Tinha quatro anos quando assistia a todas as peças do Teatro Infantil de Lisboa e insistia, apesar de ser “muito tímida”, em cumprimentar os atores e agradecer aquele momento de partilha, mas foi preciso deixar passar mais de duas décadas para deixar a Terapia Ocupacional e perceber que a paixão tinha ficado lá atrás, nos palcos que frequentava em criança. Foram cinco anos intensos de teatro, cinema e televisão – agora chega às nossas casas na RTP1, mas também nas redes sociais, onde os sketches do programa “Donos Disto Tudo”, onde imita fielmente figuras como Ana Malhoa ou Cristina Ferreira, se tornam virais

Mariana Lima Cunha

entrevista

Jornalista

Estivemos à conversa com Joana Pais de Brito para falar de passado, futuro e humor – o humor que tem de “tirar o chão, baralhar e fazer cócegas” (pelo meio, descobrimos que o sketch preferido da atriz envolve pouca caracterização e até tem a ver com jornalismo)

Como é que a Joana chega à representação? Foi sempre um sonho?
Em pequena, eu queria ser o que as crianças querem ser: veterinária, inspetora da Polícia Judiciária… Acho que sempre quis mas não sabia. Mas divertia-me muito a criar pequenas personagens e enredos. Partindo do princípio que o que nós gostamos de fazer é a nossa profissão ideal, a representação era um sonho.

Começou como terapeuta ocupacional.
Sim, tirei uma licenciatura nessa área. Aos 14 anos pisei pela primeira vez um palco, num grupo de teatro da escola secundária. Fiz teatro amador nessa altura e depois interrompi. Aos 26 anos estava eu a trabalhar enquanto terapeuta (parece outra vida!), em reabilitação psicossocial, em psicoterapia, quando decidi mudar. Comecei a fazer alguns workshops aqui e de certa forma acho que isso me trouxe outra vez a memória e o gosto, pelo que decidi estudar a sério e ver o que era isto, se era mesmo real, porque quando chegamos a adultos ficamos cheios de dúvidas. Em crianças sabemos tudo. E depois fui para Nova Iorque.

Quando chegou à idade adulta, começou a ser mais realista e a sonhar menos?
Achei que o teatro seria sempre um hobby. Abandonei-o por isso. Mas acho que nunca deixei de sonhar, é uma característica que me acompanha muito. Digamos que foi uma coisa que ficou latente; até tirei outro curso e gostei muito dessa profissão que tive nessa outra vida, portanto a representação aconteceu quando tinha de acontecer.

Mas sentia-se realizada nessa outra profissão?
Sim… Mas depois descobri que me podia sentir ainda mais realizada (risos).

Quando vai para Nova Iorque, em que condições é que isso acontece?
Vou para lá e estou dois anos num curso muito intensivo, com aulas de interpretação, voz, discurso – incluindo “neutral american speech” – aulas de máscara… Estive lá dois anos maravilhosos, adorei a escola e a cidade e percebi: é isto.

E na chegada a Portugal?
Comecei logo a trabalhar, muitas vezes sem ganhar. Comecei a fazer curtas, enviei muitos currículos, muitas fotografias… Estive sempre muito atenta ao que estava a acontecer e tive sorte. Participei em curtas como a “Chico Malha”, que teve uma vida em festivais muito interessante, com a qual não ganhei dinheiro nenhum - nem eu, nem ninguém… É muito bom ver uma curta a ganhar vida, porque é um trabalho de guerrilha. Como a maior parte não vai para os cinemas, nunca se sabe; manda-se para os festivais, depois espera-se. Nessa curta, estive presente várias vezes entre o público. Eu ia onde ela ia; transformei-me numa groupie da curta.

E ver a reação das pessoas… Quando chegou, temia não ter essa facilidade em conseguir trabalho?
Tememos sempre. Qualquer freelancer teme. Mas depois tem de ser 10% a temer e o resto é uma grande fezada… Não sabemos, os contratos são surreais, há coisas horríveis… Aconteceu-me fazer trabalhos que não queria fazer, mas sempre os senti como uma fase intermédia. É uma questão de fezada.

É preciso gostar de correr riscos?
É. E eu gosto.

marcos borga

No Donos Disto Tudo sente que ainda está a aprender, por ser a mais jovem do elenco e contracenar com atores tão experientes?
Tem sido uma aprendizagem. É um formato que eu nunca tinha feito, ritmo muito intensivo, trabalhamos com a atualidade… às vezes há pouco tempo para preparar e temos de nos adaptar. E estar com aquele grupo é muito bom. Entre ensaios há um ambiente divertido – se não fosse, eu não podia contar!

É difícil acertar sempre no timing? Apanham fenómenos e notícias que têm sentido naquele momento…
A equipa de oito argumentistas, liderada pela Maria João Cruz, é incrível e faz essa parte do trabalho. Às vezes caem coisas de repente, não batem com os dias de gravação, não dá para acompanhar… E depois nós recebemos os textos, muitas vezes se é uma coisa que aconteceu ontem temos de trabalhar o texto para o dia seguinte. Mas essa parte mais ingrata é dos argumentistas.

Qual é o processo para aprender a imitar tão fielmente uma pessoa – e o objetivo é chegar à perfeição ou no fundo é mais uma interpretação, sem essa preocupação de que se reconheça ali perfeitamente uma pessoa real?
É um misto… Acima de tudo, uma interpretação. Isto não é uma linha de montagem, nem é um molde. O molde sou eu e eu já vou trazer coisas minhas, já vou fazer escolhas. O processo é muita observação. Ouvir muito, ver muito, ver a pessoa em vários contextos diferentes – numa festa, numa entrevista mais séria… a internet é preciosa. Ver sem som, ouvir sem imagem…

Viu muito Você na TV?
Claro que sim!

As caracterizações também saltam à vista…
É um trabalho muito minucioso, de várias horas para algumas personagens. A Ana Malhoa é a mais longa que eu tenho, de três horas e meia. A Cristina Ferreira talvez umas duas horas. E as dos meus colegas também demoram – a do Pinto da Costa, por exemplo, demora quase quatro horas… Não posso revelar tudo, senão estrago a magia! Mas é um trabalho incrível. E funciona de forma diferente conforme as personagens. Por exemplo: recentemente eu fiz de Angelina Jolie, o que é uma coisa um bocadinho inacreditável, uma vez que praticamente não tenho boca, tenho 1,56m… E foi aplicado um material na minha boca para a aumentar, e foi isso que fez o clique final que me faltava. Às vezes funciona como uma máscara, que nos acaba por ligar à personagem, assim como o guarda-roupa. Por vezes faço interpretações mais antigas, que já tinha antes do programa – exemplos são as da Ana Malhoa ou da Cristina Ferreira, já as fazia e nem me pergunte porquê - e já há uma ligação. Quanto mais tempo tem essa ligação à personagem… é como um queijo: quanto mais tempo está guardado, melhor o sabor.

marcos borga

Vai ficando mais confortável.
Sim, porque fazer uma personagem é como aprender uma língua nova. Ao princípio, quando a aprendemos, ainda não estamos tão à vontade… depois, se pudermos praticar, até ir ao país, ainda melhor.

Por exemplo, já tinha visto a Ana Malhoa ao vivo.
Sim, é verdade. Ela é espetacular.

Há algum sketch que guarde com especial carinho?
Há um sketch que não é muito partilhado, em que faço uma personagem bastante neutra, com pouca caracterização. Passa-se numa redação de um jornal sensacionalista – o Joaquim Monchique é o chefe que faz propostas mirabolantes, o Eduardo Madeira é o colega lambe-botas e eu sou a pessoa que tenta trazer algum bom senso e alguma decência. Nem sei porque é que gosto tanto dela. O Donos Disto Tudo é bom porque dá para fazer esses registos variados, como este, que não é tão exagerado – e é uma crítica social.

É importante essa função do humor enquanto crítica social?
O humor tem sempre de mexer connosco. Até pode não ser com uma crítica, mas a comédia tem de nos baralhar. O humor é baralhar e fazer cócegas. É tirar o chão. É sempre desconstruir, fazer as pessoas ficarem de boca aberta e depois rir.

E há limites?
Cada um tem o seu limite, mas não se pode dizer a ninguém para deixar de fazer o seu humor. Depende da sensibilidade de cada pessoa. Há coisas de humor negro a que não acho graça, mas têm direito a fazê-las.

Com esta atenção que os sketches estão a receber – aquele em que interpreta a Maria Leal ficou viral – sente que está a rebentar como atriz em Portugal, a receber mais atenção, a ter fãs…?
A partir do momento em que se está a fazer um prime-time acontece. Às vezes pode ser um bocadinho demais, mas acho que faz parte: é sinal de que o programa está a mexer com as pessoas. Desde muito pequena que eu vou ao teatro, lembro-me de ir com quatro anos – seguia todas as peças do teatro infantil de Lisboa – e o que eu queria, apesar de ser extremamente tímida, era cumprimentar os artistas no final e agradecer. Como espetadora, eu quero participar e retribuir, é natural. É como… dizer ao carpinteiro que esta mesa está incrível; está aqui um belo banco, parabéns. Claro que nas redes sociais há coisas estranhas, a internet é um mundo estranho – a partir do momento em que uma pessoa aparece, graças ao seu trabalho, penso que cria nalgumas pessoas a ilusão de que aquela pessoa é totalmente pública, pertence a toda a gente. Isso tem uma parte bonita – a vontade e liberdade de dar os parabéns a alguém que não conhecem – e a outra parte, numa percentagem menor.

Já teve reações das pessoas que imita?
É uma pergunta que me chega muitas vezes, mas não. Na verdade, eu não penso nelas enquanto pessoas reais quando o faço. A minha interpretação é a da pessoa pública – aquela pessoa, naquele contexto. Portanto o que a Ana Malhoa ou a Cristina Ferreira pensam na sua privacidade não pode ser determinante para o meu trabalho. Não é nada pessoal e não posso estar preocupada com isso.

Já disse várias vezes que não é especificamente uma atriz de comédia.
Não. Adoro, como adoro fazer drama – é equivalente.

Numa peça cómica, a parte de ter um público à frente, em tempo real – ter essa reação é enervante?
Estar em palco é o princípio de tudo, a base de tudo. Estar com as pessoas é o mais natural e o melhor. O ator não pode estar a pensar nos resultados, tem de se estar a fazer o que se está a fazer. Ali está a acontecer a partilha total. Todos os meios trazem coisas diferentes, mas o preferido é o teatro, claro. E o cinema, pelo tempo que temos. A televisão tem este lado ingrato para um ator que é o tempo, com todo o trabalho de casa que temos para fazer. Os outros dois estão em vantagem.

Há algum momento em que tema no futuro estar parada?
Sim, voltamos ao início: nunca sei o que vai acontecer. Não há nada garantido. Mas continuo a ter muita fezada. O meu medo continua a ser inferior ao facto de acreditar – enquanto for inferior, vale a pena. A sorte está sempre presente, mas a pessoa tem de se mexer, pôr a engrenagem a mexer. Não nos podemos instalar. Vai haver um momento em que vou querer sentar-me na poltrona, mas agora ainda não. As possibilidades são infinitas e até prova do contrário – posso tentar fazer uma coisa e falhar redondamente – quero experimentar tudo.