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A mulher que sobreviveu ao cancro quase invencível

Cancro do pâncreas mata quase todos os doentes diagnosticados. Mas há exceções, como o caso de Maria Fernanda, que está viva há dez anos anos desde que a doença lhe foi diagnosticada. Esta quinta-feira assinala-se o Dia Mundial do Cancro do Pâncreas

Quando um doente recebe o diagnóstico de que tem um tumor, o medo é o sentimento imediato. Quando à palavra tumor se acrescenta o adjetivo cancerígeno, o medo torna-se agudo. Mas se o órgão afetado for o pâncreas, já não é de medo que se fala. É de pânico.

O adenocarcinoma do pâncreas — forma mais frequente dos cancros pancreáticos (85%) — é a 12ª mais comum das doenças oncológicas. Na Europa, alcança a sétima posição. É o quarto cancro mais letal no mundo e estima-se que até 2020 suba para a segunda posição nos Estados Unidos. São, em média, 338 mil novos casos anuais. Mais de 900 mortes diárias.

Em Portugal, são cerca de 1300 diagnósticos/ano. Como a identificação da doença tende a ser tardia, apenas 20% dos casos são operáveis e quando o doente descobre, percebe que terá, em média, mais quatro a seis meses de vida. Entre os cancros é aquele com a mais baixa taxa de sobrevivência. Uma mancha num panorama cada vez mais animador. A Liga Portuguesa Contra o Cancro anunciou esta semana, por exemplo, que 15 mil a 20 mil pessoas sobrevivem anualmente à doença.

Um dos principais problemas é precisamente a demora no diagnóstico. Os sintomas não se manifestam nas primeiras fases da doença e, quando são percetíveis, não são tão específicos que apontem logo para o pâncreas. “É uma das doenças mais difíceis de tratar, porque quando é descoberta a maioria dos casos de adenocarcinoma no pâncreas já não pode ser tratada cirurgicamente”, explica Luís Costa, diretor do Serviço de Oncologia do Hospital de Santa Maria e presidente da Associação Portuguesa de Investigação em Cancro.

“Qualquer pessoa fica assustada com um diagnóstico de cancro, mas se é no pâncreas, entra-se em pânico”, assume Luís Costa. Explica que existe outra manifestação oncológica no mesmo órgão — tumor endócrino do pâncreas — que permite uma sobrevivência bastante mais alargada. Mas no adenocarcinoma, cerca de 35% dos tumores estão metastizados no momento do diagnóstico.

Ao seu serviço em Santa Maria só chegam casos graves. Cerca de 60 pessoas anualmente. Como o homem de 80 anos, que recebeu o diagnóstico perto do Natal e conseguiu sobreviver mais 18 meses. Apenas 25% dos doentes conseguem viver tanto tempo. “Valeu a pena. Para ele, para os filhos e os netos”, sublinha Luís Costa.

Ficar para durar

Maria Fernanda Freitas tem 64 anos e cancro metastático no pâncreas. Aliás, há quatro anos que não tem pâncreas. Descobriu a doença há dez anos. É um caso raro. “Eu acho que sou uma pessoa muito especial”, confessa, tranquila, enquanto conta a sua história ao Expresso. Sem qualquer razão aparente, com cerca de 30 anos começou a ter pancreatites agudas, duas a três vezes por ano. Aos 38, a ex-funcionária da Câmara Municipal de Loures perdeu a vesícula.

Em 2006, a situação agravou-se e ao ser operada a equipa médica descobriu que tinha cancro no pâncreas. Retiraram-lhe a cabeça da glândula. Fez quimioterapia e durante quatro anos viveu sem problemas. Foi quando sentiu fortes dores no abdómen.

Luís Costa encontrou uma massa e, feito o exame, percebeu-se que a doença tinha atingido o estômago. Retiraram-lhe o pâncreas, três quartos do estômago, o baço e “algum intestino”. “O pós-operatório foi muito sofrido. Como explicou o cirurgião, foi como se um camião tivesse passado por cima de mim”, recorda.

Viveu dois anos em sossego até que, numa consulta de rotina, os valores tumorais aumentaram. Os dois pulmões tinham sido afetados. Passou por nova cirurgia, perdeu mais um pouco de si e fez quimioterapia, que ainda não terminou. As tomografias mostram que a doença parece ter estabilizado. “O médico diz que o problema está cá e a ideia que tenho é que vai estar sempre e que tenho de levar isto na maior. Tenho muita vontade de superar e pode crer que estou para durar”, afirma.

Há dez anos, quando Maria Fernanda ouviu o diagnóstico, primeiro, chorou muito, depois, foi almoçar com o marido a um excelente restaurante. Desde então, diz que aproveita ao máximo todo o tempo que tem e reconhece que a sua “é uma história de vitória”. A maior parte dos casos, contudo, desenvolve-se de outra forma. E por isso a Europacolon — que apoia doentes com cancro digestivo — decidiu divulgar os sintomas do cancro pancreático.

Vítor Neves, presidente da associação, acredita que “a doença vai explodir nos próximos anos” e que “é preciso promover a deteção precoce, com o Estado e a sociedade civil a envolverem-se neste objetivo”.

“Devido ao diagnóstico tardio e à escassez da aprovação de tratamentos inovadores, as taxas de sobrevivência não mudaram de forma significativa nos últimos 40 anos”, afirma. Vítor Neves explica que, “apesar de ser a quarta causa de morte por cancro, apenas 2% dos financiamentos para a investigação oncológica na Europa destinam-se a estudar o cancro pancreático”. E, enquanto vários outros tipos de cancros — como na próstata, mama ou colorretal — têm conseguido reduzir a taxa de mortalidade, esta continua a aumentar quando o órgão afetado é o pâncreas.

Embora sublinhe que a cura ainda é um horizonte distante, Luís Costa assume que “através de terapias adjuvantes é possível tentar transformar em operável o que neste momento não é, evitando que a doença volte a aparecer”. O médico recorda, por exemplo, que no grupo de doentes cujo diagnóstico é feito a tempo de o tumor ser retirado cirurgicamente, a sobrevida ao fim de cinco passa a ser de 20% quando antes, só com a cirurgia, era de 10%.

Também no grupo de doentes mais graves, com cancro pancreático já metastizado, Luís Costa alerta que estão a ser feitos avanços terapêuticos, com várias frentes de investigação em curso, entre as quais a tentativa de alterar o microambiente favorável ao desenvolvimento do tumor, possibilidade que, contudo, ainda não está disponível em Portugal. Diz ainda que existem vacinas e novos marcadores a serem testados, mas que o mais importante é atuar de forma preventiva, evitando comportamentos de risco como o tabagismo e a obesidade.

Para Nuno Miranda, diretor do Programa Nacional para as Doenças Oncológicas da Direção-Geral da Saúde, “as armas terapêuticas contra esta doença ainda são poucas” e o médico alerta para o consumo de bebidas destiladas como um fator de risco a ter em conta: “Em cancros como o pancreático, o que está nas nossas mãos é a mudança de estilos de vida.”

Na apresentação do manual sobre o cancro pancreático que a Europacolon vai distribuir entre doentes, familiares e médicos de família, Manuel Sobrinho Simões, diretor do Departamento de Oncologia da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, lembra que “a circunstância do diagnóstico do cancro no pâncreas ser quase sempre tardio e o facto de não haver (ainda?) uma terapêutica eficiente contribuem para tornar esta doença uma das ‘bestas negras’ do universo da oncologia nos nossos dias”.

O manual explica, por exemplo, que se não houver aconselhamento específico do médico especialista, os exames de rastreio ao cancro pancreático devem começar aos 40 anos ou dez anos antes da idade que tinha um familiar da pessoa em causa a quem tivesse sido diagnosticada a doença. A associação avisa ainda que “estes exames não conseguem precaver com exatidão a ocorrência da doença”, explicando, contudo, que “podem identificar lesões precursoras do cancro e diagnosticar a doença numa fase inicial, possibilitando assim um tratamento mais eficaz”.

Por isso, além do manual, a associação juntou-se a várias outras instituições europeias numa coligação que concebeu uma campanha para informar a sociedade sobre o cancro pancreático, tema que será levado ao Parlamento Europeu. Na próxima quinta-feira, assinala-se o Dia Mundial do Cancro no Pâncreas, uma oportunidade para a associação alertar da gravidade de uma doença que mata diariamente centenas de anónimos, mas que ficou associada também a nomes públicos como Steve Jobs, da Apple, o tenor Luciano Pavarotti ou o ator Patrick Swayze.

Artigo publicado originalmente na edição do Expresso de 12 de novembro de 2016