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‘Guru’ de falsa seita de Palmela começa a ser julgado

José Carlos Carvalho

Sete pessoas suspeitas de crimes sexuais com menores de idade vão ser ouvidas esta tarde no tribunal de Setúbal

Hugo Franco

Hugo Franco

Jornalista

Gostava de ser tratado por ‘Mestre dos Espíritos’ ou simplesmente ‘guru’ e prometia proteger os ‘fiéis’ da seita “Verdade Celestial” das garras do diabo. O truque, que deixava as jovens vítimas aterrorizadas, resultou durante alguns meses. Mas terminou num dia de verão, em 2015, numa rusga da Polícia Judiciária ao local do culto: um anexo situado numa quinta em Brejos do Assa (Palmela).

Rui Pedro ficou detido preventivamente no estabelecimento prisional de Setúbal e foi acusado de 200 crimes de natureza sexual sobre menores e adolescentes.

Esta terça-feira às 15h30 começa a ser julgado pelo tribunal de Setúbal, juntamente com outros seis arguidos do processo. Os procuradores suspeitam que nove crianças foram violadas por membros do grupo, acusado no total de mais de 400 crimes de natureza sexual com menores.

A falsa seita foi uma invenção de Rui Pedro, que conseguiu convencer adultos e crianças de que era o representante de Deus na Terra. O suspeito terá aplicado alguns ensinamentos religiosos dos pais, que fazem parte de uma conhecida congregação religiosa em Lisboa, e adaptou-os ao grupo em Palmela desde o início de 2014.

“O pretexto da ‘Verdade Celestial’ era apenas um: dominar e abusar mais facilmente dos menores, promover a poligamia e todo o tipo de promiscuidade sexual”, diz um investigador da PJ ao Expresso.

Uma suspeita partilhada por Paula Nogueira, a procuradora do Ministério Público de Setúbal responsável pelo caso. No despacho de acusação garante que o ‘Mestre dos Espíritos’ teve a ideia de criar um esquema que lhe permitisse obter dinheiro e simultaneamente ter relações sexuais com crianças. Convenceu a namorada do primo a dar explicações low cost de várias disciplinas naquela casa para atrair as vítimas. Ele, por sua vez, dava consultas de psicologia, também a baixo preço (algumas custavam 5 euros).

A quinta passou a ser frequentada por jovens até aos 15 anos, que também iam ao local para jogar futebol ou nadar numa piscina insuflável colocada no quintal. Muitos deles, “oriundos de famílias mais pobres”, pernoitavam por ali com a permissão dos pais. E de acordo com o Departamento de Investigação e Ação Penal (DIAP) de Setúbal, foram abusados em Brejos do Assa, tal como os dois filhos menores de Rui Pedro.

O despacho de acusação revela que os abusos do falso guru terão começado ainda antes de fundar a seita. Quando morava nos bairros populares da Camarinha e do Monte Belo, em Setúbal, era visto a jogar futebol nos ringues e parques infantis com outras crianças ou a brincar com a PlayStation em casa delas.

Um casal vizinho deixou-o a sós com o filho que, segundo a investigação, foi abusado várias vezes durante o verão de 2013.

Nessa altura, treinava um clube de futebol do Pinhal Novo, “Os Esferinhas”. Era o local certo para obter a confiança de dezenas de crianças. Pelo menos duas delas foram vítimas de Rui Pedro, garante o MP. Aos pais dos atletas anunciava dar consultas de psicologia, apesar de não estar inscrito na Ordem dos Psicólogos. Não foi a única mentira que espalhou. Na internet, multiplicava as personalidades. Podia ser o ‘Mestre Pablo’, representante da seita em Espanha; ou o ‘Mestre Vitorino’. E até atribuía graus aos discípulos: abaixo do ‘Mestre dos Espíritos’, a quem todos naquele anexo de Palmela deviam obediência, estava por exemplo o ‘Ungido Real’.

[Texto original publicado no Expresso de 12 de novembro de 2016]