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Hospitais sem dinheiro para equipamentos

Adalberto Campos Fernandes, ministro da Saúde

Gestores denunciam falta de camas, aparelhos de TAC ou de ressonância. Doentes esperam ou vão ao privado. Ministro da Saúde está esta segunda-feira a explicar o orçamento do sector aos deputados e promete renovar “a plataforma tecnológica do Serviço Nacional de Saúde, ajustando-a às necessidades dos portugueses” até ao final da legislatura

“Nos hospitais há dificuldades de aquisição e de renovação de camas, ressonâncias magnéticas, TAC, meios de diagnóstico em gastrenterologia ou até nas ecografias para grávidas”, denuncia Alexandre Lourenço, presidente da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares. O alerta surgiu em vésperas da discussão do orçamento da Saúde no Parlamento, esta segunda-feira, para que o ministro Adalberto Campos Fernandes não esquecesse que “é urgente tratar a questão”.

A incapacidade de manter os meios necessários tem uma consequência imediata: “Os profissionais não conseguem utilizar os equipamentos e os doentes não têm acesso”, garante o gestor. A demora não poupa até quem não pode esperar. “Na oncologia há uma eternidade entre a suspeita de cancro e o início do tratamento”, garante Alexandre Lourenço.

À Ordem dos Médicos têm chegado exemplos de falhas. “O que se está a passar nas áreas tecnológicas é dramático”, afirma o bastonário José Manuel Silva. Um dos casos recentes é a inexistência de camas para separar doentes com infeções hospitalares no Garcia de Orta, em Almada, denunciada na semana passada pelo “i”. “O Serviço Nacional de Saúde (SNS) está a desmoronar-se”, avisa.

No Hospital de Beja, a falta de verbas para repor aparelhos obrigou a cessar as mamografias e as ecografias mamárias e a enviar as doentes para o privado. “Os equipamentos têm-se degradado e não é possível assegurar a realização interna de todos os exames. É o caso da mamografia, tendo as utentes de ser referenciadas para os sectores convencionado ou privado em Beja. E as ecografias mamárias também estão condicionadas”, reconhece a presidente da Unidade Local de Saúde do Baixo Alentejo, Margarida da Silveira.

A responsável admite ainda falhas nas tomografias. “O aparelho de TAC tem constantes avarias, que têm sido reparadas. Quando está avariado, os doentes são referenciados para os convencionados e privados ou para o Hospital de Évora, de noite e aos fins de semana.”

No Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, o diretor da Radiologia demitiu-se. “Vetos de gaveta sucessivos, querer médicos e não ter resposta, médicos jovens a irem embora, renovações de equipamentos sem resposta porque ‘não há cabimentação orçamental’ e decidi sair”, explica Caseiro Alves. O também presidente da Sociedade Portuguesa de Radiologia e Medicina Nuclear, não tem dúvidas no diagnóstico: “Os equipamentos estão velhos, são insuficientes, não garantem uma boa prestação clínica e a lista de espera aumenta, a capacidade está esgotada e é um problema gravíssimo.”

Em Coimbra, um doente internado chega a esperar sete dias para fazer um exame e “isto não pode acontecer”. As consequências da falta de equipamento só não são desastrosas porque “em Portugal conseguimos conjugar muito bem o verbo desenrascar e os doentes acabam por ir fazendo os exames”, ironiza Caseiro Alves. A solução requer dinheiro, mas também mais médicos e melhor organização.

O valor do investimento para equipar devidamente o SNS está por apurar, mas só na unidade de Beja, por exemplo, um aparelho de TAC, um raios-X convencional e um portátil, dois ecógrafos e uma estação digital de mamografia têm um custo previsto de quase 1,3 milhões de euros. “São precisos fundos comunitários, planos de utilização de equipamentos e responsabilização e isto consegue-se com reorganização”, diz o gestor Alexandre Lourenço.

O ministro tem prometido soluções e em 2017 terá mais 353 milhões de euros do que este ano. “Os contratos-programa serão reforçados de modo a permitir retomar uma estratégia de recuperação e de desenvolvimento dos meios técnicos disponíveis, com particular enfoque no interior do país, e sempre que aplicável feito recurso aos fundos comunitários”, adianta o gabinete de Adalberto Campos Fernandes. No plano organizativo, “será possível a criação de Centros de Responsabilidade Integrada que permitirão dar respostas mais adequadas com modelos de incentivos ligados ao desempenho”. E, “finalmente, o lançamento dos novos equipamentos hospitalares para uma modernização tecnológica sem precedentes”.

Durante a audiência desta segunda-feira no Parlamento, o ministro da Saúde anunciou um plano para renovar os equipamentos disponíveis no SNS. "Vou anunciar até ao final do ano um plano de reequipamento do SNS com um plano de financiamento, com recurso a fundos comunitários", revelou Adalberto Campos Fernandes. O investimento "será temporizado para três anos e no final de 2019 teremos condições para renovar a plataforma tecnológica do SNS, ajustando-a às necessidades dos portugueses".

[ Atualização do texto publicado na edição do Expresso do dia 12 de novembro de 2016 ]