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A “Malinha do Chiado”, a roubar carteiras desde os 13 anos com grande arte e empenho

RETRATO-ROBÔ. Maria Duarte, retrato feito a partir de uma foto antiga

Começou a roubar aos 13 anos e foi ganhando experiência e... dias de cadeia. Todas a conheciam por a "Malinha do Chiado" e foi precisamente essa fama que a tramou. Um agente desejoso de mostrar serviço resolvia os casos prendendo-a, fosse ou não culpada. Este é o nono capítulo da segunda temporada da série “Crime à Segunda”

Anabela Natário

Anabela Natário

texto

Jornalista

João Roberto

João Roberto

ilustração

Motion designer

A Malinha do Chiado, Maria Duarte ganhou esta alcunha por desempenho profissional. Era muito maneirinha a meter a mão em mala alheia e tirava-a com tanta ligeireza que a vítima dava pelo roubo quando já não havia rasto da gatuna. Criou fama entre os 13 anos e os 17 de idade, ao ser presa onze vezes. Só uma por mendigar, as restantes foram por furto ou tentativa. Ou porque a polícia já a conhecia. Se muitas vezes roubou, algumas terá ido parar aos calabouços do governo civil de Lisboa, entre 1912 e 1916, mais pela fama do que pelo proveito.

Delmira de Lima e Maria Adelaide Coelho da Cunha andavam pelo Chiado às compras quando tiveram o azar de se cruzar com uma mão leve que as despojou de uns brincos de brilhantes, avaliados em 300 escudos, e de sessenta escudos em dinheiro. O contrário também pode ser válido. Maria Duarte andava na sua vida de carteirista quando, entre toda aquela gente que apreciava as mercadorias dos armazéns do Grandella, logo havia de meter a mão nas malas de duas mulheres bem conhecidas da sociedade lisboeta dos primeiros anos da República.

Maria Duarte começou por ficar satisfeita. O valor dos brincos quando empenhados mais o dinheiro vivo surripiado representavam uma boa maquia. O que não contava era que a sua fama, ao contrário do que acontece noutras profissões, lhe dificultasse o negócio. Uma miúda que estava nos armazéns inaugurados na última década do século XIX por Francisco de Almeida Grandella, empresário inovador, 'bon vivant' e republicano, acompanhou as duas mulheres à polícia e disse que vira uma rapariga “ainda nova, em cabelo, envolta num grande xaile e levando uma criança ao colo”, segui-las durante um bom pedaço.

Apesar da descrição poder assentar em inúmeras mulheres que andavam por Lisboa neste ano de 1915, a polícia logo concluiu tratar-se de uma larápia com um “largo cadastro”, há já bastante tempo sua conhecida, muito embora contasse apenas 16 anos de idade. “Os sinais desta criatura condizem com as da já célebre gatuna Maria da Conceição, a Malinha do Chiado, especialista em roubos semelhantes e muito hábil no seu cometimento”, contará o jornal “O Século” a 13 de fevereiro de 1915, dois ou três dias depois do furto.

Desconfiando que a podiam ter identificado e, provavelmente, porque o produto do 'desvio' era jeitoso, a Malinha do Chiado logo se pôs a milhas dali e dos restantes locais que costumava frequentar, procurando refúgio onde já muitas vezes se safara. Todavia, não contou com um novo agente na polícia de investigação criminal, desejoso de mostrar serviço. Alfredo Maria, antigo sargento ao serviço dos tribunais militares, conhecia a sua história, sabia que ela mantinha “relações intimas com certo gatuno” preso no limoeiro, e resolveu ir procurá-la a casa do pai do namorado, no pátio de D. Fradique.

O polícia acertara em cheio na sua suposição, mas não topou logo com a suspeita, acabando por descobri-la, depois de vasculhar o pátio situado na cerca do castelo de São Jorge, junto ao Palácio de Belmonte, escondida nuns molhos de lenha. Nesta altura, Maria Duarte, a um mês de completar os dezassete anos de idade, tem um filho pequeno, talvez do seu namorado, profissional do mesmo ramo, cujo nome não se encontra nem nos jornais nem no processo da polícia, que levará consigo para a cadeia, mas ao qual não haverá referência na próxima vez que a Malinha do Chiado for presa.

Assim, dois dias depois de ter roubado a mulher do vereador da Câmara de Lisboa e membro do Partido Evolucionista, Zacarias Gomes de Lima, e a mulher do diretor do “Diário de Notícias”, Alfredo da Cunha, a experiente gatuna Maria Duarte, ou Maria da Conceição ou Maria da Silva como também dizia chamar-se, era levada para o Governo Civil pelo agente Alfredo Maria que assinará um auto garantindo que a “Malinha do Chiado” confessou ter metido a mão nas carteiras das duas respeitáveis senhoras. Por isto, recolherá com o filho ao calabouço onde se encontravam as mendigas, presas ao abrigo de uma da lei contra a mendicidade, que surgiu no ano de nascimento da jovem ladra.

Na cela destinada às pedintes, já tinha estado algumas vezes, uma delas quando tinha 14 anos e acabou por ser remetida para a tutoria, por onde andava desde que fora apanhada a primeira vez, a 19 de março de 1912. Apesar de fornecer dados diferentes sempre que a polícia a detinha, o seu acento de batismo atesta que nasceu no dia 4 de junho de 1899, na freguesia da Lapa, filha de José Francisco Duarte, operário, e de “mãe incógnita”, uma expressão de encobrimento de algum caso de adultério ou com uma mulher de boas famílias ou impedida de assumir a maternidade por outra razão qualquer como, por exemplo, ser freira, o que pode ser uma hipótese já que na rua das Trinas havia um convento.

FILHA DE MÃE INCÓGNITA, COMO CAMILO OU EÇA DE QUEIRÓS

Pelo nascimento, Maria Duarte tem um ponto em comum com os escritores Camilo Castelo Branco e Eça de Queirós: são todos filhos de “mãe incógnita”. O primeiro terá sido assim registado, em 1825, por vontade do pai e do avô, dado a mãe, filha de pescadores, pertencer a uma classe muito inferior às dos Castelo Branco; o segundo ganha essa expressão no registo, em 1845, por sua mãe e seu pai, o magistrado José Maria Teixeira de Queiroz, não se encontrarem casados e por Carolina Augusta Pereira de Eça, de uma família de militares, se recusar a fazê-lo até o filho ter quatro anos.

Apresentada a 16 de fevereiro ao 1.º juízo criminal, negou a confissão, todavia o juiz acusou-a de dois crimes de furto, estipulando uma fiança de mil escudos. O produto podia ter rendido, mas não tanto, daí que fosse mais uma vez passar uma temporada ao Aljube, a cadeia reservada às mulheres, muito perto da do Limoeiro, por não conseguir pagar a caução que lhe daria liberdade até ao dia do julgamento. Talvez a Malinha do Chiado estivesse a perder o jeito com a idade, mas desta vez parece que o problema foi o de se envolver num caso mediático, com um agente que terá tendência a prendê-la cada vez que alguém se queixar de ter sido roubado por uma rapariga sem lenço.

Por esta altura, é famosa, de facto, até o intelectual Júlio Dantas a menciona na sua crónica na revista “Ilustração Portuguesa”. O médico, jornalista e escritor, que há de ser ministro, com alguma ironia, mas da qual sobressai o pensamento mais conservador da época, mostra-se admirado com as mudanças na gatunagem. “Nós estávamos costumados a ser roubados por ladrões. Vejo agora, com manifesto agrado, que começamos a ser roubados por ladras”, escreveu especificando: “Dantes, os gatunos de golpe, de mosco, de desriçado, e outros profissionais ilustres da arte de furtar, eram homens de barba na cara. Agora, são mulheres, mais ou menos bonitas, mais ou menos novas, mais ou menos intactas, mais ou menos mulheres, - mas mulheres, enfim”.

“Seria precisa muita má vontade, para não reconhecer neste facto uma afirmação de progresso. Já muitos gatunos se tinham lembrado de pôr ao serviço do roubo a gazua, o escopro, o pé de cabra e a chave falsa; nenhum se lembrará ainda de utilizar a mais terrível arma de que pode servir-se o furto: a sedução. Ora eu não conheço, felizmente, as qualidades de sedução e de encanto de que podem dispor a 'Trailheira' ou a 'Maria Rapaz', a 'Elvira da Facada' ou a 'Malinha do Chiado', mas não me repugna acreditar que terão a voz muito mais doce, a pele muito mais fina e a mão muito mais leve do que o cão ladrilho ou o capoeira o. E que demónio! - se sempre temos de ser roubados, que o sejamos, ao menos, o mais agradavelmente possível”, rematava o homem que soube estar com deus e com o diabo, apesar de atacado pelos seus pares mais rebeldes à época, como o pintor e escritor Almada Negreiros que lhe dedicou o “Manifesto anti-Dantas”.

A VÍTIMA SERÁ UMA VÍTIMA MAIOR DAÍ A TRÊS ANOS

O colunista conhecia, com certeza, as duas vítimas mais recentes da “Eva gatuna”, como titulou a menção à Malinha do Chiado, mas conheceria especialmente Maria Adelaide Coelho da Cunha, filha do fundador do “Diário de Notícias” Eduardo Coelho e que, três anos após o assalto, com 48 de idade, há de ser considerada doida e protagonista de uma série de artigos de jornais. Um escândalo que fará com que o seu marido Alfredo da Cunha abandone a direção do matutino lisboeta e venda a respectiva empresa com que ficara por morte do sogro, numa altura em que para herdar bens era melhor ser genro de homem rico do que filha.

Em 1918, toda a Lisboa saberá que a mulher do diretor do “Diário de Notícias” fugira com o motorista, um rapaz da idade de seu filho, 26 anos, e que o marido despedira dias antes, já desconfiado… O caso tomará proporções inéditas, já que Alfredo da Cunha tentará tudo contra a mulher, para não perder a honra e a fortuna do sogro, inclusive o internamento num manicómio, como se dizia do estabelecimento hospitalar destinado a doentes mentais. Mas pela altura do roubo nos armazéns que imitavam as grandes lojas francesas, Maria Adelaide ainda não tinha o rotulo de doida nem andava a esgrimir argumentos contra o marido nos jornais, através dos quais ele também a atacará.

Em 1915, era “a esposa do sr. dr. Alfredo da Cunha”. Ela e “a esposa do vereador” apareceram nos jornais como vítimas de roubo de Maria Duarte. Esta última é a “vedeta”, todos lhe conhecem a alcunha, fora presa pela nona vez por meter a mão em carteira alheia. Passado pouco mais de um mês, mal conseguiu sair em liberdade, estava de novo a ser presa por suspeita de furto, acusação sem consistência que lhe valeu a soltura até o agente Alfredo Maria lhe arranjar outro processo, com base numa queixa difusa sobre o furto de malas numa igreja da baixa de Lisboa.

FOI ELA MAS NINGUÉM A VIU. TESTEMUNHAS CONTRARIAM AGENTE DA POLÍCIA

Depois dessa entrada e saída do Governo Civil, em abril de 1915, Maria Duarte que, muito embora se intitule costureira para os registos, não conhecerá outro meio de subsistência ao não ser o furto, voltará a ser presa em junho, acusada de um roubo cometido a 29 de maio na igreja de Santiago. O que se passou? Elisa Júlia de Castro Ferreira, Adelaide Ferreira de Brito e Maria da Piedade Santos Viegas encontravam-se no interior do templo católico quando deram por falta do dinheiro que traziam na mala de mão. E, as três, juntamente com o empregado da igreja, ao queixarem-se à polícia dirão suspeitar de que a autora do roubo fosse uma mulher que tinha por alcunha a Malinha do Chiado, isto conforme a polícia registou, já que as contradições ao longo da instrução do processo deixam muitas dúvidas.

O auto de notícia é levantado a 4 de julho, doze dias depois, interrogada, Maria Duarte dirá que nunca entrou naquela igreja e negará “terminantemente que tivesse furtado qualquer importância às queixosas”, ou seja, 65 escudos a Elisa Ferreira e dez centavos a Adelaide de Brito, já que a Maria da Piedade Viegas teria apenas tentado. “Sentiu mexer na mala que trazia na mão, vendo ainda a arguida tirando a mão de dentro da mala, na qual tinha dentro 20 centavos”, refere a polícia, porém, esta, quando voltar a depor, afirmará não poder dizer que foi a Malinha do Chiado a autora dos outros furtos, mas que avalia a tentativa em 20 centavos.

A 13 de julho, o agente Alfredo Maria prendeu a rapariga. Perante a negação da suspeita, redige um oficio para o juiz, no qual afirma que Maria Duarte tinha sido reconhecida no governo civil pelas queixosas. Mas estas terão o mesmo comportamento de Piedade Viegas, mais tarde contrariarão os depoimentos, portanto, ou mudaram de ideias ou alguém falou por elas, hipótese mais viável, já que são perentórias na negativa quando prestam declarações para o auto de perguntas. Só a criada de uma das vítimas, Maria do Espírito Santo Moreira, afirmará ter visto a suspeita na igreja, acrescentando contudo que “não a viu praticar qualquer furto”.

E Maria Duarte que, nesta altura, se diz moradora na rua Velha da Alfândega, na zona de Belém, longe do seu poiso habitual em Alfama, se afirma doméstica, casada e com 17 anos, dá, de novo, entrada o Aljube. Desta vez, não se safará tão depressa. A fiança passou para quatro mil escudos... Desde o 13 anos que roubava e nunca se vira numa alhada destas. O processo irá prolongar-se pelo ano de 1916, as entidades judiciais tentarão voltar a ouvir as testemunhas que, entretanto, mudaram de casa e uma delas de país... Será libertada a meio do ano e tudo se repetirá até ser degredada para África, onde terá morrido.

“De um bilião e setecentos milhões de habitantes, população total do globo, novecentos e quatro milhões trezentos e noventa e seis mil estão em guerra, setecentos e noventa e cinco milhões seiscentos e quatro mil em paz”, é neste tempo de grandes dificuldades e fome que se passou a história de a Malinha do Chiado, como lembrava “A Capital” a 15 de junho de 1915. A 11 de novembro de 1918, terminava aquela que foi considerada na altura a Grande Guerra, mais tarde Primeira Guerra Mundial.