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O dilema da maternidade

ilustração helder oliveira

Os ventos são de mudança e favoráveis às mulheres na política. Mas para chegar ao topo é preciso equacionar a questão dos filhos. A sociedade ainda espera que elas sejam mães

Carolina Reis (Texto), Helder Oliveira (Ilustração)

A época era de muita turbulência. Cinco anos de democracia, uma intervenção do Fundo Monetário Internacional e dois Governos de iniciativa presidencial. O país saía da penúria do fascismo com a incerteza e os desafios que as revoluções costumam trazer. No verão de 1979, uma imagem rompia com tudo o que se tinha visto até então na política portuguesa. No Palácio de Belém, uma lufada de ar fresco. Pela primeira vez uma mulher chefiava um executivo. Maria de Lourdes Pintasilgo, de vestido, destacava-se no meio dos 17 homens que a partir daquele dia seriam seus ministros. A fotografia era rara, iria correr o mundo e ficar para a história.

Engenheira de profissão, católica empenhada na defesa dos Direitos Humanos, feminista. Na altura, o Expresso descreveu-a de outra forma. “Uma força da natureza” como muitos a consideravam — solteirona, de “pelo na venta, rapidíssima a equacionar problemas e a propor-se a resolvê-los”, escreveu o jornal a um de julho, antecipando a nomeação. A responsabilidade de chefiar um Governo, ainda para mais numa época conturbada, só parecia possível para uma mulher se ela não tivesse filhos e pudesse, assim, estar concentrada nos desígnios do país. “É uma personagem inspiradora e gerou muito debate sobre as desigualdades e sobre as mulheres não estarem na política. Tem uma consciência feminina e feminista muito forte. É uma afirmação do poder no feminino. Na época, mostra que mais uma barreira foi ultrapassada e que nada está vedado às mulheres. Sabemos agora que a sociedade não andou tão depressa”, afirma Carla Martins, investigadora e autora da obra “Mulheres, Liderança Política e Media”.

Já ninguém a descreve como solteirona. Pintasilgo ficou para a História como a primeira mulher a ocupar o cargo de primeira-ministra e a primeira a candidatar-se à Presidência da República, em 1986. Desde esta data, Portugal teria de esperar 23 anos para ter uma mulher candidata a primeira-ministra e 30 até outras duas tentarem ser eleitas Presidente da República. Pintasilgo deixa o exemplo e a imagem de uma mulher que se dedicou, totalmente, às suas causas. Uma pessoa cuja dimensão pessoal se confunde com a pública. “Teria chegado a onde chegou se tivesse tido filhos? Isso é algo que não sabemos”, continua Carla Martins. A pergunta atravessa as suas biografias sem resposta e, afinal, o telhado de vidro (uma barreira invisível que impede as mulheres de ascenderem a cargos de topo) não se quebraria aí.

Trinta e sete anos depois, uma nova fotografia simboliza, de novo, o fim do telhado de vidro. À porta da Bute House, residência oficial da chefe do Governo escocês, Nicola Sturgeon, primeira-ministra da Escócia, e Theresa May, primeira-ministra da Inglaterra, apertam as mãos. As duas estão em lados opostos da ideologia. Uma defende a independência dos Estados que compõem o Reino Unido, a outra quer mantê-lo como uma unidade. Uma negoceia para ficar na União Europeia, a outra lidera o processo de saída. Este encontro entre as duas, em julho, terá sido duro.

Apesar das enormes diferenças que as separam, as duas líderes sabem o peso que o seu género encerra naquela fotografia. É simbólico. E poderoso. “Política à parte, espero que todas as jovens raparigas espalhadas pelo mundo olhem para esta fotografia e acreditem que nada lhes está interdito”, escreveu a líder escocesa no Twitter depois do encontro. Uma mensagem que foi partilhada mais de trinta mil vezes. Há algo mais que as une, além do poder. Tal como Maria de Lourdes Pintasilgo, May e Sturgeon não têm filhos. No topo da liderança política não são casos únicos. A chanceler Angela Merkel, a Presidente sul-coreana, Park Geun-hye, e Julia Gillard, ex-primeira-ministra da Austrália, são também disso exemplo. “Ser mãe é uma característica atraente mas também reforça os estereótipos de género. Os eleitores mostram ansiedade sobre o trabalho de uma mulher no cargo, questionando-se sobre quem estará a tomar conta dos filhos”, explica Erin Souza-Rezendes da Barbara Lee Family Foundation, uma organização norte-americana dedicada a capacitar as mulheres para cargos políticos.

E entre estas mulheres há ainda outro traço em comum: todas tiveram que justificar, publicamente, as suas opções. Um pormenor da vida íntima e pessoal que é usado para as definir, tornando-se o equivalente à expressão ‘solteirona’ com que o Expresso descreveu Pintasilgo. Uma curiosidade que se tornou assunto noticioso, aguçado pela insistência dos jornalistas. Ao longo das suas vidas públicas, Sturgeon, May e Merkel foram questionadas sobre o facto de não serem mães. O que levou Sturgeon, antes de ser eleita, a irritar-se numa entrevista por considerar a pergunta sexista. Ninguém pergunta aos homens por que motivo não tiveram filhos, ou porque os tiveram próximo dos 40 anos, ou sobre a forma como conciliam a paternidade com a atividade política. “Eu percebo porque me fazem essa pergunta, mas acho que é apenas uma daquelas coisas em que se nota a diferença de tratamento entre homens e mulheres na política. A um homem nunca perguntam sobre a roupa ou o cabelo ou qualquer outra coisa”, disse a líder escocesa.

Os filhos continuam a ser um assunto das mulheres. A maternidade ainda é o que as define. “Perguntar a uma mulher porque não tem filhos — seja na política, seja em qualquer outra área — resulta de um preconceito, a saber, da ideia de que todas as mulheres são definidas pela maternidade, como norma, e que não ter filhos é ‘um desvio à norma’ que necessita de explicação e mesmo de justificação. A mesma pergunta não se coloca aos homens que não têm filhos, porque a paternidade não define a masculinidade. As pessoas que fazem a pergunta não têm consciência da maneira como têm o pensamento formatado entre o que é ‘normal’ e o que é ‘desvio’; nunca pararam para pôr a pergunta ao contrário: porque é que têm filhos as mulheres que os têm?”, explica Adriana Bebiano, diretora do programa de doutoramento em Estudos Feministas da Universidade de Coimbra.

Um artigo do “Sunday Times” deste ano — a propósito de um livro sobre a vida de Nicola Sturgeon no qual esta explicava a razão de não ter tido filhos — juntou todos os líderes que estavam na mesma condição. Porém, os “childless politicians” (políticos sem filhos) só incluíam mulheres. “Também sou um político sem filhos. Mas parece que por ser homem isso não interessa”, disse Chris Elmore, deputado do Partido Trabalhista. A líder conservadora escocesa, Ruth Davidson, também incluída no artigo, considerou-o grosseiro.No livro “Scottish National Party Leaders” (“Líderes escoceses do Partido Nacionalista”), publicado em setembro, a primeira-ministra escocesa falou sobre o aborto espontâneo que teve aos 40 anos e assumiu que nem sempre a maternidade é uma escolha simples para as mulheres. “Disse a Mandy Rodes [jornalista e autora do livro] para fazer referência ao que me aconteceu na esperança de que poderia desafiar algumas das premissas e julgamentos que ainda são feitas sobre as mulheres — especialmente na política — que não têm filhos.”

Tal como Pintasilgo, a questão se tivesse sido mãe teria chegado onde chegou irá também ficar sem resposta. “Há muitas razões pelas quais as mulheres não têm filhos. Algumas, simplesmente, não querem. Outras preocupam-se com o impacto sobre a nossa carreira — ainda há muito a fazer, através de uma melhor assistência à infância, trabalho mais progressivo, práticas e atitudes mais esclarecidas, para ter certeza que nós não sentimos que temos de escolher. E, às vezes, por qualquer razão, ter um bebé apenas não acontece, não importa o quanto queremos. Como para muitas mulheres, todas essas coisas foram verdade em diferentes momentos da minha vida. O meu ponto é que julgamentos e premissas não devem ser feitos sobre o que são escolhas pessoais e experiências.”

Também Theresa May abordou o assunto noutra entrevista. “Algumas coisas que desejávamos que tivessem acontecido não aconteceram. E há outras que gostaríamos de ter feito, mas não fizemos.” Já a chanceler alemã — que os alemães tratam por mãezinha — prefere evitar o assunto. Fonte oficial do Governo federal da Alemanha disse ao Expresso que todas as respostas a essa pergunta estão respondidas no livro “Das Merkel Lexicon”. “Foi simplesmente algo que não aconteceu.”

Conciliar e partilhar

Se fazer a pergunta da conciliação é sexista, explicar os motivos torna-se necessário para mudar a mensagem que se passa às jovens gerações. A de que nada lhes está impedido para poderem fazer política e chegar aos lugares de topo. A de que a maternidade não tem de ser dada em troca de nada. “Um estudo recente que fiz às jovens finalistas do ISEG, da área de Gestão, apontava que 87% manifestavam o desejo de serem mães. Ora, se confrontadas com a perceção que há sectores de atividade ou contextos organizacionais onde a carreira profissional exige abdicar desse projeto pessoal, é provável que venham a cercear as suas aspirações profissionais e/ou a encaminhar-se para outros domínios, mesmo que estes se apresentem menos desafiantes, menos adequados às suas qualificações e ao seu desempenho académico”, conta Sara Falcão Casaca, professora do ISEG e especialista em questões de igualdade de género.

Os ventos correm de feição para as mulheres. Hillary Clinton está à beira de se tornar a primeira mulher Presidente nos EUA, liderando a corrida com a ajuda preciosa do voto feminino. Houve um lóbi para eleger uma mulher secretária-geral das Nações Unidas. Alemanha, Polónia, Noruega, Escócia, Inglaterra e Coreia do Sul são liderados por mulheres conhecidas pelas posições fortes. Portugal tem duas mulheres líderes de partidos políticos. Parece que está tudo bem. Mas não está. Uma sondagem recente da União Interparlamentar, que falou com deputadas de todo o mundo, revelou que não é bem assim. A vida política ainda é mais difícil para as mulheres, em especial para as solteiras. No decorrer dos mandatos, 44% receberam ameaças de morte, de violação, violência física ou rapto; um quinto foi vítima de assédio sexual; 80% sofreram violência psicológica; 22% violência sexual; 25,5% violência física; 32,7% violência económica e 65,5% foram alvo de comentários sexistas humilhantes.

O exemplo de Sturgeon, em vir a público contar um pormenor tão íntimo da vida pessoal, é simbólico, tenta virar a página. Este é o momento em que as mulheres estão a aprender a viver uma vida pública, sendo elas o centro das atenções. E isso também expõe como a questão do equilíbrio entre vida pessoal e laboral tem sido um assunto sob a responsabilidade das mulheres. Numa época em que os direitos formais já estão consagrados na lei, é delas que se tem esperado uma dupla jornada, que acrescenta o trabalho doméstico ao profissional. É delas que se espera que não fiquem até tarde nas reuniões partidárias porque o fim do dia é hora de fazer o jantar, dar banho às crianças e pô-las a dormir. Os maridos, se forem cooperantes, dão uma ajuda. Até agora, argumentava-se que as reuniões partidárias não poderiam demorar até tão tarde, pois isso afastaria as mães. O paradigma mudou. Defende-se a partilha de tarefas.

Este modelo com que fomos vivendo nos últimos 30 anos fez com que muitas mulheres tivessem de escolher entre a vida pessoal e política. Um estudo feito no Reino Unido, em 2013, mostrava que 45% das deputadas não tinham filhos, comparando com 28% dos homens. Entre os que tinham, existia também uma diferença nas idades. A média para os filhos mais velhos dos homens era de 12 anos e de 16 para as mulheres. Além da discriminação de género, isso provocou também uma falta de representatividade de mães na política. “A assimetria simbólica, que atravessa a ideologia de género, parece ser um dos maiores obstáculos à entrada das mulheres na política e à sua permanência nesse mundo, porque mesmo quando as mulheres conseguem entrar na política, a assimetria permanece”, explica Maria Helena Santos, investigadora no Instituto Universitário de Lisboa.

Em Portugal não se conhecem estudos semelhantes ao britânico. Os números da participação das mulheres na vida política aumentaram desde 2006, ano em que entrou em vigor a lei da paridade que obrigou os partidos a terem uma representação mínima de 33,3% de cada um dos sexos nas listas para a Assembleia da República. “Tem aumentado a presença feminina. Neste momento temos uma representatividade de 34% na Assembleia da República. No Governo de António Costa há uma participação feminina de 33%, entre ministras e secretárias de Estado”, afirma Carla Martins. É a primeira vez que tal acontece. Mas se para o Parlamento se cumpre o princípio da igualdade, quando se trata de escolher posições de chefia, como os membros do Governo, os homens ganham vantagem. Há mais ministros do que ministras, outro telhado de vidro. “Nos lugares de topo, como a mesa da Assembleia da República, as presidências das comissões parlamentares, as câmaras municipais e os ministérios, percebemos que ainda estamos num patamar de desequilíbrio e desigualdade muito evidente”, sustenta Carla Martins.

O topo da carreira política e a maternidade não se conciliam facilmente. “As mulheres ainda têm de enfrentar os chamados ‘penhascos de vidro’, devido à dupla pressão normativa a que estão sujeitas, e os ‘tetos de mãe’. Neste contexto, muitas vezes, as mulheres acabam por sucumbir, não permanecendo na política muito tempo. Esta assimetria coloca-as numa situação de desvantagem, em comparação com os homens, tanto em relação ao emprego, como à participação cívica, devido a uma maior dificuldade em conciliar ambas as esferas”, reforça Maria Helena Santos, autora de vários estudos sobre igualdade de género.

Mães e ministras

Duas das mulheres que furaram o telhado de vidro — Maria de Lourdes Pintasilgo e Assunção Esteves, presidente da Assembleia da República – não tiveram filhos. Manuela Ferreira Leite, líder de um partido de poder e candidata a primeira-ministra (com hipóteses de ganhar), atingiu o pico da carreira política quando os filhos já eram adolescentes. A antiga líder do PSD, mãe três vezes, esteve sempre na política recusando a discussão sobre o género. “Politicamente não se apresenta com uma imagem muito feminina. É como se estivesse a anular a sua feminilidade para estar nestes cargos, tendo de se apresentar de uma forma neutra. É uma personalidade agressiva, não é simpática, veste se de uma forma conservadora”, define Carla Martins.

A única mulher líder de um partido grande em Portugal ajustou-se ao que considerava ser a norma de desempenho de cargos políticos. Acabou por não ser uma imagem de inspiração para outras mulheres como poder no feminino. A verdade, no entanto, é que não deixa de ser uma mulher. “Na campanha de 2009 é salientado pelos jornais, em pequenas notas de reportagens, a identificação e cumplicidade de mulheres mais velhas com Manuela Ferreira Leite. Ela não projeta essa feminilidade mas consegue arranjar essa identificação”, frisa Carla Martins.

O voto feminino é um segmento eleitoral de que os partidos se começaram a aperceber. “Votem em mim porque eu sou mulher e, por isso, sei o que é importante para as mulheres. E o que é importante para as mulheres é importante para a América”, disse Hillary Clinton durante as primárias democratas.

Ter filhos pequenos e engravidar enquanto se exerce um cargo político ainda é notícia. Foi assim com a gravidez de Carme Chacón, ex-ministra da Defesa de Espanha durante o Governo de Zapatero. A sua imagem grávida de sete meses a passar a revista às tropas no Afeganistão foi outra das fotografias que correram o mundo. Haveria de dizer, numa entrevista à revista “Yo Dona” do “El Mundo”, que queria que a sua gravidez servisse para discutir as condições de trabalho das grávidas. A ex-ministra dividiu a licença de maternidade com o marido, de acordo com a lei das 16 semanas apenas seis são obrigatórias paras as mães. Já Soraya Sáenz de Santamaría, vice-primeira-ministra de Mariano Rajoy, foi trabalhar dez dias depois de dar à luz, o que lhe valeu críticas de mau exemplo de conciliação e de não defender os direitos das mulheres, nomeadamente o da maternidade. Também Rachida Dati, ex-ministra da Justiça de Nicolas Sarkozy, se apresentou ao trabalho cinco dias depois de ter tido o filho de cesariana. Disse mais tarde que teve “medo” de ser “afastada” do cargo. No Parlamento Europeu outras duas fotografias simbolizam a história, mas não a de que o telhado de vidro se quebrou. Primeiro foi Hanne Dahl, eurodeputada dinamarquesa, a votar com a filha ao colo, depois a italiana Licia Ronzulli, a trabalhar com a filha deitada no colo.

Todas estas imagens colocaram a conciliação de tarefas no centro da discussão. É de salientar a relevância do fator socioeconómico para que as mulheres consigam permanecer na política. “As deputadas admitem necessitar de diversos apoios ao nível privado para que consigam ter uma maior disponibilidade para a política, o que seria impossível se tivessem um estatuto social baixo. Esta estratégia é comum noutros contextos. Aliás, já foi mostrado que o recurso às empregadas domésticas é uma solução, ao alcance dos casais de nível socioeconómico mais elevado, que ajuda, nomeadamente, a evitar o conflito e a negociação quanto à distribuição das tarefas domésticas”, salienta Maria Helena Santos. Ou seja, primeiro fica de fora a maioria das mulheres, depois as mães vão ficando pelo caminho até ao topo, resistindo as que têm maior poder económico.

Assunção Cristas e Catarina Martins protagonizam outra ‘fotografia histórica’, a de termos em Portugal duas mulheres líderes partidárias em simultâneo. A primeira de cada um dos seus partidos a chegar ao lugar cimeiro da hierarquia máxima interna. Nas legislativas de 2019 teremos, pelo menos, duas mulheres candidatas a primeira-ministra. E as duas têm filhos. E as duas, apesar das muitas diferenças que as separam, não gostam que lhes perguntem como conciliam a maternidade com a posição de líderes. “Não escondo que sou mãe. Mas acho que me deixaram de fazer essa pergunta porque devo ter respondido muitas vezes porque é não faziam essa pergunta também aos homens”, conta Catarina Martins. Enquanto a líder bloquista não surge com as filhas em público, Assunção Cristas teve os quatro filhos ao pé de si quando tomou posse no X Congresso do CDS/PP. Incluindo a mais nova, de três anos, que teve enquanto era ministra do Mar, sendo a primeira ministra portuguesa a engravidar durante o mandato. “Só a circunstância de se perguntar recorrentemente mostra que as crianças ainda são vistas como uma responsabilidade das mulheres. Para mim isso não faz sentido”, defende a líder centrista.

Igualdade de género, neste caso na política, não é só defender os mesmos direitos e oportunidades para as mulheres. Dá também aos homens a oportunidade de quebrar modelos que a sociedade espera deles, como o de abdicar, com frequência e com normalidade, das suas funções de pais. Quando teve o quarto filho, Tony Blair limitou as suas atividades políticas para se dedicar à família. David Cameron fez o mesmo quando nasceu a filha mais nova. Os dois subiram na popularidade depois de tal atitude.

Tim Kaine, candidato democrata à vice-presidência norte-americana, também pensou, recentemente, na importância de ser o suporte de uma mulher. “Estou na política há 22 anos, está é a minha nona corrida. Nas outras oito, era o meu nome que estava em destaque no boletim de voto, nos autocolantes, nos cartazes. E tive muitas mulheres fortes a apoiarem-me: diretoras de campanha, chefes de gabinete, e os eleitores eram mais mulheres do que homens. Lembro-me, quando a Hillary me convidou para ser o seu vice-presidente, de pensar na oportunidade que era não ser o número um. Vou ser o primeiro homem-forte a apoiar a primeira mulher a ser Presidente dos EUA. E por mais que isso seja importante para normalizar a ideia de que uma mulher pode ser Presidente, também é importante para normalizar a ideia de que homens-fortes podem ser o apoio de uma mulher líder.” Pode ser que daqui a três dias, os dois estejam a protagonizar outra fotografia histórica. Essa sim, irá correr mundo e quebrar um telhado de vidro.

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 5 de novembro de 2016