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Médico dos Comandos quer ser arguido no processo

No segundo dia do curso foram assistidos mais de 20 instruendos

gONÇALO ROSA DA SILVA

DIAP de Lisboa já ouviu o médico substituto e peritos do Instituto de Medicina Legal. Em breve haverá mais arguidos

O novo advogado do médico do 127.º curso dos Comandos quer que o seu cliente seja novamente ouvido pela procuradora Cândida Vilar, titular do inquérito às mortes dos instruendos Hugo Abreu e Dylan Silva no campo de tiro de Alcochete (Setúbal). Mas agora na qualidade de arguido. Ao Expresso, Paulo Sternberg, que defende o clínico Miguel Domingues desde 31 de outubro, é perentório: “Juntei procuração forense ao processo, requeri a célere constituição de arguido do mesmo e a tomada de declarações.”

O advogado não explica as razões pelas quais pretende que Miguel Domingues passe de testemunha a arguido, mas uma fonte do processo garante que esta decisão visa sobretudo dar a oportunidade ao médico para se defender junto do Departamento de Investigação e Ação Penal (DIAP) de Lisboa das notícias que o responsabilizam, total ou parcialmente, pela morte dos dois jovens militares de 20 anos no início de setembro.

O clínico, a quem o Expresso já pediu várias vezes para prestar esclarecimentos sobre o caso, está impedido de falar aos órgãos de comunicação social por imposição do Exército, que exige sigilo sobre o caso a todos os responsáveis do curso dos Comandos. Em todo o caso, já prestou declarações ao DIAP e investigadores da Polícia Judiciária Militar, logo no dia seguinte à morte do primeiro militar, Hugo Abreu. Mas como testemunha. “Negou qualquer tipo de atos negligentes ou de abuso de autoridade”, diz uma fonte ligada ao processo.

Durante aquele domingo, dia 4 de setembro (o segundo dia do curso mas o primeiro com treinos físicos), foram assistidos na tenda de campanha mais de 20 instruendos do curso, num dia em que as temperaturas em Alcochete ultrapassaram os 40 graus.

Os órgãos disciplinares da Ordem dos Médicos decidiram “abrir formalmente um inquérito” ao clínico. O médico visado, militar com a patente de capitão, poderá ser alvo de sanções pela Ordem que vão da simples advertência ao impedimento total do exercício da profissão.

Até ao momento, dois enfermeiros da equipa médica do curso dos Comandos são os únicos arguidos. Mas recusaram-se a prestar declarações à procuradora do processo durante o interrogatório de que foram alvo.

Médico substituto interrogado

Nos últimos dias, Cândida Vilar chamou o médico substituto do curso, como testemunha, para perceber alguns dos acontecimentos ocorridos na primeira semana do curso, durante a qual foram internados em hospitais perto de uma dezena de instruendos. Este clínico não estava presente no dia em que cerca de vinte instruendos foram assistidos na tenda médica do campo de tiro pelo médico-capitão responsável do curso, dois enfermeiros e dois socorristas. Mas terá tratado no Hospital das Forças Armadas pelo menos uma das vítimas com sintomas menos graves do “golpe de calor” e que, ao contrário de Hugo Abreu e Dylan Silva, conseguiu sobreviver.

Além deste clínico, também foram ouvidos no DIAP os peritos responsáveis pelas autópsias para explicar pormenorizadamente, e numa linguagem não técnica, as conclusões das perícias forenses aos corpos dos dois militares vítimas de um “golpe de calor”.

Na última edição, o Expresso revelou o resultado da autópsia a Hugo Abreu e ouviu especialistas, que revelaram a existência de uma “sequência de erros” no socorro: a não transferência imediata da vítima para um hospital, o uso de soro não adequado, a falta de reação à agudização dos sinais neurológicos e o arrefecimento insuficiente são as falhas apontadas.

Na autópsia são referidas ainda “lesões traumáticas recentes na cabeça, abdómen e membros” produzidas por um instrumento “de natureza contundente” que podem ter tido origem na instrução militar. Sem explicação fica a deteção de “material estranho nos pulmões”. Os médicos legistas descrevem-no como tendo “aspeto de grãos de arroz que submergem na água”, admitindo que seja “material de natureza alimentar já com alterações degenerativas”, o que poderia ter acontecido por aspiração do vómito registado.

A investigação quer apurar com mais detalhe as razões por que morreram duas pessoas e outras sobreviveram, sob as mesmas condições climatéricas, exigência física e racionamento de água. Saber a quantidade e o tipo de soro disponível em Alcochete, as razões da falta de refrigeração da tenda médica ou da ausência do médico responsável pelo curso ao final da tarde, quando o estado de saúde dos dois instruendos se agravou. Em cima da mesa está a hipótese de toda a cadeia de comando do curso (desde o médico a altas patentes do Exército) vir a ser constituída arguida.

[artigo corrigido às 10h41 de 15 de novembro]