Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

Ílhavo: centros culturais vêm abaixo e semeia-se a cultura do dia-a-dia

D.R

Nasce no município de Ílhavo um projeto único para agregar os vários equipamentos culturais da cidade e torná-los menos institucionais. “23 Milhas” é uma nova e estimulante forma de olhar a cultura

Em Ílhavo a ideia não é destruir, mas antes reconstruir um nova e estruturada forma de pensar a cultura. Num município rico em história e onde a arte se assume com um pilar estruturante, nasce o arrojado projeto “23 Milhas” que fomentará a articulação entre quatro equipamentos culturais da cidade e vem dar uma unidade multidisciplinar à oferta e programação artística. O objetivo é criar um farol que olhe a cultura a 360º, não apenas para lhe dar palco, mas para promover o nascimento de ideias e proporcionar encontros. Está lançada, a partir deste sábado, a semente para uma cultura do dia-a-dia.

Quatro espaços, quatro focos de luz ao serviço de um único projeto cultural para a cidade. O Centro Cultural de Ílhavo passa a designar-se “Casa da Cultura”, o Centro Cultural da Gafanha da Nazaré transforma-se na “Fábrica das Ideias”, o Teatro da Vista Alegre é rebatizado de “Laboratório das Artes” e, por fim, no Centro Socio-Cultural da Costa Nova nasce o “Cais Criativo”.

Luís Ferreira, diretor do “23 Milhas” e responsável por esta implosão das fronteiras criativas, explicou ao Expresso que “estamos na era do pós centro cultural” e que havia na cidade uma “overdose” de equipamentos a necessitar de organização. “Estavam todos a fazer mais ou menos o mesmo. Era obrigatório fazermos esta alteração, até por uma questão de otimização de recursos”.

Um farol cultural com quatro de focos de luz

23 milhas é o alcance luminoso do Farol da Barra, um dos principais símbolos do concelho, e serviu de mote a esta ideia de iluminar e repensar a criação artística através de um projeto invertebrado e que se desdobra em quatro espaços com diferentes valências. “Trabalham para as diferentes fases da criação, são complementares e dão uma noção de unificação”, assegura Luís Ferreira, que destaca a “pertinência local e nacional” desta nova forma de pensar a cultura no município. Música, artes visuais, dança, teatro, arquitetura, design, cinema e muito mais estarão cobertos neste foco do “23 Milhas”.

A nova “Casa da Cultura” terá como funções trazer o mundo até Ílhavo e colocar a concelho no roteiro nacional, com uma programação eclética e multidisciplinar. Através de um conjunto de redes e parcerias que se pretende atrair, o município espera trazer até esse espaço cultural o que de melhor se faz no mundo da música, dança e teatro. Este sábado à noite, pelas 23h, sobem ao palco os Deolinda. Destaque ainda para os concertos de António Zambujo, a 18 de novembro, pelas 21h30, e da banda “You Can’t Win, Charlie Brown”, no dia 3 de dezembro, pelas 22h.

O “Laboratório das Artes” será um espaço de excelência para o pensamento, pesquisa e experimentação, com vários ateliers que estarão ao serviço de uma fase mais embrionária da cultura. Dotado de ótimas instalações, o até agora chamado Teatro da Vista Alegre será o epicentro do lado invisível da cultura e da exploração criativa. No entanto, também haverá lugar a espetáculos, com enfoque para a atuação do guitarrista português Filho da Mãe, a 3 de dezembro e culminar um ciclo dedicado a concertos de cordas.

A “Fábrica das Ideias” será um local de produção constante, mas também de exibição, com um esplendoroso auditório com capacidade para 377 pessoas. Pretende-se que no antigo Centro Cultural da Gafanha da Nazaré entrem ideias e saiam projetos artísticos consolidados e prontos para exportar para o mundo. As instalações estão vocacionadas para receber artistas em residência e oferecem condições capazes de fazer inveja a qualquer equipamento cultural de uma grande cidade.

O “Cais Criativo” será o mais informal destes quatros espaços em que a cultura não se quer institucionalizada. Localizado junta à praia e com uma arquitetura deslumbrante, a sua programação destinada a um público mais jovem terá maior incidência durante a primavera e o verão. Música, moda, arquitetura, fotografia e design terão ali vista privilegiada.

A ideia do “23 Milhas” passa por, explica Luís Ferreira, criar hábitos contínuos, formar novos públicos e promover uma transumância que altere os hábitos e crie uma comunhão de práticas. “O ato cultural não deve ser algo institucional, mas um bem essencial e tão natural como respirar”, acrescenta o diretor, reforçando sempre a ideia da “cultura do dia-a-dia” que dá mote ao projeto.

Uma forma de o rentabilizar será através do aluguer dos espaços que, dadas as suas características, podem acolher e servir de palco a um leque muito diversificado de eventos.