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Sociedade

Francisco Mello 
e Castro: “Queremos ser 
o ‘shark tank’ 
da área social”

Angariar dinheiro e investi-lo em projetos sociais, ensinando-os a instalarem-se no mercado. Não há juros ou certezas de retorno. O objetivo da Let’s Help, fundada por este jovem de 23 anos, é tornar as associações de solidariedade mais independentes a nível financeiro

Carolina Reis

Carolina Reis

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Jornalista

Luís Barra

Luís Barra

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Fotojornalista

luís barra

O que é a Let’s Help?
É uma investidora social. O grande mote é ganhar em vez de pedir, investir em vez de dar. Ou seja, ganhar para investir. Ganhamos o dinheiro através de projetos comerciais que desenvolvemos e com isso construímos um fundo para fazer investimentos ao longo do ano, em projetos de negócios sociais. Não damos o dinheiro, não somos assistencialistas. Essa não é a nossa lógica. Não pomos em causa todos os que são — esse também é um trabalho importante — mas não é o nosso. O nosso foco é financiar e investir ‘one shot’ [de uma vez] em negócios sociais. Em projetos que sejam sustentáveis e em que o dinheiro que investimos possa ter um retorno. Para o podermos reaver e aplicar noutros projetos.

Mas fazem ou não empréstimos?
Não. Não esperamos, necessariamente, reaver o dinheiro. Assumimos que há um risco à partida, as coisas podem não correr bem e pode não haver retorno. Porém, se correrem bem e se o projeto crescer a ideia é que o capital possa voltar para nós.

E é essa verba que voltará a ser investida noutro projeto?
Aí conseguimos fazer o que é a chamada reciclagem do capital. Em vez de estarmos a pôr dinheiro dentro da caixa e a caixa estar a ser esvaziada, tornando-se uma caixa sem fundo, conseguir que ela seja renovada. Que o dinheiro que sai depois volte para eu o poder investir noutros projetos. Cria-se um círculo vicioso, mas positivo. O mesmo euro pode servir para vários projetos.

Então, a Let’s Help é como se fosse uma empresa de capitais de risco mas dedicada à área social?
Sim. Mas quando falamos em venture capitalist [capitais de risco] ficamos com a ideia de uma entidade muito agressiva, com grandes regras e muitos critérios. Aqui não existe nada disso. Não existe essa agressividade, essa lógica pura de retirar retorno financeiro, de tirar lucro. A ideia é nós conseguirmos catapultar estes projetos em que investimos dinheiro, o foco é dar-lhes o empurrão que eles precisam. E não falo apenas de um envolvimento financeiro. Muitos destes projetos precisam também de tempo, de alguém que os ajude a implementar mudanças e os ajude a transformar. Não é um assistencialismo, já que não estamos a dar a fundo perdido, mas também não é uma agressividade de eu quero o retorno de X. Há aqui uma lógica social.

Então não há a preocupação de fazerem lucro?
Somos uma associação sem fins lucrativos e não somos remunerados. Se há um negócio social que nos interessa e se ele precisa de X milhares de euros, então vamos investir e pensar com eles. Perceber de que forma nos podem devolver esse dinheiro. Isto tem também o objetivo de criar mais rigor e mais eficiência na gestão das empresas. No minuto em que dou dinheiro a fundo perdido estou a criar uma habituação, as pessoas habituam-se a que todos os anos o dinheiro vá lá parar a cair do céu. A Let’s Help tem o lado do investir e o lado do ganhar. Se dermos cinco mil euros só queremos que eles voltem, sem juros, e mesmo assim arriscamo-nos a que isso não aconteça. Mas trabalhamos no sentido de que seja possível. E também não deixamos os projetos sozinhos. Não dizemos tomem lá os cinco mil euros e agora desenrasquem-se. Nós trabalhamos com as empresas e acompanhamos o projeto.

Como surge esta ideia?
Estes projetos nascem sempre de uma ligação emocional à pessoa que os funda. Penso que isso é natural. Durante dois anos fui voluntário a criar um evento de beneficência a favor de uma instituição chamada O Vale de Acór (uma associação, situada em Almada, que trabalha na reabilitação de toxicodependentes). Em 2012, fiz aí o primeiro evento e logo nessa altura achei que tinha de fazer algo diferente do que é costume. Percebi que tinha de criar uma coisa que fosse tão boa que as pessoas iam querer ir no ano seguinte, sem se lembrarem que o faziam ‘apenas’ para ajudar uma causa. Mas houve uma coisa que me começou a fazer alguma confusão, o evento não era sustentável. Não havia interesse para as marcas lá estarem porque não tinham retorno. Ou seja, o impacto geral gerado com aquele dinheiro era reduzido porque tapava o buraco durante um ano, mas no ano seguinte o buraco já estava destapado outra vez. E isto começou-me a fazer confusão. Comecei a investigar o que se fazia lá fora que fosse diferente deste tipo de ajuda assistencialista que nunca acaba, o chamado tapar buraco, que é também importante. E é aí que entro na economia social e que surge a ideia da Let’s Help. Não queremos ser mais uma fundação de uma grande empresa, queremos ser nós próprios os agentes da mudança.

De que forma é angariado o dinheiro para o vosso fundo de investimento?
Os eventos alimentam o fundo e o fundo investe nos projetos sociais que seleciona. A Let’s Help é uma produtora e uma investidora. E essa dualidade tem sido muito interessante. Este ano vamos organizar, pela segunda vez, o jantar do ano que vai contar com quatro chefes conhecidos,Vítor Sobral, Justa Nobre, Kiko Martins e Luís Barradas. É dia 12 de novembro, no Convento do Beato, e teremos este ano mais marcas o que faz crescer a rentabilidade. O jantar do ano é a nossa marca comercial mais importante. O conceito é unir chefes do melhor que temos num jantar premium, contudo é mais do que isso. No fundo, é uma noite mágica, muito descontraída, em que as pessoas vão para se divertir e experimentar quatro chefes no mesmo evento. Estamos a estudar fazer este evento também noutra cidade do país. A primeira edição correu mesmo muito bem e queremos cada vez mais que seja um evento mediático.

Em que projetos é que já investiram?
Primeiro tivemos de fazer o lado do ganhar. O lado do investir começou no final do ano passado com um grande foco na Reklusa [Instituição de solidariedade social que procura integrar as mulheres presas]. A princípio, nós íamos fazer um investimento de cinco mil euros em máquinas de costura. Mas quando entrámos na estrutura e percebemos como funcionava — tivemos acesso a dados financeiros entre outras coisas — vimos que a última coisa que elas precisavam era de gastar cinco mil euros a comprar máquinas. Deparámo-nos com um projeto com muito potencial, porém com uma estrutura um pouco amadora. A nosso ver, a Reklusa precisava de dar uma volta grande e mudar a sua estrutura. Elas estavam a estagnar. Alocar a verba às máquinas de costura seria um desperdício. Fizemos um extreme makeover no design das malas e na loja. Foi o nosso primeiro investimento de tempo, cerca de 1200 horas. Tivemos de deitar a casa baixo, mudar a equipa, a estratégia financeira e o produto, e voltar a reconstruí-la.

Qual é o vosso plano para daqui a dez anos?
O plano é difícil, mas o sonho é estar no terreno. Ser uma referência enquanto impulsionadora de projetos sociais. Queremos ser o ‘Shark Tank’ da área social, aquele que está, põe o dinheiro e garante que volta. Estamos com os projetos. O grande desafio é conseguir transformar instituições que estavam ou estão em situações de muita instabilidade, de grandes dependências de mecenas para sobreviverem, e transformá-las em negócios que possam concorrer no mercado, mas que são sociais e resolvem um problema social.

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 5 de novembro de 2016