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Sociedade

Burras que fazem cremes

António Bernardo

Marca de cosmética Phillippe By Almada, que já está à venda em Macau e Hong Kong, é a segunda fase da estratégia dos sócios que se instalaram no Monte das Faias (Coruche) para produzir leite de burra

Poucos produtos terão no seu currículo o facto de terem sido usados por personalidades tão distantes e diferentes como Cleópatra ou o Papa Francisco. Mas é esse o caso de leite de burra: a rainha do Egito usava-o nos banhos para amaciar a pele, enquanto o Santo Padre fez dele parte integrante da sua alimentação, durante a infância na Argentina, como suplemento do leite materno.

Viajando no tempo e no espaço, para o século XXI nos arredores de Coruche, há três empresários que estão a explorar o potencial desta matéria-prima em artigos de cosmética. Produzir leite de burra para alimentação, capitalizando a crescente procura internacional, é uma hipótese, mas não para já.

A prioridade agora é fazer crescer a Phillippe By Almada, marca de cosmética que é uma conjugação, em francês, do nome do sócio que teve a ideia de produzir lei de burra (Filipe), com a denominação de uma localidade perto da herdade onde está instalado o negócio (Foros de Almada). “Aqui tudo é português, as universidades com as quais trabalhamos, as investigações, as burras, os médicos, mas quisemos dar um nome que fosse possível internacionalizar”, justifica Jorge Leal Barreto, um dos três sócios da Donkey Milk Cosmetic (DMC), empresa de cosmética que tem os outros dois sócios em comum com a Natursin, que produz o leite de burra.

Jorge Leal Barreto, advogado de formação e ex-quadro do BCP, entrou no projeto para desenvolver o negócio de uma marca de cremes e sabonetes, na sequência do êxito de Filipe Carvalho e Miguel Ferreira de Carvalho (dos quais se tornou sócio) na venda, nos mercados internacionais, de leite de burra para a indústria da cosmética. A marca Phillippe By Almada foi lançada em outubro de 2014 na cadeia de parafarmácia Well’s.

Aos cremes de rosto, corpo e sabonete acaba de juntar-se um creme para as mãos. A entrada no circuito profissional, de esteticistas e SPA é o mais recente passo para a Phillippe By Almada crescer no mercado nacional. Neste canal, a marca está a fazer um teste com sais de banho, que recriam o milenar banho de Cleópatra, que deu fama ao leite de burra enquanto produto regenerador da pele.

Aposta na Ásia

A vocação principal da Phillippe By Almada é crescer nos mercados internacionais, em particular na Ásia. Já está à venda em Hong Kong e em Macau e nos próximos três a quatro meses deverá ter as autorizações necessárias para ser comercializada no Vietname, Birmânia e Laos. Jorge Leal Barreto justifica a entrada nestas localizações por se tratarem de países com uma classe média alta com elevado poder de compra e apetência para a cosmética produzida na Europa.

O grande segredo destes cremes e sabonetes, afinal, prende-se com a concentração elevada dos constituintes do leite de burra, devidamente estabilizados, o que permite melhorar o desempenho dos produtos na pele. Neste processo, o trabalho começa muito antes, com a produção das melhores burras, nas melhores condições. É o que os outros dois sócios de Jorge Leal Barreto fazem no Monte das Faiais, no Couço.
Filipe Carvalho é o sócio fundador, que, um dia, numa viagem de comboio (quando ainda trabalhava ao serviço de uma empresa de aluguer de automóveis) leu um artigo numa revista sobre os benefícios do leite de burra, o crescimento da procura e a consequente oportunidade de negócio.

Miguel Ferreira de Carvalho, ligado à agricultura enquanto responsável pela exploração de uma série de propriedades, foi o parceiro escolhido pela ligação à terra e à criação de animais.

Além da diferenciação pelo tipo de raça escolhida (as burras no Monte das Faias são todas mirandesas), os dois sócios optaram também por uma forma inovadora de processar o leite. Depois da ordenha, o leite é congelado em sacos de plástico e posteriormente é sujeito a um processo de liofilização, que o transforma em pó, permitindo manter inalteradas por mais tempo as suas características.

No início, em 2006, arrancaram com 12 burras e hoje são quase 50, com um preço médio por cabeça de €1200, apesar de algumas já terem nascido nas Faias, onde há um macho para garantir a reprodução. Itália é o país para onde venderam a primeira encomenda, em 2008, e atualmente é um dos seus principais mercados, em paralelo com a Grécia.

No total, os mercados internacionais representam 50% das vendas da Natursin, sendo os restantes 50% feitos com as vendas para marcas nacionais de cosmética artesanal ou que produzem sabonetes à base de leite de burra, como a Ach Brito.

Do leite líquido aos cremes, passando pela liofilização para obter a textura de leite em pó, a Natursin e a DMC combinam as suas atividades

Do leite líquido aos cremes, passando pela liofilização para obter a textura de leite em pó, a Natursin e a DMC combinam as suas atividades

António Bernardo

Zurrar e faturar

1,6 litros é quantidade de leite produzido por uma burra diariamente (uma vaca produz 30 litros). Um litro de leite fresco custa entre €10 e €15 nos mercados internacionais, valor que ascende a €250 para a mesma quantidade em pó.

70 mil euros foi o volume de vendas do leite de burra em 2015, valor que poderá duplicar em 2016, com a entrada na China até ao final do ano

500 mil euros é quanto está a ser investido na internacionalização dos produtos de leite de burra da Phillippe By Almada, através do Portugal 2020, e que além da Ásia (onde já está presente) irá levar esta marca aos Estados Unidos, em 2017, entre outros mercados. Participar nas principais feiras do sector, como a feira de cosmética de Frankfurt, é a estratégia