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Bombas de bolso

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Tal como na natureza, onde tudo está ligado, também nos smartphones os componentes dependem uns dos outros. E a maior dependência é a energética, a da bateria

À porta de um bar, em França, um jovem tenta desesperadamente apagar o fogo que lhe está a consumir as calças (ver AQUI). Do outro lado do Atlântico, nos Estados Unidos, uma família reclama à Amazon uma indemnização de 30 milhões de dólares devido a um incêndio que devastou a sua casa.

O que têm em comum estas duas histórias? O combustível usado em ambos os acidentes é similar. Terão sido baterias de iões de lítio a estar na génese de ambos os incêndios. No primeiro, o jovem francês guardava no bolso de trás das calças o carregador de um cigarro elétrico. A família de Nashville, nos EUA, tinha comprado uma hoverboard na Amazon e guardava-a em casa quando a bateria do dispositivo explodiu, provocando um incêndio que destruiu a casa, avaliada em um milhão de dólares.

Após o incidente, a família em questão procurou o fabricante do dispositivo, que se provou não ser, afinal, real. Como a hoverboard foi comprada na Amazon, o maior retalhista digital foi responsabilizado pelo acidente. O caso seguiu para os tribunais, mas as autoridades norte-americanas não facilitaram, mandando confiscar 16 mil hoverboards desse mesmo fabricante que estavam guardadas num armazém em Chicago. Em causa, estará a alegada utilização de baterias falsificadas e sem controlo de qualidade.

Estes casos juntam-se ao do Galaxy Note 7, da Samsung, que acabou, também, por ser retirado do mercado por problemas inerentes à bateria. É preciso entender que as baterias de iões de lítio, devido aos seus componentes, podem, mesmo, explodir ou incendiar-se. Defeitos na construção, má utilização dos dispositivos, carregamentos ultrarrápidos em más condições, furar a bateria… isto pode levar a curtos-circuitos ou ao sobreaquecimento da bateria, que pode começar a inchar (esteja atento a esta mudança de aparência do seu telefone!) para depois explodir. Aliás, pode ler AQUI algumas das principais explicações para as explosões de baterias.

Queremos mais, sempre mais!

Os smartphones têm de ser finos, leves, com grandes ecrãs, aguentar dias ligados e, claro, serem rapidíssimos – ou seja, terem grande desempenho. Fabricantes e utilizadores andam de mãos dadas nesta escalada de especificações dos terminais móveis. Afinal, não faria sentido que um novo topo de gama fosse mais lento que o modelo anterior, certo?

Para conseguir responder a todas estas exigências, as empresas têm evoluído os processos de fabrico e investido em novos materiais. É assim que chegámos aos ecrãs de grande resolução; aos processadores que já têm componente gráfica; à integração de câmaras que fazem corar de vergonha algumas máquinas fotográficas; tudo isto feito em dispositivos com espessuras muito reduzidas.

Tal como na natureza, onde tudo está ligado, também nos smartphones os componentes dependem uns dos outros. E a maior dependência é a energética, a da bateria. No entanto, ao contrário dos componentes já referidos, as baterias de iões de lítio não têm evoluído a grande ritmo. Claro que são mais pequenas e finas (os engenheiros conseguiram espremer mais células no seu interior), mas se evoluíssem como os processadores já teríamos baterias para aguentar semanas de utilização. Não é fácil aumentar a capacidade das baterias sem aumentar o seu tamanho físico. Como também não é fácil criar formas de carregamento rápido para que se consiga ter o telefone logo disponível quando a bateria acaba.

Os fabricantes têm apostado no desenvolvimento de carregadores próprios, que conseguem injetar energia de forma mais rápida, e em controladores nas baterias que fazem com que estas carreguem até um determinado ponto. A nível de software de controlo dos dispositivos, as coisas também melhoraram. Há, agora, possibilidade de acionar alguns modos de poupança que, entre outras coisas, diminuem a velocidade do processador e o brilho do ecrã. Consegue-se, assim, mais autonomia.

Recorda-se, por certo, de um tempo em que as baterias dos telemóveis eram todas amovíveis. Facilmente se tirava a tampa traseira e se trocava de bateria. O iPhone foi um dos primeiros telefones a não dar acesso à bateria. Hoje, nos topos de gama, é raro o que não tem a bateria fechada a “sete chaves”. Aliás, tentar aceder-lhe provoca, de imediato, a perda da garantia do dispositivo. Imagine o que seria se, no caso do Galaxy Note 7, da Samsung, a bateria fosse removível? Para resolver o problema, o fabricante coreano só teria de enviar aos compradores uma nova bateria. Simples, certo?

Quem vigia as baterias?

É verdade que os casos de incêndios ou explosões de baterias são raros. No entanto, as baterias de iões de lítio estão em todo o lado. Tablets, câmaras, os já referidos telefones, brinquedos, hoverboards… até nos automóveis. Também é verdade que a construção de baterias e a sua integração nos dispositivos é ciência há muito estudada. No entanto, quando estamos perante um mundo em plena “revolução digital”, com a proliferação de milhões de pequenos dispositivos onde mora uma bateria de lítio, não será pertinente questionarmo-nos sobre quem é que supervisiona a qualidade deste componente? Os fabricantes certificados e reconhecidos para o fazer (Panasonic, LG, Samsung e Toshiba) serão escrutinados. E o que acontece às baterias que vêm da China integradas em dispositivos dos quais não reconhecemos o fabricante? (como no caso já referido do incêndio provocado pela Hoverboard)

Este é o dilema com que nos confrontamos e que será mais grave em países como a Índia, a China, a Rússia e o Brasil, onde o número de utilizadores de telefones e dispositivos eletrónicos continua a crescer. Mercados onde os dispositivos de baixo preço são os mais populares e onde há uma proliferação de marcas brancas que não têm a qualidade de construção como principal preocupação.