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PJ deteve grupo de skinheads suspeitos de agressões em comício da CDU

Marcos Borga

A Unidade Nacional de Contra-Terrorismo da PJ realizou 40 buscas em todo o país e deteve 20 militantes de extrema-direita, alguns deles estarão ligados às agressões a quatro militantes da CDU, em setembro do ano passado

Hugo Franco

Hugo Franco

Jornalista

A Unidade Nacional de Contra-Terrorismo da PJ deteve 20 skinheads durante a manhã desta terça-feira. A notícia foi confirmada ao Expresso por fonte da investigação depois de ter sido avançada pelo "DN".

Segundo um comunicado da PJ, trata-se de uma investigação alargada "por crimes de discriminação racial, religiosa ou sexual".

A Judiciária realizou 40 buscas domiciliárias em Braga, Lisboa e Albufeira, executando 16 mandados de detenção emitidos pelo DIAP de Lisboa. Foram ainda detidos outros 4 suspeitos de "pertencerem a uma estrutura criminosa que vem cometendo crimes de ofensa física qualificadas, em alguns casos agravadas e até tentativas de homicídio, crimes motivados pela diferença de raça ou orientação sexual das vítimas", assegura a PJ.

"A investigação apurou ainda que neste contexto foram cometidos outros crimes de idêntica natureza, tendo como vítimas cidadãos que perfilham uma ideologia antifascista e antagónica à dos autores destes factos", frisa a PJ.

Os detidos vão presentes a primeiro interrogatório judicial para lhes ser aplicadas as medidas de coação.

Episódios de violência ocorridos a 20 de setembro do ano passado, no centro de Lisboa, estavam a ser investigados pela PJ e Ministério Público. Em causa, as agressões de um grupo de skinheads a simpatizantes da CDU, que tinham saído de um comício do partido no Coliseu dos Recreios e se encontravam na rua das Portas de Santo Antão, perto do Teatro Nacional D.Maria II.

A queixa foi apresentada por pelo menos uma das quatro alegadas vítimas das agressões dos seis a oito neonazis, que agiram quase todos de cara tapada. Um dos agredidos é um sindicalista da autarquia lisboeta, que foi hospitalizado no Hospital de São José. Sofreu fraturas e hemorragias internas mas nunca esteve em perigo de vida.

Durante as agressões, que duraram alguns minutos, terá caído ao chão uma carteira de um dos skinheads, revelando a sua identidade. Uma testemunha contou que um grupo de sete ou oito cabeças-rapadas “muito robustos” e vestidos com t-shirts que diziam “Refugees not welcome” (“refugiados não são bem-vindos”) ia a passar pelo local “aos gritos e ameaças”, quando alguém terá gritado “fascistas!”. Os neonazis voltaram para trás e começaram a agredir um homem que se encontrava no local. E pelo menos dois outros foram espancados.

A dada altura, um dos skinheads gritou “baza, baza!” e o grupo fugiu. Pelo caminho ainda agrediram um idoso que tinha um autocolante da CDU. Vários agentes da PSP chegaram ao local, três minutos depois das agressões, mas os skinheads já tinham desaparecido.

Os testemunhos das vítimas terão sido determinantes para apurar a identidade dos agressores, muitos deles identificados numa manifestação contra a presença de refugiados em Portugal que juntou cerca de 150 pessoas em frente ao Parlamento, poucas horas antes do episódio de violência.

Muitos dos suspeitos eram conhecido pelas forças policiais, estando a ser monitorizados "com a máxima atenção" há vários meses. Mas embora houvesse "vários incidentes registados em seu nome", nem todos eles tinham cadastro criminal: "Uma parte destes crimes não chega sequer aos tribunais", frisa outra fonte ligada ao processo.

Num vídeo dessa manifestação realizada em frente ao Parlamento, a 22 de setembro de 2015, é possível ver mais de uma dezena de homens de cabeça-rapada a fazer a saudação nazi enquanto cantam o hino nacional. Seguram um estandarte com a frase 'Portugueses Primeiro' e alguns agitam bandeiras negras com a cruz celta.

Entre 50 a 60 elementos da extrema-direita estariam já sob vigilância mais apertada por parte da PJ. Muitos deles pertencem aos Portugal Hammerskins (PHS), organização suspeita de estar ligada a negócios ilícitos. Até Mário Machado, o ex-líder dos PHS que cumpre uma pena de prisão, fez no ano passado acusações contra aquele grupo, garantindo que se dedicaram a crimes como o tráfico de droga, roubo e extorsão.

Dois anos de violência

A Procuradoria-Geral Distrital de Lisboa (PGDL) emitiu um comunicado sobre o caso, confirmando de que se trata de um grupo de Hammerskins. Segundo os procuradores da 11ª secção do DIAP de Lisboa, titular do inquérito, os suspeitos fazem parte "de uma organização fortemente hierarquizada, de âmbito internacional, os Sinkheads neonazis liderados pela Hammer Skin Nation- o mais violento e organizado grupo de extrema direita, formado em Dallas, em 1988, e que se expandiu pelos EUA, Canadá, Austrália e Nova Zelândia - com o propósito de fomentarem ações violentas contra indivíduos de raça negra, indianos, de orientação sexual diferente da deles e refugiados, usando as redes sociais da internet para o incitamento ao ódio, discriminação racial, perseguição e violência física, perfilhando a ideologia nazi e exaltando a superioridade da raça branca, e que, nosso país, pretendem, além do mais, expulsar ou impedir a entrada em Portugal de todas as minorias étnicas".

De acordo com a PGDL, as atividades criminosas do grupo ocorreram entre 3 de novembro de 2013 e 20 de setembro de 2015. Durante esse período, "os suspeitos, motivados pela referida discriminação, terão agredido vários indivíduos e tentado causar a morte de um outro, bem como subtraído com violência e/ ou danificado bens pertencentes a outros indivíduos".

[artigo atualizado às 17h23 com o comunicado da PGDL]