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O que uma mulher deve vestir? “Confiança”

Jose Carlos Carvalho

Entram mulheres, saem supermulheres. Com a ajuda da Dress to Success, quase um milhão de pessoas foram apoiadas na procura de trabalho. A organização sem fins lucrativos começa por vesti-las a preceito e prepará-las para a entrevista de emprego. Mas esse é só o primeiro passo. O objetivo é dar-lhes confiança e garantir que conseguem alcançar o que desejam. Joi Gorden, CEO mundial, esteve pela primeira vez em Portugal. Em conversa com o Expresso, falou sobre desigualdades de género, sobre o caminho que ainda há a percorrer e de Hillary Clinton

Marta Gonçalves

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José Carlos Carvalho

José Carlos Carvalho

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Seria fantástico chegar ao roupeiro todas as manhãs e pegar na confiança e vesti-la. Como não é possível, Joi Gorden quer ajudar as mulheres a acreditarem nas suas capacidades. A norte americana é a CEO mundial da Dress to Success, uma fundação que apoia mulheres no caminho da realização profissional. Há 17 anos, largou a advocacia para se dedicar exclusivamente à organização sem fins lucrativos. Ela própria é um exemplo de sucesso. A Dress to Sucess, que começou por ser um pequeno espaço na cave de uma igreja no bairro nova-iorquino de Manhattan, tem agora 143 escritórios em 21 países (Portugal incluído).

As mulheres dirigem-se à boutique, onde com a ajuda de um consultor de imagem escolhem a roupa, os sapatos, a mala e os acessórios (o serviço e as peças são gratuitas, sem necessidade de serem devolvidas). Quem as vê, assegura que é quase um género de Clark Kent que entra na cabine telefónica como um comum mortal e sai um super-herói.

O que faz a Dress to Success?
É uma organização que ajuda mulheres a regressarem ao mundo do trabalho. Primeiramente, fazemo-lo dando-lhes roupa e trabalhando na confiança. A ideia é que possam ir a uma entrevista sentindo-se e estando no seu melhor. É uma organização que se preocupa e quer vê-las serem bem-sucedidas, no trabalho e na vida. Temos uma série de programas para apoiar as mulheres na sua caminhada até ao sucesso: uma coisa é conseguir o trabalho, outra é conseguir mantê-lo.

Quando e onde foi fundada?
Tudo começou há quase 20 anos, em Nova Iorque (Estados Unidos da América), com uma mulher que recebeu uma herança do bisavô de cinco mil dólares. Então, quis com esse dinheiro ajudar outras mulheres a serem bem-sucedidas.

Como começou a sua ligação com a fundação? Qual o percurso até chegar a CEO wordwide?
Juntei-me à organização há 19 anos. Primeiro, como doadora… dava a minha roupa. Depois tornei-me membro da direção e, um ano depois, deixei o meu emprego como advogada para me dedicar exclusivamente ao escritório de Nova Iorque da Dress to Success. Portanto sou funcionária há 17 anos.

Como funcionam os programas?
Uma mulher dirige-se até nós porque tem uma entrevista marcada. Vestimo-la e preparamo-la para a entrevista. Damos-lhe um fato, um par de sapatos, uma mala. Mas, muito mais importante, recuperamos a sua confiança. Ela passou por algo na sua vida que foi duro e queremos garantir que tem o apoio necessário para ser bem-sucedida. Trabalhamos no seu currículo, simulamos entrevistas, ajudamos na procura de novas oportunidades e apoiamos durante todo esse processo. Quando consegue o emprego, temos um outro programa em que é acompanhada em reuniões de grupo mensais, uma espécie de rede de apoio com mulheres tal como ela. O que fazemos é dar-lhes todas as ferramentas necessárias para alcançarem o sucesso. As roupas são apenas o início da jornada.

Sabe quantas mulheres já ajudaram?
Anualmente, em todo o mundo, cerca de 70 mil mulheres entram pelas portas da Dress to Success. Em 20 anos, estamos muito perto de já ter servido um milhão de mulheres.

Na sua opinião, qual é a coisa mais importante que a fundação faz pelas mulheres?
Ajudá-las na autoconfiança. Independentemente da sua história – e muitas destas mulheres passaram por muito –, é importante ajudá-las a sentir-se dignas, belas e confiantes. Isso é algo que lhes conseguimos dar enquanto as vestimos. E depois vemos a transformação da mulher insegura que entrou pela nossa porta para a mulher que sai certa de que vai arranjar emprego e ser independente e, como em muitos casos também são mães, que será capaz de cuidar dos filhos.

Alguma vez receberam pedidos de ajudas de homens?
Sim. Nos Estados Unidos da América nunca aconteceu, mas em outras partes do mundo sim. Depende um pouco das nossas instalações, porque precisamos de espaço para lhes prestar o apoio e serviço que fazemos com as mulheres. Mas qualquer pessoa deve ter a oportunidade de ser bem-sucedida. No caso da Dress to Success, as mulheres são o principal objetivo.

Vê a Dress for Success como uma organização feminista?
Não… não é feminista. É uma organização que acredita que as mulheres precisam de uma oportunidade justa, e que por vezes precisam de uma segunda oportunidade para se reerguerem. Aos ajudarmos estas mulheres, também ajudamos os filhos. Diria antes que é uma organização de família.

Joi Goden, CEO Worldwide, e Teresa Durão, responsável pela Dress em Portugal

Joi Goden, CEO Worldwide, e Teresa Durão, responsável pela Dress em Portugal

Jose Carlos Carvalho

O que uma mulher deve usar no dia a dia para ser levada a sério e dar a perceber que quer ser a melhor?
Sejam calças, vestidos ou um fato, é a confiança com que se usa essa roupa que importa. Não há nenhuma peça de roupa seja sinónimo de sucesso. A mulher será bem-sucedida porque está e sente-se fantástica, é confiante, sabe o que vale e do que é capaz. É isso que as outras pessoas vão ver.

E como é que as roupas conseguem ter este impacto?
Quando vestimos algo bonito, sentimo-nos bonitas. E é por isso que a roupa importa. A aparência é um reflexo de como se sente. Por isso, queremos dar-lhes algo especial (que depois fica para elas) para usarem na entrevista, vestidas e sentindo-se prontas para o sucesso.

E isso não é dar demasiada importância à imagem e ceder às pressões da sociedade?
Não, porque as pessoas julga-nos. Certo ou errado, as pessoas olham e tiram ilações com base na aparência. E por isso queremos que elas cheguem à entrevista sem que a aparência seja um entrave para conseguir o emprego. É importante que a mulher se sinta bem.

Acha que a sociedade é demasiado dura com as mulheres que considera não terem uma boa imagem?
Acho que a sociedade é dura com as mulheres, ponto final. Muitas vezes, acha que não são capazes de articular a carreira com a família. Claro que é uma tarefa difícil, mas quando se é apaixonado pela família e se precisa de trabalhar tudo resulta.

De alguma forma, tendo em conta que a Dress to Success se preocupa muito com a imagem, não correm o risco de serem acusadas de objetificação da mulher? Não é dar importância ao estereótipo de que a mulher conquista pelo físico e não pelo intelecto?
Espero que as pessoas quando pensam na organização vejam que o que damos às mulheres é confiança. Não importa o vestido, os sapatos ou a maquilhagem que usam. É a confiança que sentem ao usar todas essas coisas que importa. A roupa é importante, mas as conversas que temos com elas são sobre reconstruir o amor-próprio e autoconfiança. E é isso que a vai realmente ajudar a ser bem-sucedida.

Uma mulher precisa de fazer mais para conquistar o mesmo que os homens?
Sim. É um mundo desigual tanto a nível salarial como nas restantes condições de trabalho. Estamos a melhorar, mas ainda há muito espaço para crescer.

Porque é que continuamos a ter mais homens empregados do que mulheres?
Acho que em muitos casos está relacionado com a cultura e as expectativas. Há ainda a ideia de que é o homem que sustenta a mulher e toda a família. Não há nenhum problema se uma mulher escolher não trabalhar. É uma opção mais que válida. Mas quanto às mulheres que querem trabalhar, nós queremos ajudá-las.

É correto que uma mulher receba um cargo/promoção simplesmente por ser mulher ou deve ser pelo mérito no trabalho?
Definitivamente, deveria haver mais mulheres nas direções [das empresas]. Ter mulheres sentadas à mesa torna a conversa diferente. Nós somos diferentes e abordamos os mesmos assuntos de forma diferente. Por isso, precisamos mesmo de ter um lugar à mesa. No local de trabalho, quando se é bom espera-se ser promovido e isso aplica-se tanto às mulheres como aos homens. O que precisamos é que sejam dadas as mesmas oportunidades independentemente do género.

Atualmente há uma grande discussão sobre a implementação de quotas de mulheres para empresas. Concorda?
As quotas vão dar o lugar à mesa que tanto é necessário para que, no futuro, outras mulheres tenham esse lugar também. Até as mulheres terem uma voz nas direções e tomarem decisões, nada vai mudar. É por isso que é importante trazer as mulheres para mostrarem o seu valor. Depois, mais mulheres se seguirão.

Apesar das mudanças nos últimos anos, o que é ainda necessário fazer para haver igualdade entre homens e mulheres?
Acho que a flexibilidade no local de trabalho é essencial. Temos de fazer um grande malabarismo entre a carreira e a família, especialmente quando se é mãe solteira. Temos que criar os filhos, levá-los à escola e comprar-lhes o que precisam, trabalhar oito a dez horas diárias… Precisamos mesmo de flexibilidade para conseguirmos educar bem as crianças e fazermos o nosso trabalho o melhor possível.

Que dicas daria a uma mulher que quer ser bem-sucedida profissionalmente?
Trabalhar muito, em primeiro lugar. Encontrar a paixão, porque quando somos apaixonados pelo que fazemos somos melhores. E, por último, ajudar outras mulheres a chegar ao sucesso. Quando subimos até ao topo não queremos estar lá em cima sozinhas, no caminho ajudamos alguém a subir connosco.

Para terminar, como vê a possibilidade de uma mulher poder ser a próxima Presidente dos Estados Unidos da América?
Vivem-se tempos interessantes na política norte-americana [risos]. O queremos é alguém que nos proteja. Queremos um Presidente que seja capaz, competente e um grande líder. Por agora, sentamo-nos e esperamos por mais dois meses parar ver quem será o nosso líder… Mas, sem dúvida, são tempos entusiasmantes para as mulheres, simplesmente por termos Hillary Clinton como candidata. E digo isto não apenas por mim, mas também pelas minhas filhas e pelas filhas das minhas filhas. É importante saber que uma mulher pode ser a próxima Presidente dos Estados Unidos. Hillary Clinton foi sempre muito pela família, pelas crianças e uma pessoa atenciosa. Sei que ela liderará com o coração, caso seja eleita. Eu sou fã dela. Na minha opinião, tem as qualificações necessárias para liderar.

Teresa Durão

Teresa Durão

Jose Carlos Carvalho

Programa “pioneiro” dá vitória a Lisboa

Apesar dos muito anos de existência da Dress to Success, a fundação só chegou a Portugal há quatro anos. Em 2010, Fernanda Machado viu no programa de Oprah Winfrey a história de um projeto que queria ajudar mulheres a sentirem-se melhor e a alcançarem o sucesso. Entusiasmou-se com a ideia e não pensou duas vezes: queria ajudar. Foi ao armário e escolheu um conjunto de fatos.

“Foi à procura se já existia a organização em Portugal para fazer a doação. Não existia. Começou a interessar-se e fez uma candidatura aos EUA”, conta ao Expresso Teresa Durão, atual responsável pela afiliada portuguesa. Ao fim de dois anos, a 30 de janeiro de 2012, surge a Dress to Success Lisbon.

À semelhança do que aconteceu com Joi Gorden, também Teresa Durão começou por ser doadora. Entrou depois como voluntária para prestar apoio jurídico e, desde maio deste ano, é a responsável pela fundação em Portugal.

“A ideia do projeto é magnífica. De facto, a questão das mulheres, confiança e imagem era às vezes um problema. Não grave, mas era um problema. Ninguém era capaz de dizer: não deve vestir-se assim”, explica.

A dimensão da fundação em Portugal não pode ser comparada à dos Estados Unidos da América, “Somos muito pequeninos”, diz Teresa Durão, embora em 2015 tenham acompanhado cerca de 500 pessoas. Sim, pessoas. Isto porque em Lisboa há “imensos homens a pedir ajuda”.

“Relativamente às palestras e ações é pena não termos um espaço para os receber, porque eles também precisam. Não querem que se tenha pena deles, querem sentir-se dignificados. São iguais às mulheres, a única diferença é que são homens e a roupa é diferente”, assegura a responsável portuguesa.

Tal como acontece em praticamente todas as afiliadas da Dress, em Portugal existem três programas chave: o vestidas para vencer (consultoria de imagem e preparação para a entrevista), o centro de desenvolvimento de carreira (construção do currículo, procura de ofertas de emprego e definição de plano de carreira) e as formações (“uma espécie de diagnóstico daquilo que depois é passado no centro de desenvolvimento”).

Mas além destes, em 2015, a afiliada de Lisboa foi premiada pelo “Fadas Madrinhas”, um programa que tinha como objetivo preparar 60 mulheres do Bairro da Bela Vista para regressarem ao mundo do trabalho. “Estavam numa situação de exclusão, em parte, devido ao estigma do local onde vivem e pela sua imagem. Neste momento, temos 30% dessas mulheres a trabalhar e 15% com trabalhos efetivos. Este foi um programa pioneiro”, diz Teresa Durão cheia de orgulho.

A boutique da Dress to Success está instalada na junta de freguesia de Santo António, em Lisboa, perto do Jardim do Torel. É lá que podem ser deixadas doações e onde se pode pedir ajuda.