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Ele ameaçou matá-la, mas quem morreu foi ele

RETRATO-ROBÔ. Maria José Gomes Ferreira, desenho feito com base numa antiga ilustração

ilustração joão roberto

O rapaz não quis ir ao quintal da casa, como a mãe lhe pedia, "tinha medo que se alevantasse o pai”. Não havia razão para isso, quando Maria José enterrara o marido este já estava morto. Passado um mês, em fuga por Lisboa, será presa e confessará o que fez. Ele tentara matá-la, mas ela tinha um amante... Este é o oitavo capítulo da segunda temporada da série Crime à Segunda

Anabela Natário

Anabela Natário

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Jornalista

João Roberto

João Roberto

ilustração

Motion designer

Confessou que assassinara o marido, quando ele lhe deitou as mãos ao pescoço prometendo matá-la. Fizera-o sozinha. Não possuía amores extra, e a sua filha mais velha de nada sabia, só a acompanhara na fuga para Lisboa. De regresso ao Minho, presa, mudará a versão, implicando um oficial de diligências, seu breve amante, com quem afirma ter cometido o crime a 29 de agosto de 1882 e enterrado o corpo no quintal da sua casa de Rendufe. A filha será libertada. Maria José Gomes Ferreira e Francisco de Araújo, que fugirá do tribunal saltando de uma janela, serão condenados a 28 e a 30 anos de degredo em África.

Maria José mandou o filho apanhar uma peça de fruta caída na terra e este recusou-se, não queria ir ao quintal, “tinha medo que se alevantasse o pai Afonso”. Alguém ouviu, ou inventou, o certo é que a frase do miúdo de 13 anos chegou aos ouvidos da autoridade do concelho de Amares. Foi a gota de água, há quase um mês que corriam rumores sobre o desaparecimento de Custódio João Afonso, as gentes da freguesia de Rendufe, perto de setecentos habitantes, não acreditavam que o proprietário lavrador partira para o Brasil, onde já estivera e regressara com uma pequena fortuna.

O caso foi entregue ao “poder judicial” que, munido das desconfianças dos vizinhos, interrogou Maria José sobre o paradeiro do marido. A resposta saiu idêntica à que ela já dera a todos quantos lhe perguntaram o mesmo. O juiz não ficou convencido da viagem de Custódio João além Atlântico, mas deixou-a ir. Continuará a investigar, “a voz pública acusava-a de dar cabo da existência do marido”, de querer resolver a sua vida com um oficial de diligências de Amares. “A voz do povo, que nesta ocasião foi também a voz de Deus, obrigou a justiça a dar principio a um auto de investigação, a qual nada pode colher”, contará o “Diário de Notícias”.

A situação tornava-se desconfortável, as suspeitas pesavam cada vez mais sobre Maria José, de 38 anos, filha da terra, a mais bonita do concelho nos seus anos de juventude. Pensando no que fazer, lembra-se de uma prima de Lisboa, governanta de um juiz. Ela ajudá-la-ia, iria arranjar-lhe refúgio, estava convicta e tinha razão. Disse à filha Josefa Rosa que ião ver o pai ao Porto, pediu a Francisco de Araújo que as levasse a Braga, tomaram os três uma refeição, o jantar que se fazia à hora do almoço atual, e, por volta das três da tarde, apanharam as duas o comboio para a capital.

Mãe e filha chegam a Lisboa pelas seis da manhã de 4 de outubro de 1882, uma quarta-feira. A primeira coisa que fazem é rumar à rua da Prata, última morada que lhe dera a prima Maria Teresa Alves. Mas não a encontram. Nem a governanta nem o juiz moravam mais na hospedaria do senhor Costa. O magistrado “pusera casa sua” na Boa Vista, segundo o anfitrião, e é para lá que se dirigem esperançadas em arranjar um teto até decidirem o que fazer. “O Constituinte” de Braga dirá que ela arranjara um passaporte falso para o Brasil, a “Alma do Povo”, outro jornal local, desmentirá a informação.

Enquanto as fugitivas tentavam encontrar refúgio, um juiz de direito e um delegado do procurador, acompanhados por oficiais de justiça, faziam buscas na casa da família, no lugar das Neves, lá na freguesia de Rendufe, onde o falatório estava imparável com mais o desaparecimento das suspeitas, que logo classificaram de fuga, e de “duas mulheres de má nota”, vizinhas, que se dizia serem intimas de Maria José e, provavelmente, cúmplices no que quer que fosse que mãe e filha teriam feito.

A autoridade judicial nada encontrou no interior da casa, onde se encontrava o filho António Luís. Possivelmente, a mais pequena, Olívia, de sete anos, estaria com o avô materno de quem o neto herdara o nome. No quintal, também nada viram. Dispunham-se a abandonar o sítio, quando uma zona do terreno chamou a atenção do juiz. Naquele pedaço, as ervas estavam viçosas e curtas... Começaram a escavar até encontrarem uma cama de saibro “que fez logo entrar o desânimo em todos, pois aquela circunstância parecia mostrar que aquela terra jamais tinha sido bulida. E iam já definitivamente a retirar-se quando o juiz para descargo da sua consciência mandou dar ainda duas cavadelas...”, contará o “Diário de Notícias” a 9 de outubro.

A insistência deu frutos. A 10 de outubro, o matutino lisboeta, pela pena do seu correspondente em Amares, detalhará a descoberta feita seis dias antes. Conta que as cavadelas fizeram aparecer uma mão “parecia que na ação de pedir vingança”, escavando mais surgiu um cadáver. O irmão de Custódio João, que assistia à busca, identificou-o, desmaiando para cima da cova. Num exame rápido, feito ali, depois de tirarem o corpo para fora da vala, concluiu-se que "o desgraçado havia sucumbido por meio de estrangulação e esmagamento dos órgãos genitais”, apresentava contusões no peito, por lhe terem “calcado em cima”.

Horas depois, a polícia fica a saber que Maria José e a filha Josefa Rosa foram vistas ao fim da manhã, a comer numa taberna de Braga, na companhia de Francisco Araújo, “tendo depois ido com este, ignorando-se a direção que tinham tomado”. Mais tarde, o oficial de diligências reapareceu em Braga, de onde regressou a Amares e... foi preso, “por haverem fortes suspeitas de que ele também colaborou nesse horrendo crime”, o mesmo já sucedera ao filho e sucederá ao avô António Luís Gomes.

Enquanto isto, Maria José e Josefa Rosa encontraram a prima na casa da Boa Vista, zona entre a atual Praça dom Luís e o Mercado da Ribeira, onde, depois de feito o aterro para acabar com a imundice da praia, se previa há anos erguer um novo bairro e uma larga avenida arborizada. Maria Teresa albergou-as, explicou ao juiz Vicente das Neves Gomes Eliseu o que se passava, por sua vez, este procurou o alfaiate Almeida da rua do Ouro e pediu-lhe que arranjasse um local para as primas da sua governanta, acabadas de chegar do Minho.

O alfaiate arranja-lhe um quarto na rua do Arco da Bandeira, na baixa lisboeta, hoje rua dos Sapateiros. Mas na quinta-feira, dia 5 de outubro, Almeida vai ter com o juiz dizendo que desconfia da história das mulheres e estas já não podem ficar onde estão, trata-se da casa de uma “família capaz” não se podia comprometê-la. Neves Eliseu avisa a governanta. No dia seguinte, ao fim da tarde, o aguadeiro Casaca transporta-lhes a bagagem para um último andar no Pátio da Galega, muito próximo da atual rua da Boavista, onde comprara casa o magistrado que daí a dez anos será conselheiro do Supremo Tribunal de Justiça.

Na noite de sexta-feira, dia 6, ainda dormiram no Arco da Bandeira, mas o assunto chegou ao conhecimento do comissário geral da polícia. De madrugada, Morais Sarmento e António de Noronha, comandante da 2ª divisão, procedem a averiguações sem obterem o paradeiro das fugitivas de Rendufe. No sábado, conseguiram chegar à fala com o alfaiate Almeida, e com a família amiga deste, todavia, Maria José e Josefa já tinham sido levadas por outro aguadeiro, o Lanceiro, para o seu novo refúgio. E será este e o Casaca quem acabou por dar a morada das fugitivas.

Pouco antes das quatro da tarde de sábado, dia 7, a polícia cerca o Pátio da Galega. Pela hora certa, o comissário Morais Sarmento dá voz de prisão às primas da governanta do juiz. E surge Maria José aos olhos dos jornais de Lisboa: “É uma mulher de bom parecer, clara, rosada, ainda fresca, de estatura regular, trajando saia de chita clara com enfeites de fita preta; avental preto com vivos azuis; casaco preto de astracã, agolada de fita preta, com botões pretos de vidro; lenço de seda escuro sobre as tranças pretas; brincos de ouro e colar do mesmo metal; calça chinelas entrançadas. Na mão segurava uma sombrinha”.

Quanto à filha, era “uma rapariga bonita, de cabelos castanhos, olhos vivos, clara e rosada”. Na altura da prisão, trajava “um corpete de chita amarela enfeitado de preto, saia de chita de riscado claro, com um folho grande; avental preto e xaile de casimira de riscadinho com borlas de lã da mesma cor, e na cabeça lenço de cor escura; usava argolas africanas de oiro. Tinha também uma sombrinha”.

Levadas para o governo civil, Maria José assumiu a culpa, retirando à filha qualquer papel no assassínio do pai. Mas o que se passara, o que fizera? A autoridade judicial de Amares já descobrira o corpo do marido, bem disfarçado, a entrar em putrefação... Acontecera que no dia 29 de agosto, após o jantar de família, os três filhos saíram e Custódio João quis que a mulher fosse com ele fazer uma sesta, numa espécie de palheiro, “a meia dúzia de passos” da casa principal. Ali, mal se deitaram na esteira, o lavrador pôs-se de joelhos, deitou-lhe as mãos ao pescoço, dizendo-lhe o que já antes lhe dissera: “Faz o teu ato de contrição, porque vou matar-te”.

“Então, vendo-se aflita, confessou que num momento de desespero lhe torcera os órgãos glandulares contidos no escroto, de forma tal que o marido caíra para a banda sem sentidos”, contará no dia seguinte à prisão o “Diário Ilustrado”, conhecedor do depoimento de Maria José que explicara ainda ter aproveitado o desmaio para agarrar num grande martelo e dar com ele na cabeça do marido, deixando-o ali, sem perceber logo que o matara.

Quando voltou ao palheiro, verificou a morte. Sem saber logo o que fazer, cobriu o cadáver com palha e a esteira de tábua. No dia seguinte, uma quarta-feira, começou a cavar um buraco no quintal para o enterrar, Demorou três dias a fazê-lo para que ninguém desconfiasse de nada. No sábado, dia 2 de setembro, arrastou o corpo para a cova, pôs-lhe saibro por cima, depois terra, onde deitou umas semente de leguminosas para não destoar muito do restante terreno. E começou a dizer que o marido partira, primeiro para o Porto e depois para o Brasil.

Matara o homem mais velho vinte e dois anos com quem casara há quase dezassete, já grávida de Josefa Rosa. Custódio João Afonso, pela década de 1860, voltara à terra, de bolsos cheios e dera a Maria José, rapariga bonita, na altura ainda adolescente, cobiçada pelos rapazes de Rendufe e arredores, um dote de dois contos de réis, uma bela quantia para uma família de fracos recursos. Casaram-se em 26 de outubro de 1865, ela tem 21 e ele 40, a filha Josefa nasceu a 18 do mês de abril seguinte. Ao menos já estava casada, facto que não aconteceu a sua mãe, Josefa Rosa Antunes, que a teve antes do seu futuro marido a legitimar.

Assassinara-o, porque em dois dias era a segunda vez que ele a ameaçava de morte. A primeira fora a 27 de agosto, estavam na varanda da casa, com o filho António Luís. Custódio agarrou-lhe num braço, e apontando-lhe uma pistola ordenou-lhe que se confessasse já que ia morrer e disparou um tiro rente à sua orelha esquerda, sem contudo lhe acertar. O rapaz saiu em sua defesa, atirou-se ao pai gritando que não matasse a mãe, conseguindo que largasse a arma.

Ao que parece, Custódio andava desconfiado de que a mulher o enganava, pelo menos, assim lhe fizeram crer lá na terra. Mas, no Governo Civil de Lisboa, Maria José negará: “É falso, eu não tenho amantes. Isso diz-se, porque há em Amares um indivíduo chamado Araújo que é oficial de diligências que efetivamente tinha algum sentido em mim, mas eu nunca lhe aceitei o seu agrado, juro-o”. Depois, novamente interrogada por Morais Sarmento, acabará por assumir a relação, dizendo que por insistência dele e que só se tinham encontrado cinco vezes.

E EM BRAGA TUDO MUDA. AFINAL TIVERA AJUDA PARA MATAR E ENTERRAR O MARIDO

No Governo Civil de Braga, depois de uma viagem de cerca de quinze horas de comboio e de alguma insistência do governador e do administrador do seu concelho, Maria José Gomes Ferreira mudará a sua versão dos acontecimentos. Mantém as ameaças do marido, que as testemunhas confirmarão, não se iliba de culpas na concretização do crime, mas diz que teve ajuda de Francisco de Araújo. E foi induzida por uma tal Rosa Vendeira que não se cansava de lhe meter na cabeça que podia ser mais feliz: matava o marido que a maltratava e casava com o oficial de diligências que era um bom partido e “gostava dela deveras”.

Contra a tal mulher de Amares, nada se comprovou e conforme a prenderam soltaram-ma, mas Araújo, embora protestasse a sua inocência, permaneceu na cadeia. Quando foi acareado com Maria José, caiu para o chão, simulando uma sincope, dissera-se. Ela contou que ele, tendo conhecimento dos maus tratos, se propusera a dar cabo do marido. Assim sucedera no dia 29 de agosto. À hora da sesta, o amante entrou por um portão que deitava para uma rua estreita, entre muros, e aguardou o aviso de que Custódio já ressonava.

“Ambos nos dirigimos então, pé ante pé para o dito quarto, e ali pusemos em execução o plano que anteriormente tínhamos concebido. O Araújo, com a mão esquerda, agarrou-se violentamente ao pescoço de meu marido e, com a direita, lhe deu duas pancadas na cabeça com um mascoto, e simultaneamente eu agarrei-me aos testículos, esmagando-os. Meu marido não soltou grito, nem gemido algum, e apenas um som rouco que logo se extinguiu, deitando a língua fora da boca”, disse, conforme ficou no processo.

O óbito de Custódio João Afonso só foi registado no dia 4 de outubro de 1882, quando o cadáver foi descoberto. Arquivo Distrital de Braga

O óbito de Custódio João Afonso só foi registado no dia 4 de outubro de 1882, quando o cadáver foi descoberto. Arquivo Distrital de Braga

“Na noite do dia seguinte, seriam 11 horas, bateu o Araújo à minha porta, e eu e ele nos dirigimos ao quintal, onde na extremidade do lado do nascente, abrimos uma cova, tendo o Araújo o cuidado de separar a camada de terra escura que estava por cima da outra que por baixo aparecia mais barrenta, para depois se não descobrir que aí tinha havido qualquer escavação. Concluída a cova fomos buscar o cadáver. O Araújo pegou-lhe pelo tronco e eu pelas pernas. Lançámo-lo na cova, mas como esta fosse muito acanhada em relação ao tamanho do cadáver, que demais a mais estava hirto em consequência de já lhe ter sobrevindo a rigidez cadavérica, o Araújo calcou-o com os pés para o acomodar na cova”, terá ainda dito, acrescentando que, no dia 31, ela terraplanara e semeara sarradela, “pois que o resto do terreno tinha sido semeado poucos dias antes da mesma semente”.

“Maria Gomes tem o aspeto de quem alberga um bom coração, e os seus 37 anos [nasceu a 27 de abril de 1844, já fez os 38], não lhe têm roubado, nem o rosados das suas faces ainda frescas nem tão pouco os predicados necessários para fazerem atear as labaredas do amor; e foi por isso talvez que Francisco Araújo, oficial de diligências, de Amares, se deixou cativar pelos seus belos olhos. Estas relações amorosas chegaram ao conhecimento do marido, homem sério, o qual tratou de obstar a este escândalo vergonhoso, repreendendo a mulher, e não sabemos se até lhe chegava a roupa ao corpo”, escreverá na altura o jornal do Porto “A Lucta” (como se grafava à época).

OFICIAL DE DILIGÊNCIAS ATIRA-SE PELA JANELA DO TRIBUNAL

No seu novo depoimento, que não contrariará em tribunal, Maria José tanto detalha com grande precisão como deixa algumas coisas por explicar. Mas para as autoridades a confissão e as provas são suficientes para levar mulher e amante a tribunal. Pouco mais de dois anos depois, no dia 3 de dezembro de 1884, pelas dez da manhã, iniciava-se o julgamento. Ela apareceu de luto carregado, com uma longa capa negra até aos pés, mostrava-se abatida, “tinha a lividez de um cadáver”. Ele, bem trajado, sereno, fitava tranquilo a inúmera assistência - estarão presentes umas duas mil pessoas, entre a sala e o largo fronteiro ao edifício. Cinco horas depois, feita a leitura do processo e ouvidas cinco das cerca de 80 testemunhas, o juiz decide fazer um intervalo de meia hora.

Francisco Araújo é levado para uma sala contígua, guardado por dois polícias civis que hão de ser acusados e presos por lhe facilitarem a fuga. A janela não tinha grades, o oficial de diligências partiu o vidro e saltou, “largando a correr”. Mas seria uma fuga de pouca dura. Agarraram-no vários indivíduos que por ali estavam. “Daí em diante o réu apresentou uma fisionomia sinistra, um olhar feroz, em que parecia querer fulminar os indivíduos a quem fitava”, mas continuou a dizer-se inocente e a acusar Maria José, o pai desta e a filha Josefa de terem cometido o crime, segundo escreveu o correspondente do “Diário de Notícias”.

O caso, que encheu páginas de jornais, teve tal repercussão que um merceeiro de Braga se recusou a atender umas clientes vindas da freguesia, onde se dera o crime. Pesava ele alguns dos produtos pedidos, quando começaram a falar do lavrador dado à morte pela esposa. As mulheres revelaram então saber do assunto por serem conterrâneas da acusada e o homem ficou possesso. “Vocês são de Rendufe?! Ponham-se já na rua, que lhes não vendo nada”, gritou-lhes. Isto muito antes de, ao fim de 34 horas de julgamento, Maria José Gomes Ferreira ser condenada a 28 anos de degredo, oito dos quais presa, e Francisco Araújo a 30, dez dos quais numa cela africana.