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Vidas organizadas

As agendas não são uma peça de memória, como organizadores, lembretes ou diários. E não passaram de moda

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Aproxima-se o ano novo e as montras das papelarias começam a expor as mesmas agendas e organizadores que nos acompanham há décadas. Há quem não as dispense e quem as compre por hábito. Embora seja um mercado de nicho, não é exclusivo das gerações mais velhas. E se o tempo é um bem cada vez mais precioso, a gestão dos compromissos é fundamental. Num mundo em que os telemóveis inteligentes estão sempre à mão, capazes de organizar e programar ao pormenor as nossas vidas, haverá espaço e mercado para as agendas em papel? Na Livraria Barata (grupo Leya), na Avenida de Roma, em Lisboa, parece que sim. Na secção de papelaria, Sandra Cruz anda a ouvir pedidos e a apontar encomendas de agendas (de €7 a €30) desde setembro e à medida que o ano se aproxima do fim são cada vez mais os interessados. É certo que as agendas não se programam para tocar antes de uma reunião importante, nem avisam sobre o estado do trânsito para não chegar atrasado à tal consulta médica. Mas ainda há quem não as dispense.

António Nunes, jurista no Banco Popular, vive rodeado de gadgets que lhe permitem ter a agenda à distância de um clique, mas é no papel que encontra a satisfação de ver a sua vida organizada. Reuniões, consultas, encontros com amigos... aponta tudo. Chega a escrever textos, conversas, frases, ou a fazer desenhos de coisas que marcam o seu dia a dia. Usa-a também para não se esquecer dos aniversários importantes. Diz que é mais do que uma agenda. “É um diário. Tem lembretes, até um álbum.” Não deita fora nenhuma e volta e meia faz uma viagem às agendas anteriores, para perceber como foi determinado ano. Fátima Machado, advogada, é mais uma pessoa que não sai de casa sem a agenda. Aliás, tem sempre três agendas consigo: a física, a jurídica e a do telemóvel. Usa-as por esta ordem. A primeira, mais do que uma listagem de tarefas e compromissos, é um auxiliar para organizar a sua vida: aponta todos os compromissos e a listagem diária das tarefas que pode fazer caso tenha tempo disponível. Mesmo vivendo na geração Facebook é na agenda que consulta os aniversários dos amigos e familiares. A jurídica usa como elemento de consulta e ferramenta profissional. Por fim, no telemóvel aproveita os avisos e o facto de tudo o que marca no Outlook ir lá parar automaticamente, mas nunca deixa de transcrever para a agenda em papel.

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Sandra Cruz atende todos os dias muita gente da geração de António Nunes e Fátima Machado, os nascidos nos anos 80 e 90, à procura de agendas. Estes preferem agendas de secretária, mas as gerações mais velhas optam quase sempre por “aquelas muito pequeninas”. As opções são inúmeras e há para todos os gostos. Da industrial à escolar, passando pela do professor e até a do educador. Todas têm pormenores alusivos a cada profissão e estão organizadas de forma a que não falte nada. Sandra Cruz explica que algumas até já têm acessos digitais. É um mercado de nicho, onde há muitas gavetas. Que o diga Bárbara Barroso, jornalista e autora do blogue “As dicas da Bá”, que depois de escrever dois livros decidiu levar ao público uma “ferramenta de poupança” que não fosse depositada na prateleira depois de consultada. A “Agenda da Poupança 2017” (€15,50) “lembra todos os dias as práticas que ajudam a organizar as finanças familiares” e tem lembretes como os dias para entregar o IRS ou pagar o IMI, entre muitas outras dicas de poupança diária. Bárbara quer contrariar a ideia de que “a primeira dica de poupança é poupar na agenda.” Até porque a sua tem parceria com hotéis, óticas e outras entidades que oferecem vouchers para serem usados e aumentar a poupança familiar.

A experiência da autora foi fundamental. Tanto na gestão financeira, como na ótica da utilizadora de agendas. Diz que a sua agenda “já não fecha” de tanto papel e lembrete que vai acumulando e que para si é impossível um telemóvel substituir uma agenda física. Faz parte “de uma geração de transição que ainda gosta muito do papel, mas que já vive no digital”, e acrescenta que tem necessidade de ler coisas em papel, sem se preocupar com a bateria. Diz que a maioria dos seus colegas, jornalistas que escrevem muito para o digital, não vive sem uma agenda física. A que Bárbara usa é uma Moleskine. “Um fenómeno que não passa de moda”, garante. Mais do que uma moda, é uma “questão de hábito”, explica Sandra Cruz: as pessoas gostaram daquele formato e procuram-no sempre. É um hábito que já dura há muitos anos e parece não ter fim à vista, mas não é inédito. Sandra lembra-se das agendas Pantone, descontinuadas há três anos, mas que resultavam da mesma forma junto do consumidor — tanto que continua a haver quem entre na papelaria à procura da marca.

As Moleskine parecem ser as preferidas de muitos e de várias gerações. Nascidas em 1997 apenas com o objetivo de trazer ao dia a dia os famosos blocos pretos essenciais à vida de artistas como Vincent van Gogh, Pablo Picasso, Ernest Hemingway e Bruce Chatwin. Depressa as discretas capas pretas pintaram-se de cores e até de edições especiais com desenhos na capa, como é o caso da coleção dedicada ao Principezinho em 2016. A marca italiana espalhou-se pelo mundo e já começa a ganhar terreno no mundo online, este ano lançou uma aplicação para iPad e Apple Watch com todas as características que lhe são reconhecidas e mais algumas que aproveitam o digital. No mundo das agendas, tal como no mundo real, há hipóteses para todos os bolsos. Sempre que marcas conhecidas, como a Louis Vuitton (€255), lançam as novas coleções, a agenda está lá.

Tradição

Em Portugal, as agendas da Firmo fizeram parte de todos os escritórios e de todas as casas durante muitas décadas. Os tradicionais cadernos de capa azul, as agendas Condor e os muitos índices existem desde há 65 anos e continuam a reinventar-se. Para 2017 a empresa aposta nos azulejos tradicionais, em padrões mais ousados e nos axadrezados, à venda na maioria das papelarias. Numa onda revivalista, na loja A Vida Portuguesa encontra-se o tradicional caderno de capa azul, com legenda branca debruada a vermelho (€12,30).

Tradição, hábito e organização. São vários os motivos que levam a que uma agenda seja um objeto essencial nas secretárias, nas carteiras e nos bolsos. E se a tudo isto se juntar a solidariedade? A agenda do IPO Lisboa para 2017 (€13,90) quer ter tudo o que uma agenda tradicional tem e ainda juntar-lhe um fator diferenciador: ser uma obra de arte. A capa é ilustrada por João Vaz de Carvalho e depois de aberta há mais três ilustrações do pintor. Lá dentro, por cada mês do ano, uma história marcante contada na primeira pessoa, assinada por nomes como Marcelo Rebelo de Sousa, Nuno Markl, Afonso Cruz e Catarina Furtado. À medida que o ano vai passando e se vai folheando a agenda encontram-se histórias do IPO. O objetivo é levar o IPO à comunidade. Todas as receitas resultam a favor do serviço de pediatria do hospital oncológico. O mundo das agendas não é destronado pelo dos telemóveis, tablets ou computadores. Bárbara Barroso lembra que como qualquer produto em papel, a agenda apenas se transformou. “Não acabou.”

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 29 de outubro de 2016