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Fabricantes de automóveis sob suspeita de batota nos testes de monitorização de pneus

O sistema de alerta do estado de pressão dos pneus, cuja instalação passou a ser obrigatória em todos os automóveis fabricados na Europa desde 2014, “está a ser manipulado”. O alerta é dado pela Federação Europeia dos Transportes e Ambiente, da qual a Quercus faz parte

Carla Tomás

Carla Tomás

Jornalista

Há um novo escândalo relacionado com a indústria automóvel, avisa a Quercus. A Federação Europeia dos Transportes e Ambiente, à qual está ligada a associação ambientalista portuguesa, realizou testes independentes a automóveis de passageiros nas estradas europeias e descobriu um novo exemplo de manipulação por parte dos fabricantes, desta vez relacionado com o sistema de alerta do estado dos pneus.

“Agora, não estão em causa as emissões poluentes dos veículos, à semelhança do que aconteceu há um ano com os veículos a diesel da Volkswagen, mas sim a sua segurança”, adianta ao Expresso Mafalda Sousa, do grupo de Energia e Alterações Climáticas da Quercus.

Desde 2014 que é obrigatório os fabricantes europeus incorporarem nos carros dois sistemas de monitorização da pressão dos pneus (que em inglês é conhecido pela sigla TPMS) — os diretos e os indiretos. Estes sistemas “permitem alertar o condutor quando os pneus estão com pressão insuficiente ou perigosamente baixa”, explica Mafalda Sousa. Porém, começaram a surgir críticas relacionadas com a ineficácia sobretudo dos sistemas "indiretos", mais baratos. E a Federação Europeia dos Transportes e Ambiente resolveu encomendar um conjunto de testes a veículos de duas marcas: VW Golf e Fiat 500L.

Os carros passaram nos exames de homologação em laboratório, mas chumbaram nos de estrada com uso de pneus com mais rodagem, alertando para “potenciais implicações sérias para os condutores e outros utilizadores da via pública”, sublinha a Quercus. Testados em 16 situações de condução real, o modelo de sistema indireto do VW Golf falhou em 14 e o do Fiat 500L em todos.

“Vidas humanas não podem ser postas em perigo a bem de pequenas poupanças nos custos dos fabricantes”, defende a Federação Europeia dos Transportes e Ambiente num briefing tornado público este domingo.

Segundo esta entidade, a manipulação feita pelos fabricantes é justificada com o objetivo de evitar falsos alertas potenciados pela velocidade em estrada e condições externas do pavimento, nomeadamente chuva ou gelo. Mafalda Sousa explica que “tal como os dispositivos de software foram manipulados para reduzir as emissões de modo a não serem detetadas em testes em laboratório, o mesmo aconteceu com estes sistemas indiretos de alerta dos estado dos pneus”.

Ambientalistas e a Federação Europeia dos Transportes e Ambiente consideram que a legislação europeia deve ser revista até ao final de 2016, no âmbito do novo Regulamento Geral de Segurança. E defendem que apenas devem ser autorizados os sistemas TPMS "diretos", assim como a obrigatoriedade de testes em estrada.

Mafalda Sousa adverte que “além da óbvia questão das condições de segurança, a pressão indevida dos pneus conduz a um aumento do consumo de combustível e a um maior desgaste do automóvel”. A Quercus lembra também que no âmbito de uma campanha de sensibilização realizada pela Associação Automóvel de Portugal (ACAP), em 2013, “cerca de um terço das 900 viaturas inspecionadas em Lisboa e Porto tinham os pneus num estado considerado muito perigoso para a circulação rodoviária, necessitando de uma intervenção urgente”.