Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

Pai Mortágua no lançamento de livro sobre assalto ao Banco de Portugal

Camilo Mortágua, pai das deputadas Mariana e Joana Mortágua, foi um dos participantes no assalto ao Banco de Portugal na Figueira de Foz em 1967. Uma das várias ações da LUAR na luta contra o regime de Salazar

José Carlos Carvalho

Camilo Mortágua foi um dos homens que acompanhou Hermínio da Palma Inácio no assalto ao Banco de Portugal na Figueira da Foz, em 1967. E vai estar presente no lançamento de um livro da autoria de Luís Vaz que diz que os intervenientes “prestaram contas” de todo o dinheiro gasto em “intervenções contra o regime” do Estado Novo

Um novo livro sobre a vida de Palma Inácio revela que os autores do assalto ao Banco de Portugal na Figueira da Foz, em 1967, "prestaram contas" de todo o dinheiro e que este foi gasto em "intervenções contra o regime".

"Palma Inácio e o Assalto ao Banco de Portugal da Figueira da Foz (1967)" é o terceiro volume de um conjunto de quatro livros que o historiador Luís Vaz está a escrever sobre Hermínio da Palma Inácio, falecido a 14 de julho de 2009 e que, antes do 25 de Abril de 1974 protagonizou ações contra o regime, como o desvio de um avião. O livro, que será lançado a 10 de novembro, na presença de alguns dos autores do golpe na Figueira da Foz, como Camilo Mortágua, conta ao pormenor a forma como foi preparado e executado o golpe, e as suas consequências, na vida destes revolucionários.

A mais-valia desta obra é o testemunho de alguns dos autores do assalto, a par de uma pesquisa bibliográfica. Em entrevista, Luís Vaz disse que o que mais o surpreendeu no decorrer da investigação sobre o assalto foi "o generoso entusiasmo com que os intervenientes nesta operação, quer os três elementos ainda vivos que executaram o confisco, quer os responsáveis indiretos pela logística operacional, partilharam a sua experiência na missão que lhes fora atribuída, bem como a lucidez com que o fizeram, passados quase 50 anos".

E chegou a outras conclusões, como a existência em Portugal de pessoas que, mesmo clandestinamente, "estavam disponíveis, não só para participar, como para garantir viaturas para deslocações e casas particulares para esconderijo". Na obra, escreve: "É verdade que a operação obedeceu a uma estratégia e a um planeamento mínimo que davam garantias de sucesso. Porém, ao contrário do que pensaram as autoridades, foi levada a cabo não por 'profissionais do crime', mas por amadores natos, movidos por convicções políticas, que acreditavam que o regime apenas seria derrubado com o recurso a armas e para isso era preciso arranjar dinheiro para as conseguir".

Em relação ao montante que resultou do assalto -- alegadamente obtido para "financiar a revolução" -- Luís Vaz refere que, "dos cerca de 30 mil contos [150 mil euros] que foram levados do banco, apenas 4.500 contos [22.500 euros] eram constituídos por notas circuláveis, não tendo as restantes notas curso legal nem poder liberatório".

"Quase todas as notas virgens foram recuperadas pela PIDE, quer as que permaneceram em Portugal, quer as que chegaram a Paris, uma vez que havia um informador no Conselho Superior da LUAR" (Liga de União Antifascista Revolucionária), adianta o autor. Luís Vaz concluiu que "os operacionais prestaram contas de todo o dinheiro gasto em intervenções contra o regime e que nem de um centavo se apoderaram para proveito próprio".

Sobre os autores do assalto, classifica-os como "portadores de uma coragem e de uma convicção extremas, acreditando inequivocamente que, com a sua ação, ajudariam a criar condições para o derrube do regime". Luís Vaz reconhece que, quase meio século depois, a opinião sobre este assalto e os seus protagonistas não é igual. "A seguir à operação, a imprensa do regime classificou este comando de operacionais como sendo composto por bandoleiros, ladrões e até criminosos perigosos. Fez passar essa mensagem durante algum tempo. Não obstante, a imprensa estrangeira, sobretudo de países com grande número de portugueses emigrados e exilados, classificou a ação como estando inserida no combate político contra a ditadura e os elementos que a executaram como cidadãos de coragem e de convicções democráticas profundas".

"Só depois do 25 de Abril é que parte da imprensa portuguesa adotou um discurso convergente com o anteriormente utilizado pela imprensa estrangeira".