Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

O dia em que a Microsoft se tornou mais inovadora que a Apple

BONITO, MAS... A Touch Bar é a maior novidade dos Macbook Pro que já podem ser encomendados. Os computadores têm um design irrepreensível, mas são pouco inovadores

getty

Nos últimos cinco anos a Microsoft reinventou-se. Apostou claramente nos serviços, direcionou-se para a Nuvem (serviços baseados em tecnologias de Internet) e para a mobilidade

A rivalidade entre a Microsoft e a Apple é uma das mais antigas da Tecnologia. Vem do início da massificação da computação pessoal. Altura em que a Apple estava (e está) apostada em dominar o ecossistema por completo e a Microsoft a impor o Windows ao mundo. Estratégias que derivam da génese de ambas as empresas: a Apple com um pé no hardware e outro no software; a Microsoft com os dois pés no software e um dedo mindinho no hardware (ratos, teclados e Webcams sempre foram desenhados pela empresa de Bill Gates).

Se, no princípio, a estratégia da Microsoft parecia mais acertada com o Windows a chegar a quase a 90% dos computadores do planeta e com o resgate que Gates fez à Apple em 1995 (quando injetou milhões na empresa do desgastado Steve Jobs em troca da entrada do Office no Macintosh); a balança acabou por pender para o malogrado Jobs quando o iPhone e o iPad (e o ecossistema de apps inerente) catapultaram a Apple que chegou a ser, por várias vezes, a empresa mais valiosa do mundo.

Nos últimos cinco anos a Microsoft correu atrás do prejuízo e reinventou-se. Apostou claramente nos serviços, direcionou-se para a Nuvem (para os serviços baseados em tecnologias de Internet) e para a mobilidade. Pelo meio comprou e desmantelou a Nokia para tentar ganhar quota no mercado da mobilidade dominado pela Google e pela Apple. Não correu bem e a empresa poderá deixar de produzir, no final deste ano, como pode verificar AQUI, os telefones Lumia (herdados dos tempos da Nokia) terminando assim a sua aventura como fabricante de smartphones.

A Microsoft é mais inovadora que a Apple. Sim, é!

Mas se aposta na Nokia não correu bem, não se pode dizer o mesmo sobre o caminho trilhado pelo Windows 10, pelo Office e pela, surpreendente, entrada da Microsoft no mercado dos fabricantes de computadores pessoais.

Por partes. O Windows 10 foi o primeiro Windows gratuito. Uma estratégia de claro reforço de posição de mercado que levou a que, segundo números oficiais da Microsoft, mais de 400 milhões de dispositivos em 192 países estejam, hoje, a utilizar este sistema operativo. O Office, que estava preso ao computador pessoal, apareceu nas plataformas móveis e passou a integrar o iPad, o iPhone e os muitos milhões de dispositivos Android. Era o reflexo imediato da decisão da Microsoft em dar mais relevo a um sistema de subscrição em detrimento do já gasto modelo de licenciamento – utilizadores e empresas em vez de pagarem pela licença de utilização de uma versão do software, pagam uma subscrição para ter acesso, sempre, ao software mais atualizado.

Depois, veio o Surface. O híbrido da Microsoft que junta o conceito de tablet e computador. Correu tão bem que no passado trimestre as vendas aumentaram 38%, como poder verificar AQUI. A Microsoft apostou, também, na Realidade Aumentada com o sistema Hololens e revelou-se uma das empresas melhor posicionadas para trazer os hologramas a empresas e a utilizadores individuais. Pode ver os revolucionários Hololens a funcionar NESTE VÍDEO OFICIAL.

Sim, a Microsoft recuperava algum sex appeal. Enquanto isso, a Apple contratava os U2 para o lançamento do Apple Music, o serviço de streaming de música que já é um dos mais utilizados no mundo. Tim Cook, o CEO que substituiu Steve Jobs, mostrou uma série de iPhones e iPads que continuam a ser dos dispositivos mais rentáveis do mercado; e entrou nos relógios inteligentes com o Apple Watch que já é o relógio inteligente mais vendido do mundo. Além disso, o software continuou a evoluir. Sendo o Apple Pay (o sistema de pagamentos eletrónicos) e o HealthKit (plataforma para a criação de apps na área da saúde) os mais significativos.

MOTIVOS PARA SORRIR? Tim Cook na área de demonstração após a conferência de imprensa. iPhones e iPads estão na linha da frente das prioridades do CEO da Apple

MOTIVOS PARA SORRIR? Tim Cook na área de demonstração após a conferência de imprensa. iPhones e iPads estão na linha da frente das prioridades do CEO da Apple

getty

Não há dúvida que as coisas correm bem a ambas as empresas, mas a semana passada, a Microsoft ganhou muitos pontos num dos pilares da Apple: o dos computadores pessoais.

O filme é fácil de contar. Na passada quarta-feira, a Microsoft revelou o SURFACE STUDIO, um dispositivo que é, claramente, uma nova categoria de computador destinado aos produtores de conteúdos. Sim, para os designers, editores de vídeo, músicos e, entre outros, para os fotógrafos. Um habitat que escolhe computadores Mac. Além disso, a Microsoft mostrou a nova geração do Surface Book (um híbrido com design de eleição) e revelou que a próxima atualização do Windows 10 (Windows 10 Creators Update) vai facilitar a criação de objetos tridimensionais – incluindo hologramas que vão “ganhar vida” com os Hololens já referidos.

Terminada a apresentação, a Internet rejubilou com o que viu e ficou em expectativa para o que a Apple poderia responder. Afinal, para o dia seguinte, estava marca a apresentação que serve de palco para a revelação dos novos Mac. E a responsabilidade da Apple ainda era maior porque se comemorava os 25 anos em que a empresa lançou o seu primeiro portátil. Muita pressão, mas nada a que a Apple não esteja habituada – afinal, todos os eventos da empresa são seguidos com muito interesse pelos analistas.

É verdade que o evento dos Mac é sempre mais pequeno que o dos iPhone, mas o que vimos na semana passada chegou a ser confrangedor. Tim Cook abriu o evento com mais de 30 minutos de conversa sobre uma app que, dizia ele: “Vem mudar a forma como vemos TV”. Basicamente, “TV” (sim, é o nome da app) reúne uma série de serviços de TV numa única interface e faz sugestões de conteúdos consoante os gostos do utilizador – algo que as boxes dos serviços de TV em Portugal fazem há algum tempo. Depois deste início pouco auspicioso e de estar perante uma plateia muito pouco efusiva (se compararmos com outros eventos da marca), foram revelados os novos Macbook Pro que, como seria de esperar, são mais rápidos, mais leves e finos, e têm mais autonomia que a geração anterior. Mal seria se não fosse assim. A grande novidade é um barra tátil (que é um ecrã) onde os comandos vão surgindo consoante as aplicações que estão a ser utilizadas. Menus contextuais, portanto. E pronto. Foi isto!

Relembro que este era o evento que marcava o 25º aniversário dos computadores portáteis da Apple. Curiosamente, os novos Macbook continuam a ter porta para auscultadores (a mesma que a empresa “matou” nos iPhone) e há, agora, duas versões com ecrãs de 13 polegadas. Uma tem a tal barra tátil de menus e outra, mais barata, não. Para gerar mais confusão junto do público-alvo do Macbook Pro, a Apple acabou com o leitor de cartões SD (muito usado por quem faz fotos e vídeos). Ah! E ainda não foi desta que foi lançado um Macbook com ecrã tátil.

Moral da história: em dois dias a Microsoft tornou-se uma empresa inovadora e a Apple deixou de ser a que “pensa diferente” (slogan histórico da empresa).

Mas o que quer isto dizer para o portefólio da Apple? Estará a empresa tão focada no iPhone e no iPad (o iPad Pro quando foi apresentado chegou a ser anunciado como um substituto do computador portátil) que só existe espaço para estes dispositivos na sua estratégia de futuro? Sim, acredito que sim. Quando a Apple entrar em tecnologias como a Realidade Aumentada e a Realidade Virtual, o dispositivo de eleição será sempre o iPhone e nunca o Mac. E isso ficou mais claro que nunca depois da apresentação da semana passada.

O problema é que as vendas do iPhone estão a baixar. Os resultados financeiros mais recentes mostram uma quebra de 5% (comparado a período homólogo) NESSA ÁREA. E quando já não tiver a capacidade de inovar, que, realmente, parece perdida, e o iPhone não for o motor de faturação… o que será da Apple? É verdade que a empresa tem muito dinheiro em caixa para gastar, mas não pode faltar-lhe o engenho. É por todas estas razões, e por muitas mais, que o iPhone 8 se assume cada vez mais importante no futuro da empresa norte-americana. Para o ano, quando Tim Cook o revelar ao mundo, o iPhone terá de ser capaz de recuperar o fator “Uau!” que sempre foi característico da Apple. Caso contrário, teremos, todos, a certeza que a inovação deixou de fazer parte do ADN da empresa.