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Envenenados pelo papel de parede. O pigmento à base de arsénico que foi moda no século XIX

EMMANUEL DUNAND/GETTY

Os vapores libertados pela tinta tinham efeito tóxico ou mesmo mortal, mas sobretudo a sociedade britânica, em plena época vitoriana, parecia querer ignorar a evidência do perigo. O composto usado no papel decorativo garantia o mais bonito dos verdes. E até Napoleão Bonaparte, no exílio, rodeado pelas cores brilhantes da sua França natal, acabou envenenado

Frequentemente citado nos romances policiais e nas antigas crónicas do crime como expediente para acelerar heranças ou despachar maridos com mau feitio, o arsénico teve outras utilizações populares durante o século XIX, aparentemente menos venenosas. Mas só aparentemente, já que há registo de numerosas mortes provocadas pelo seu uso corrente em têxteis, decoração, brinquedos infantis e até produtos alimentares.

Muitos foram os que sucumbiram – literalmente – à opulência da decoração vitoriana. Em particular, os que não resistiram ao papel de parede, moda que floresceu a partir da segunda metade do século XIX, impulsionada pelo aparecimento de novos padrões, conformes ao gosto da época e impressos em cores mais ricas e brilhantes. Para esse encanto contribuiu um famoso pigmento, à base precisamente de arsénico, inicialmente desenvolvido para aperfeiçoar um tom de verde mas que se percebeu ser eficaz para criar amarelos brilhantes e azuis mais fulgurantes.

A história vem contada no livro “Bitten by Witch Fever: Wallpaper & Arsenic in the Nineteenth-Century Home”, de Lucinda Hawksley, obra publicada este mês no Reino Unido e que recorda como a sociedade inglesa fechava os olhos a algo que sabia ser perigoso, mesmo com os alertas dos médicos e com o arsénico a ser regulado noutros países europeus, dado o risco comprovado.

O livro recorda alguns dos acidentes registados depois de 1850, como a morte de duas crianças numa casa em Londres, após terem rasgado o papel de parede e lambido parte da sua tinta. Mas, mais do que os relatos médicos associando as mortes aos efeitos do veneno, foi preciso aparecerem novas técnicas de tintura para a indústria mudar e, com ela, alterar-se a procura.

De tal forma as pessoas se convenciam de que não havia risco, conta Lucinda Hawksley, que era hábito mergulhar-se a carne numa solução que continha arsénico para manter afastadas as moscas.

Outra vítima famosa dos efeitos nocivos do arsénico foi Napoleão Bonaparte. Antes mesmo do livro agora lançado, diferentes investigações históricas permitiram concluir que o imperador francês exilado em Santa Helena, respirou durante anos os vapores do veneno, libertados das paredes que escolhera decorar com papel. Pode não ter sido a causa da morte (as pesquisas mais recentes sugerem que sofria de um cancro no estômago), mas foi a razão encontrada para a concentração excessiva de arsénico nos seus cabelos.