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Ricardo Pereira: “Quero tentar a sorte na América”

joão lima

O ator português mais popular do Brasil fez história ao protagonizar pela primeira na Globo uma cena de amor entre dois homens, na telenovela de época "Liberdade, liberdade", atualmente a ser exibida na SIC. Com uma carreira sólida na televisão, cinema e teatro tem como próximo objetivo tentar o mercado americano

Está prestes a ser exibida na telenovela "Liberdade, Liberdade" a cena de sexo que protagonizou com o ator Caio Blat e que provocou uma grande polémica no Brasil, por ter sido a primeira cena íntima entre dois homens numa novela da Globo. Para si, que durante anos representou o ‘namoradinho’, este papel é uma enorme mudança. Foi difícil representá-lo?
Para mim foi um divisor de águas. Saí de um caminho na televisão mais identificável com os papéis do ‘mocinho’, o galã das histórias. Com esta personagem [capitão Tolentino] rompi um bocado com tudo. Interpreto um militar rude, é o vilão da história e, ao mesmo tempo, tem um lado humano, defende a coroa e vive um amor por um outro homem, está a descobrir-se como pessoa. No cinema e no teatro, tenho tido oportunidade de fazer personagens mais complicadas, com mais camadas e densidade. E agora pude fazê-lo na televisão.

No cinema as cenas de sexo têm uma preparação especial. Também a tiveram?
Foi uma cena muito discutida. O realizador Vinicius Coimbra queria fazer uma cena de amor entre dois homens, e que o espectador compreendesse que aquilo era inevitável acontecer com aquelas personagens. Eu e o Caio fomos desenvolvendo as personagens para aquele caminho, aquele clímax. Queríamos fazer uma cena que fosse de amor e não meramente carnal. Que pudesse ser vista sem preconceito.

Quando essa cena passou, o hashtag “Liberdade, Liberdade” foi o mais comentado no Twitter. Os comentários diziam coisas como: “Foi um 'tapa' na cara da família tradicional brasileira”. Foi?
Não sei. Se calhar. Quando fizemos a cena uma das coisas que ficou claro é que não se tratou de levantar bandeira nenhuma. E foi uma cena muito bem recebida. O que revela que as mentalidades estão muito mais abertas. Há respeito pelas orientações sexuais de cada um.

Mudou-se para o Rio de Janeiro há 13 anos e é neste momento o ator português mais popular no Brasil. Foi protagonista de cerca de uma dezena de telenovelas da Globo. Chegou mesmo a aprender a representar com sotaque brasileiro. Já é um deles?
Como ator seria para mim extremamente limitativo só representar com o sotaque de Portugal. Comecei na Globo com a novela “Como Uma Onda” [em 2004] onde interpretava um português. Mas já aí usava palavras e expressões brasileiras. Porque era a primeira vez que a Globo tinha um estrangeiro a protagonizar uma telenovela em 40 e tal anos de história. Entrava na maioria das cenas. Já viram o que seria se o público brasileiro não me entendesse...

Pensou que o público não o perceberia se falasse em português de Portugal?
Pediram-me para tentar dobrar [o sotaque], e ver se poderia dizer algumas palavras utilizadas no Brasil, falar mais devagar, porque senão perdia a audiência por não me perceberem. Continuei a trabalhar noutras novelas dessa maneira, até que há seis anos contratei uma fonoaudióloga para se juntar à minha equipa de trabalho. Ela é uma terapeuta da fala que trabalha com a respiração, a fonética, a articulação da palavra. Com ela tenho um trabalho contínuo e o sotaque brasileiro tornou-se uma língua para mim. O que abriu o leque de convites e de trabalho. No outro dia fui ao nordeste do Brasil e uma mulher no aeroporto disse-me: “Adoro ver você. Como é que você fazia tão bem de português?” [imita com sotaque brasileiro] As pessoas acham que sou brasileiro.

Como é que foi parar às telenovelas no Brasil?
Tudo começou porque fui a um casting para uma telenovela que se chamava “Esperança” [Produção de 2002, de Benedito Ruy Barbosa], dessa vez não fiquei, quem acabou por ir foi o Nuno Lopes. E fê-lo muito bem. Dois anos depois vou a São Paulo, para um desfile de uma marca de roupa brasileira, e aproveitei para viajar até ao Rio de Janeiro onde visitei os estúdios Projac da Globo com uma agente. Quando estava a passar o portão para me vir embora esta agente lembra-se de me apresentar a um amigo. Fomos à sala dele e por uma incrível coincidência ele estava a visionar uma cassete VHS com uma imagem minha do tal casting que tinha feito. Estava à procura de um ator português para protagonizar a novela “Como uma Onda”. Nessa altura, olhou para mim e pediu que fizesse um novo casting. Correu lindamente. Repeti outro já em Lisboa e fui escolhido. E o que era para ser uma experiência de seis meses dura até hoje.

Há muito que desejava essa internacionalização?
Eu sentia que a minha carreira tinha que ir além de Portugal. Fosse no Brasil, em Espanha, em França ou nos Estados Unidos. Quero tentar a sorte na América a começar do zero, quero passar lá um tempo. Quando me estreei no Brasil juntaram-se ingredientes interessantes, era a primeira vez que um estrangeiro tinha um papel de protagonista, era um miúdo novo, tinha 23 anos. E, de repente, estava nas capas de todas as revistas, numa escala que não conhecia. Acima disso, só ser um ator internacional de um blockbuster americano. Porque a cultura brasileira contamina o mundo em vários lugares. Eu recebo ene e-mails de pessoas que me seguem do Paraguai, do Chile, da Argentina, do México, da Colômbia.

Essa popularidade repentina e em grande escala deslumbrou-o?
Curti, aproveitei, vivi como tinha que viver. Não me baralhou porque tenho boas raízes familiares. Claro que aos 23 anos aproveitei essa onda boa feita de muitos namoricos, amizades, viagens. Na altura a Globo pegava nos atores novos, como eu, e levava-nos a apresentar eventos, íamos a concertos só para dar um ‘oi’. Eram presenças para milhares de pessoas.

Não se sentiu uma enorme estrela? Foi o ‘momento Elvis’ da sua vida?
Claro que me senti. No Brasil vivi o ‘momento Elvis’ da minha vida. Eu era um solteiro no Rio de Janeiro, foi um momento para desfrutar.

Decidiu viver no Brasil pelas oportunidades artísticas, mas também pelo ordenado e qualidade de vida...
Vamos desconstruir isto e passar para um jogador de futebol que é convidado para trabalhar no Real de Madrid ou para uma maestrina que vai para uma orquestra nos Estados Unidos. Como não aceitar? De repente o nosso trabalho ganha uma visibilidade tremenda. Nós não existimos sem público. Jogar numa liga com maior visibilidade obviamente é muito bom.

Estar na Globo é jogar na liga dos campeões?
Pode dizer-se isso. Mas continuo a vir para Portugal porque sei qual é a minha origem e quero estar presente no crescimento do meu país, que a nível teatral, cinematográfico e televisivo está cada vez maior.