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Placebo alivia mesmo quem sabe que é falso

Resultados demonstram que a interação com o médico e as expectativas positivas podem ser suficientes para aliviar sintomas

Cristina Bernardo Silva

Um placebo baseia-se no engano: melhora-se por se acreditar que se está a tomar um medicamento verdadeiro, apesar de isso não ser verdade. Isabel Matos, que sofre de dores nas costas desde a adolescência, ficou por isso “bastante cética” quando foi convidada a participar num estudo para doentes com lombalgia crónica, em que lhe foi dito antecipadamente que iria tomar placebos, um tratamento falso sem qualquer substância ativa. Isabel, 49 anos, achou “um pouco absurdo”, mas como aquela era uma situação clínica que a afetava, aceitou o desafio. E nem o rótulo do frasco que lhe foi dado — em que podia ler-se “cápsulas placebo” e “tomar duas, duas vezes por dia” — dava margem para enganos.

Ficou ainda mais convencida da inutilidade do tratamento quando ao fim de alguns dias a tomar as cápsulas cor de laranja que continham microcristais de celulose, uma substância inerte que nunca deu provas de aliviar qualquer tipo de dor, continuava sem melhorar. Numa consulta no hospital de Egas Moniz, em Lisboa, onde decorreu o ensaio clínico, foi informada de que a demora “era normal”. Saiu com as mesmas reservas, mas a grande surpresa acabou por acontecer depois de uma semana inteira a placebos: “Melhorei de forma notória. Fiquei quase sem dores, o que nunca tinha sucedido com anti-inflamatórios. Se pudesse, comprava placebos para controlar a dor crónica e prevenir as crises agudas. Evitava os efeitos adversos dos medicamentos.”

Talvez um dia isso possa acontecer, acreditam os autores do estudo, cujos resultados foram recentemente publicados na revista científica “Pain” e no qual participaram 97 doentes portugueses com lombalgia crónica, uma das doenças mais incapacitantes em todo o mundo. Cerca de metade dos participantes tomou placebos duas vezes por dia, além de manter a medicação que já tomava antes do estudo. Os restantes não receberam qualquer placebo, mantendo a medicação usual. Isabel, incluída no grupo do placebo, não foi a única a sentir melhoras. Ao fim de três semanas a tomar as cápsulas falsas, o seu grupo reportou uma redução de 30 por cento da dor normal e da dor máxima. Já os doentes que ficaram apenas com a medicação habitual revelaram reduções de 9 e 16 por cento, respetivamente. No grupo que tomou o placebo houve, ainda, uma diminuição de 29 por cento da incapacidade relacionada com a dor, enquanto no outro grupo essa redução foi praticamente nula. Após a conclusão do estudo, foi dada a estes doentes a possibilidade de tomarem, também eles, as cápsulas placebo. Sem surpresa para os cientistas, as melhoras voltaram a verificar-se.

O efeito placebo é um mecanismo complexo, mas sabe-se há alguns anos que é mais do que um mero efeito psicológico. Existe também um efeito físico, uma vez que induz os mesmos transmissores no cérebro que são libertados pelos medicamentos ativos. Na maioria dos ensaios clínicos, os participantes pensam que estão a tomar uma substância ativa. Mas este estudo mostra que se pode usar um comprimido falso com conhecimento do doente (o chamado placebo honesto ou aberto), sem que o seu efeito se perca.

“Com mais estudos como este, poderemos demonstrar que é possível fazer uma utilização ética do placebo, dando ao doente o conhecimento de que o está a tomar, sem o enganar nem violar a ética profissional”, afirma a coordenadora do ensaio clínico, Cláudia Carvalho. A investigadora do Instituto Universitário (ISPA) reconhece que “não é o placebo que faz alguma coisa, mas tudo o que envolve a sua toma”, pelo que o contexto no qual ele é prescrito “é muito importante”.

O efeito senhor doutor

A relação empática e de confiança entre o médico e o doente, e as expectativas positivas que geram a esperança de melhorar são alguns dos fatores na origem do efeito placebo. Por isso, Cláudia Carvalho considera que “formar os médicos em competências de comunicação poderá aumentar o efeito de qualquer prescrição terapêutica, placebo ou medicamento”.

Para Joaquim Ferreira, neurologista e professor de Farmacologia Clínica na Faculdade de Medicina de Lisboa, um dos resultados mais importantes do estudo é que “os doentes aceitam participar mesmo sabendo que vão tomar um placebo”. Por outro lado, “a forma como se apresenta o placebo neste estudo não é igual ao que sucede noutro tipo de ensaios clínicos”, em que é apresentado como “algo necessário para que o estudo seja conclusivo, mas as expectativas maiores estão num medicamento experimental”. Aqui, passa-se exatamente o contrário: as hipóteses de maior benefício estão no tratamento placebo. E isto “vai na linha de que o placebo resulta, de facto, de um efeito de expectativa e que essa expectativa, mesmo no contexto em que este estudo foi conduzido, acaba por se traduzir num benefício”. Mas Joaquim Ferreira não vê grandes vantagens na possibilidade de um placebo ser prescrito num consultório. “Penso que um melhor conhecimento sobre o placebo irá ensinar os médicos a tirarem partido da gestão das expectativas, que passará por otimizarmos o benefício usando estratégias que resultam daquilo que estamos a aprender sobre a forma como atua”, explica.

Também Tiago Mestre, neurologista e professor na Universidade de Otava, diz ser difícil imaginar um médico a prescrever um placebo. “Tenho dificuldade em pensar em verdadeiras vantagens além de potenciar um efeito placebo em situações médicas não graves, nas quais não existem opções terapêuticas”.

O psicólogo e investigador americano Irving Kirsh, coautor do estudo, afirma que “os placebos não curam fraturas ósseas nem alteram os níveis de açúcar no sangue, mas podem reduzir a dor, aliviar a ansiedade e a depressão, e melhorar sintomas na síndrome do cólon irritável, doença de Parkinson e asma”.